UFF: Hospital, testes, análises da epidemia e uma visão de como será o mundo amanhã

Entrevista: Antônio Cláudio Nóbrega, reitor da Universidade Federal Fluminense


Por Luiz Claudio Latgé


Antônio Cláudio Nóbrega, reitor da UFF


O reitor da Universidade Federal Fluminense, o médico Antônio Cláudio Nóbrega, 55 anos completados na quarentena, é um morador conhecido da cidade. Estudou no Abel e se formou na UFF. É um cientista inquieto e defensor intransigente da universidade. Destaca que durante a pandemia, a UFF tem atuado diretamente no combate à Covid- 19, com o atendimento no Hospital Antônio Pedro, e se certificou, inclusive, para para a realização de testes da doença. O Instituto de Saúde Coletiva também contribui intensamente na análise da epidemia e das curvas de contágio e óbitos, conectado aos mais importantes centros do mundo. A universidade ainda oferece o apoio do pessoal da Estatística, que faz projeções da epidemia e colabora com a tomada de decisões da prefeitura. Antônio Cláudio está muito seguro que a universidade tem contribuído efetivamente com a sociedade e sairá mais forte da crise, por todo conhecimento que aporta. “A universidade pública é um patrimônio da população brasileira”, sustenta. Numa conversa pela Internet, que também pode ser vista em vídeo, o reitor falou sobre as mudanças que o mundo vai passar, sobre os mecanismos de ensino à distância e sobre o papel da universidade na vida brasileira, passando por várias áreas de conhecimento, da psicologia à tecnologia. Ele diz: “Estamos discutindo como será o dia de amanhã.”


A Seguir: A primeira coisa que a gente pensa, neste momento, quando fala da UFF, é no Antônio Pedro, por tudo o que o hospital representa para a cidade. Como está funcionando o Antônio Pedro?


Antônio Cláudio Nóbrega: É sempre bom divulgar o trabalho da Universidade… O Hospital Universitário Antônio Pedro participa da rede de saúde pública do SUS como hospital para atendimento de casos de média e alta complexidade. É importante explicar isso, porque você tem as unidades básicas, as policlínicas, então ele funciona com esta característica. Neste momento do coronavírus nós trabalhamos muito próximos da Prefeitura para manter esta posição de retaguarda, para continuar atendendo casos de outras doenças. É importante dizer que o coronavírus às vezes mata porque ele ocupa o sistema de saúde e as pessoas com outras doenças acabam tendo prejudicada a sua atenção. Então o Antônio Pedro procura se manter atendendo desta forma, porém, sabendo do impacto do corona, oferecendo dezenas de leitos para o coronavírus, porque já sabíamos o impacto que teria. (O hospital) está em plena atividade, com os profissionais trabalhando de maneira intensa… tem muitos profissionais afastados, tem acontecido no mundo todo, são pessoas que adoecem ou fazem parte de grupos de risco… Então ele está mergulhado na sua missão, atendendo casos de maior complexidade, mas também atendendo casos do coronavírus

A UFF forma muitos médicos, há médicos da UFF que trabalham no Rio e em cidades de todo o Brasil. Como está o envolvimento dos profissionais?


O que a gente percebe é que as pessoas que realmente são da área de saúde elas têm a vocação para trabalhar com este tipo de situação, então a grande maioria das pessoas se apresenta. Eu diria que na universidade, tanto quanto na área de saúde, os professores, os alunos perguntam como eu posso ajudar, pode me colocar... então a gente viu um grande movimento solidário e profissional. Não é simplesmente um desejo de fazer, mas de apresentar sua credencial profissional. Isso é uma situação de uma energia muito boa. E tem ajudado concretamente na nossa atuação neste momento,. Particularmente aquelas pessoas ligadas às atividades do Hospital Antônio Pedro, mas não só, né? Isso vai desde a área de saúde até ciências humanas, sociais, tecnológicas... é um grande movimento em rede.


A graduação foi antecipada?


Teve uma decisão do governo de permitir este tipo de situação. Tratamos isso com muita responsabilidade, articulados com as coordenações dos cursos. Tivemos os alunos de medicina que se formariam em junho com a formatura antecipada, com uma estratégia de aproveitar as atividades chamadas complementares como parte de sua carga horária, e eles já estão formados. Fizemos uma graduação, não só em medicina, mas para todos os alunos que estão prestes a se formar. Tivemos graduações remotas. Tivemos que dar segurança jurídica para isto... É uma grande transformação da universidade para entregar estes alunos à sociedade neste momento tão difícil.


Nós vimos que o Instituto de Saúde Coletiva está acompanhando a epidemia e dando apoio à prefeitura. A UFF também se juntou ao esforço de testagem?


O Instituto de Saúde Coletiva tem uma relação direta com o sistema de saúde do município e também do estado. Ele participou da criação do SUS e neste momento está muito próximo da secretaria municipal de saúde e da própria prefeitura na discussão das bases científicas epidemiológicas para as decisões de gestão pública. Este é um trabalho cotidiano deste grupo. Nós agregamos, aproximamos deste grupo, também o pessoal da Matemática, da Estatística, que é um grupo muito bom, que faz estudos da modelagem, da evolução da doença, ocupação de leitos, de projeção de novos casos. E um outro movimento que nós fizemos foi juntar o laboratórios de virologia da Faculdade de Medicina com o laboratório Lutz de apoio à pesquisa. E aproximar equipamentos de PCR, que são equipamentos que podem detectar a presença do vírus. Montamos essa rede e credenciamos junto ao Lacen, então nós somos credenciados. Profissionais e estudantes pós-graduados que são capacitados a fazer a testagem Nosso direcionamento é para os profissionais do Antônio Pedro. Também estamos apresentando projetos para financiadores para ampliar a capacidade de máquinas e insumos. Isso é importante dizer, porque nem sempre a gente consegue fazer a testagem na velocidade que a gente queria porque depende de reagentes Mas já temos o credenciamento e a capacidade técnica para atender de maneira direta. Então esses braços da nossa atividade também estão muito próximos do combate à doença.


