UFF, 60 anos: excelência, diversidade e presença em todo o Estado do Rio

Atualizado: 21 de Dez de 2020

Reitor da UFF, Antonio Claudio Nóbrega, diz que tempo é de certezas é que a ciência é o melhor caminho



O professor-doutor Antonio Claudio Nóbrega, reitor da UFF


Do tamanho de uma cidade. Mais de 50 mil pessoas, gente bastante para figurar entre os 665 maiores municípios do país: 46 mil alunos, 7 mil professores e funcionários. A maior universidade brasileira, de acordo com o ranking do MEC, completa 60 anos. Mas a data engana. Quando a Universidade Federal Fluminense foi fundada, várias faculdades reunidas no projeto já existiam: a escola de Direito tem 100 anos, a de Medicina, 95. O reitor da UFF, Antonio Claudio Nóbrega, médico formado na universidade que dirige, gosta de lembrar dessa origem da UFF para destacar uma das suas maiores características, a diversidade.


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-A UFF nasce da união de várias escolas, fundada pela reunião dos diferentes. Ela absorveu essa característica. Tem um perfil inclusivo e de cooperação com a sociedade - explica.


Nesta conversa com o A Seguir: Niterói, o reitor da UFF fala sobre a participação no Comitê Científico. Fala de política, da pressão sofrida pela universidade pública no Brasil e do entusiasmo pelas novas possibilidades de desenvolvimento da Educação.


Os 60 anos de história ajudam na construção de uma universidade plural, que atua em todas as áreas de conhecimento, e multicampi, com campus espalhados em várias cidades, não apenas com cursos de graduação, mas oferecendo extensão, projetos, pesquisa e mestrado. Com este perfil, tem atuação marcante na vida do estado do Rio. Um laço que foi reforçado com a participação da UFF no combate à Covid, na pesquisa, no atendimento hospitalar, na análise de dados, em todas as frentes.


-A pandemia ainda não terminou. E vai além da vacinação. Mas hoje nós já podemos antever que a vida será diferente em vários aspectos. No uso da tecnologia, por exemplo. Alguns recursos que já estavam dados mas que eram opções vão se incorporar à vida das cidades, à vida das pessoas. A UFF sempre teve uma atenção especial para as possibilidades da tecnologia. E vai participar da discussão deste mundo que teremos pela frente - antecipa Antonio Claudio, talvez mirando os próximos 60 anos da universidade.


Prédio da reitoria da UFF: uma cidade com mais de 50 mil "habitantes"


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A Seguir: Niterói - Nestes 60 anos da UFF, essa longa história da universidade, no desenvolvimento da ciência e na colaboração com a sociedade, o que o senhor destacaria como característica especial da universidade?


REITOR ANTONIO CLAUDIO NÓBREGA: Eu acho que tem um traço muito evidente da UFF que é um característica nossa, que é um perfil multicampi, nosso relacionamento com o Estado do Rio de Janeiro todo. É um perfil de campi integral. Na sua origem, eram cursos de graduação nessas. Mas hoje a universidade se faz presente em toda a região do Rio de Janeiro, de Angra dos Reis a Santo Antonio de Pádua, não só com cursos de graduação, mas também com cursos de extensão, projetos e pesquisa, e mestrado.


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Isso decorre do papel de Niterói como capital do estado, possivelmente? (A UFF surge em função de movimentos liderados pelo Governador do antigo estado do Rio, Roberto da Silveira, e estudantes que defendiam a federalização da universidades, num movimento de fortalecimento do estado, em relação à Capital federal, o Rio de Janeiro. A UFF originariamente se chamava Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Uferj.)


- Não se pode excluir isso. Mas não foi o determinante. Foi uma decisão estratégica da universidade, mas foi uma decisão do conselho universitário de tornar a universidade multidisciplinar e interiorizar, era um plano de desenvolvimento Institucional. A Universidade foi fundada há 60 anos a partir da reunião de faculdades e escolas já existentes há muitos anos, algumas muito antigas. A Faculdade de Direito tem 100 anos. a de Medicina tem 95 anos. Farmácia, Odonto, Engenharia, Serviço Social… Então essa é uma característica importante, porque na origem somos uma universidade fundada pela reunião de diferentes. Isso caracteriza o nosso perfil. Não somos uma universidade que nasceu da prancheta. De um projeto surgido do zero. Ela já absorveu essa característica de sermos diferentes. Mesmo antes da lei de cotas, ela já tinha políticas afirmativas muito marcadas, tanto do ponto de vista das diferenças étnico-racial quanto na origem de escolas públicas. Este perfil inclusivo, extensionista de cooperação com a sociedade e ao mesmo tempo de excelência acadêmica. É claro que todas universidades têm de certa forma essa perspectiva inclusiva, mas esta é uma característica muito marcante da UFF, a reunião de diferentes.