Neste momento, como está a atividade acadêmica da Universidade?


Este foi um movimento importante. Nós fomos pioneiros dentro do Brasil, dentre as quase 70 universidades federais, nós fomos a primeira a interromper a atividade presencial. Na verdade, nós adiamos o início do semestre porque nós temos mais de 50 mil alunos, é importante dizer isto, em nove municípios do estado do Rio de Janeiro. Nós estamos desde Angra dos Reis até Santo Antônio de Pádua. Então foi um movimento importante, assessorado pelo grupo de trabalho que nós montamos depois do primeiro caso no Brasil, nos orientando, nos dando apoio nas decisões gerenciais, administrativas, mas com base na ciência e isso foi extremamente importante para colaborar com o movimento de interrupção da circulação do vírus. Imediatamente depois nós implementamos o trabalho remoto para os técnicos e professores… Então nós estamos funcionando Não é uma tarefa simples, mas as pessoas estão engajadas e tem muitos trabalhos acontecendo, todo processo burocrático da universidade está acontecendo, com adaptações, atividades acadêmicas também... sempre remotas, exceto aquelas atividades essenciais. Mas as aulas de graduação de fato foram suspensas, formalmente. Foi uma decisão do Conselho mas temos desenvolvido atividades complementares e estamos discutindo como será o dia de amanhã. Isso é importante: que a gente reconheça que toda essa pressão… essa entrevista online aqui, por exemplo, talvez há alguns meses você tivesse me visitado… então isso precisa estar incorporado de maneira mais intensa na vida da universidade. O que para nós é a absolutamente fundamental é não abrir mão de dois princípios. A qualidade , porque não há como, simplesmente, substituir aulas presenciais por online - embora seja possível e desejável que ampliemos as atividades à distância. A qualidade é absolutamente fundamental que preservemos. E a inclusão digital. Nós não podemos abrir mão de manter todos aqueles alunos de diferentes classes socioeconômicas participando do processo de educação e de autonomia deles. Então este é o grande desafio que estamos trabalhando neste momento, com uma discussão ampla em toda a universidade, Eu sou diretor da Associação de reitores do Brasil das Federais do Brasil e estou coordenando um trabalho nacional para discutir este tema, de quando nós nos voltaremos e como nós voltaremos às atividades presenciais.


A gente viu, no último ano, as universidades federais sofrerem cortes e questionamentos. Nesta crise, o trabalho da universidade se evidencia, a contribuição científica, em várias áreas do conhecimento... a maneira como colabora na tomada de decisões das autoridades públicas. Vocês têm esta percepção?


Da população com certeza. Nós somos uma universidade pública que não serve a governos e nem mesmo ao Estado. A gente serve à população brasileira, nós somos patrimônio da população brasileira. Então, neste sentido, a gente se sente, neste momento, muito valorizado. Na verdade, isso já vem acontecendo há algum tempo, A universidade toda vez que sofre algum tipo de ataque, algum tipo de crítica, digamos assim, mais fora de contexto, eu acho que a sociedade reage. A UFF tem este papel, uma atuação extensionista muito intensa desde sua criação 60 anos atrás - aliás fazemos 60 anos este ano,-dia 18 de dezembro. Então, eu tenho, mais que a esperança, a convicção de que este momento mostrou ainda mais o papel da universidade, o valor dela para reagir, para criar soluções. E eu tenho a convicção que, mesmo após a pandemia, nós vamos sair mais fortes pela nossa relevância, nosso compromisso social, acadêmico, indo desde lá do início, da compreensão da psicologia humana à nanotecnologia aplicada à indústria.


A crise ainda está em curso, mas nós já temos a percepção de que o mundo será diferente, que, mesmo com a retomada das atividades, a gente tem a sensação de que nada será como antes. Dentro de uma universidade, com todas atividades que ela reúne, essa discussão deve ser intensa. O que vocês já percebem que vai mudar?


Esse é um ponto central. A missão da universidade é olhar o mundo, pensar o mundo; nem sempre explicar tudo, mas provocar a discussão, provocar o ser humano, discutir aonde ele está, aonde ele quer chegar. Então, a universidade vai ter esta importância de fazer esta análise dos fenômenos sociais. A Ciência Política, o Serviço Social pessoal de História, Antropologia, Sociologia… essas pessoas, esses profissionais têm uma capacidade de análise crítica fundamental na proposição de soluções, né? E, como eu falei, associado a isso as soluções em saúde, em tecnologia. Mas, mais do que isto: é uma concepção de sociedade. Eu acho, em particular em relação ao Brasil, que a universidade continuará muito forte na valorização, por exemplo, do SUS, o sistema de saúde, o acesso universal à Saúde de qualidade. Isso é importante que a gente valorize. É claro que eu não acredito num mundo cor de rosa simplesmente por força do além. Eu acho que esse é um trabalho cotidiano e a universidade tem um papel central de ser crítica disso, de lutar por uma sociedade mais equilibrada e justa. Então, ela é pública neste sentido. Ela é financiada pela população e devolve para a população em tecnologia, em soluções, em cursos, em conhecimento, mas também em crítica e em proposição de políticas públicas de interesse coletivo. Ninguém vive sozinho, ninguém vive numa bolha, Então, tem que estar todo mundo num ambiente bom de viver… e a gente espera colaborar com isto cada vez mais.


Veja a entrevista na íntegra abaixo:


Vídeo gravado pelo aplicativo de videochamadas Zoom

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