- Nós acabamos de aprovar agora, no Conselho de Ensino, nossa política para atender a Lei de Cotas nos concursos docentes. A lei já vinha sendo cumprida com relação a alunos e quadros técnicos. Mas passa a ser adotada em relação ao corpo docente. Havia uma dificuldade, porque muitas vezes se faz um concurso para uma vaga, apenas, e não se consegue reserva de 20% de uma vaga para cotas. Havia uma dificuldade de traduzir isso numa política institucional. E agora se amplia o entendimento de que os concursos devem ser tratados em bloco, no conjunto. É um fato concreto, que está presente na vida da universidade, a capacidade articular os diferentes para formar a UFF


O fato de ter um hospital como o Antônio Pedro, que faz parte da vida da cidade - e de certa forma de boa parte do Rio de Janeiro - deve ter ajudado também a estabelecer esta proximidade com a sociedade...


- É bem marcante a história do incêndio do Circo Americano, em Niterói. ( o incêndio do circo, em dezembro de 61, matou 503 pessoas, a maior tragédia na vida da cidade) O Hospital Antonio Pedro não funcionava, mas professores e alunos da Escola de Medicina se mobilizaram para socorrer as vítimas. Essa atuação do Antonio Pedro, dentro deste perfil multicampi, hoje, está enraizada em toda a universidade e em todas as suas frentes. Uma rede de cooperação na área de Saúde em todos os campis. Na Enfermagem,, Psicologia, em todas atividades, em todos os campis. Hoje a rede é muito mais plural e inclusiva.


E o papel da Universidade na formação - e defesa - do SUS, tão importante neste momento? (O Antônio Pedro é da rede do SUS. É um hospital de referência, para cirurgias de baixa e média complexidade, integrado na rede do SUS e atende a toda a Região Metropolitana 2, que compreende Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e todo o Leste fluminense.)


- A UFF teve um papel importante na formatação do SUS, especialmente o Instituto de Saúde Coletiva. O professor Luiz Santini, que foi diretor da Faculdade Medicina. E muitos outros professores. Junto com outras universidades, a UFRJ, e quadros da Saúde, a Fiocruz também colaborou com isso... Mas a UFF foi atuante na definição de um sistema de Saúde Pública.


A Covid aumentou a presença da UFF na vida da cidade e da população? ( O professor Antonio Claudio coordenou o Comitê Científico formado para assessorar a tomada de decisões da Prefeitura no combate à Covid. O grupo conta com cientistas da UFF, da UFRJ e da Fiocruz)


- A UFF sempre colaborou com o município de Niterói. O que tem de diferente é uma decisão estratégica comum, da UFF e da Prefeitura e estabelecer uma cooperação orgânica e articulada. Não pela atitude individual, a colaboração isolada, mas uma cooperação institucional, de maneira que essa cooperação não poderá ser desfeita, porque faz parte da estratégia da universidade e da estratégia do município. Então teve uma decisão estratégica. E também houve investimentos. Hoje mesmo vamos assinar uma série de convênios com a prefeitura para viabilizar os projetos de pesquisa aplicada que miram o desenvolvimento estratégico de Niterói.


Assinatura do acordo da Prefeitura com a UFF para financiamento de projetos de desenvolvimento da cidade


- A pandemia de fato nos aproximou de vez e nós mergulhamos de cabeça. É claro que é um movimento arriscado, do ponto de vista da política pequena, aquela que promove seus acertos e esconde seus erros, porque é território minado, sujeito a críticas e eventuais ataques. Mas atendemos o chamado do Prefeito para colaborar na compreensão da doença e da forma de combater o Coronavírus. Foi uma experiência muito rica e vamos analisar os resultados como um projeto científico.


A pandemia mudou tudo, a vida será diferente. O que muda na universidade? O que é possível saber desde já que vai mudar?


- Parte do aprendizado tem a ver com a gente construir uma maneira saudável de lidar com a tecnologia. Um desafio para humanidade. Isso já estava posto antes e agora se tornou mais urgente. Já tinha o problema das crianças digitalizadas. Podemos dizer que em três meses avançamos 30 anos. Agora está muito claro que boa parte das atividades que exigiam deslocamento podem ser realizadas de trabalho remota. Tem um lado ruim no isolamento, a perda da troca, da interação. Mas o trabalho remoto veio para ficar. Mas temos que construir isto de uma maneira saudável, não ficar essa loucura que estamos vivendo agora, pendurados 24 horas no telefone, no computador, nas lives… Na Educação temos este desafio. E o outro desafio é ver como a gente retorna de forma presencial. É junto? É separado? Então eu diria que a questão é encontrar uma forma de lidar de maneira saudável com tecnologia e construir o equilíbrio com as atividade presenciais de maneira física mais segura


Na economia, fica evidente que há enormes possibilidades de aprofundar o uso da tecnologia em ações que gerem eficiência e sustentabilidade. Niterói tem projetos, alguns com a UFF, para investir num pólo de tecnologia. O que podemos esperar?


- Sem dúvida. A gente já tinha projetos nessa área E o Axel é um grande entusiasta. Posso antecipar até em primeira mão que a proposição é que a gente construa de maneira mais intensa a cooperação em torno do projeto de cidades inteligentes, as smart cities. A gente pretende, no mandato do Axel, construir Niterói como exemplo de cidade inteligente, que é aquela que faz sua gestão a partir de evidências e não a partir de achismos, com a monitorização de movimentos, com informação, gestão de trânsito, gestão de saúde. Niterói tem o sistema integrado de dados para a gestão de segurança. Então este é um trabalho que a gente pretende aplicar para todas as áreas. De forma a ter eficiência e resultados sustentáveis.


Nos últimos anos, as universidades públicas federais passaram a enfrentar questões políticas com o governo federal. Recentemente o MEC determinou a volta às aulas e as universidades reagiram, questionando a decisão, quando são enormes os riscos da Covid. Esse conflito gera desgastes e também cortes de orçamento. Como a UFF encara essa situação?


- Não tem como negar que por parte do governo é uma relação, digamos, tensa em algum grau. Mas não nos pautamos por conflitos, nos pautamos por entregas e realizações. Nós não queremos rivalizar nos com o governo. Ratificamos para dentro e para fora os princípios que nos norteiam. A liberdade de ideias, o respeito à diversidade, apenas ratificamos os valores da universidade. Se isso gera confronto, é um direito dele achar o que acha. É claro que se traduz na prática em reduções orçamentárias. E nesse sentido a UFF tem feito um trabalho muito competente no sentido de absorver as restrições e buscar soluções em prejuízo de suas atividades. A gente não luta contra pessoas mas na defesa dos nossos valores. A autonomia das universidades está na constituição. Se a gente se desvincular dos princípios definidos pela Constituição e se afastar dos valores que pautam a vida da universidade, eu não posso ser reitor.


- A universidade deve atuar de forma democrática, com pluralidade e exercendo a autonomia com responsabilidade E o retorno acontece. A Universidade está funcionando, calibrando os riscos. Está entregando o que está no seu papel entregar.


- É claro que tem grupos que querem que você vire um bastião da luta contra o indivíduo. Eu estou aqui para fazer valer os valores da universidade. Não para enfrentar A ou B. Eu estou aqui para fazer a UFF seguir em frente com seus valores, aquilo que é a nossa missão. Nossos valores são democracia, autonomia, pluralidade. As pessoas passam, a universidade fica.


Com pandemia, a necessidade de retomada da economia, a possibilidade de uma vacina, que desafios teremos pela frente?


- Primeiro, a gente tem que ter serenidade para navegar em meio à incerteza. Sei que é angustiante, eu sei. A gente tem que ter a espinha ereta e o coração tranquilo, como diz a música. Porque existe uma grande incerteza... A gente tem que ter serenidade para seguir no trilho da ciência. A ciência não explica tudo, mas fora dela não se explica nada. A verdade é essa. Muitas vezes alguém quer afrontar a ciência e diz, está vendo, isso não funcionou… Mas é o melhor caminho, o único que temos. Então é preciso serenidade, transparência e cooperação. Basear as decisões na ciência, nas evidências científicas e exercer a proteção da vida com responsabilidade social. Não é se esconder dentro de casa e esperar alguma coisa acontecer… A gente tem que escolher o que é necessário, para a vida seguir em frente. Com relação às vacinas, espera-se que as políticas nacionais sejam corrigidas, e a gente tem trabalhado para isso. Nós temos experiência em Niterói, uma rede que pode colaborar com isso. Mas certamente essas vacinas são vacinas emergências, porque nenhuma vacina pode ser chamada de uma vacina madura antes de anos… A vacina não vai acabar com a doença de uma hora para outra. Mas elas são necessárias para reduzir e controlar a epidemia. Não é um toque de condão, tomei a vacina, larga a máscara e abraça todo mundo. A vacina é um instrumento para reduzir de maneira mais efetiva o contágio e lá na frente poder controlar a doença. Nós na UFF vamos participar desse processo, estamos inscrevendo a universidade no processo de vacinação. Até porque nós somos uma comunidade de 50 mil pessoas e se a gente quiser colaborar temos que estar protegidos.


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