Um médico na UTI

Entrevista: Dr. Mozart Bellas, Hospital Antônio Pedro e CHN


Por Luiz Claudio Latgé


Uma jornada intensa na emergência, o trabalho nas unidades de Terapia Intensiva. Praticamente o dia inteiro de roupa protetora, luvas e máscara. Os EPIs, Equipamentos de Proteção Individual. O trabalho do médico Mozart Bellas, no Hospital Antônio Pedro e no Complexo Hospitalar de Niterói (CHN), reflete a dedicação dos profissionais de saúde, médicos e enfermeiros, no combate à epidemia. Muitos se contaminaram com a Covid-19. O médico também teve a doença. Uma batalha diária para salvar vidas, diante de hospitais lotados. Um aprendizado constante, que faz com que o tratamento testado na semana passada não tenha mais valor amanhã. “É muito dinâmico”. No dia-a-dia, ele aprendeu que a melhor arma para enfrentar a doença a curto e médio prazos será a melhoria dos hospitais e dos protocolos de atendimento. Mas adverte que cada um pode fazer a sua parte, respeitando as medidas sanitárias e de isolamento e cuidando para evitar fatores de risco, um dos mais importantes, no caso da Covid-19, a obesidade. Numa entrevista pela web, em que roubamos alguns raros momentos do dr Mozart com a família, ele recomenda que as pessoas tenham um plano de contingência e saibam o que fazer, caso necessitem ajuda.


A Seguir: Como tem sido o trabalho nos hospitais?


Dr. Mozart Bellas: Tem sido uma rotina intensa, né? Na verdade, o pessoal tem falado muito de se preparar para um colapso da rede hospitalar. Mas quando a gente fala de saúde pública no Brasil a gente já trabalha constantemente com sobrecarga. E a gente está trabalhando acima de 100% da capacidade dos hospitais, porque vários leitos foram inaugurados. É muito desgastante numa UTI, porque são muitos pacientes em estado grave, necessitando atendimento constante. Numa UTI, normalmente, metade dos pacientes você teria que manter apenas sob vigilância, mas agora todos os pacientes intubados exigem atenção intensiva... Tem sido intenso e cansativo. Graças a Deus, nos lugares em que trabalho, as coordenações conseguiram se antecipar e se estruturar e a gente está conseguindo fazer um trabalho bem feito, de acordo com o que está sendo feito outros centros do mundo e do resto do país.


Em termos clínicos, os médicos dizem que é uma doença que se aproveita de qualquer debilidade do organismo... Já existe algum protocolo, algum padrão, uma maneira de tratar mais adequada?


A gente já aprendeu muito com essa doença. A gente primeiro extrapola o conhecimento de outras doenças provocadas por outros coronavírus no passado. E nesses meses que a gente está tratando a doença, a gente também aprendeu algumas coisas. Existem alguns fatores de risco que acabam funcionando como debilidade, como a hipertensão arterial e a diabetes, doença coronariana e, principalmente, na prática, a obesidade. Se eu tivesse que elencar qualitativamente uma situação que é fator de risco para a gravidade da doença o que eu colocaria é a obesidade. E vários colegas concordam com isto. De fato, o vírus adoece o corpo, não necessariamente ele se aloja em todas as células do corpo, e diretamente causa dano em todas das células do corpo, mas ele ativa o sistema imune nas formas mais graves e o sistema imune de forma desregulada acaba causado problema no pulmão, no coração, nos rins, no tubo digestivo e gerando uma situação de falência múltipla dos órgãos, uma síndrome que a gente chama de síndrome hiperinflamatória, uma tempestade de citocinas . É uma doença que você adquire pela inalação, pela via área, mas a resposta que ela acaba gerando é uma série de doenças sistêmicas. A maioria dos pacientes têm formas brandas, muitas vezes até assintomáticas. O que a gente tem estudado mais é a situação dos pacientes hospitalizados, o que de certa forma, torna uma visão enviesada, porque quando a gente fala de tratamento, de estudos sobre a doença, é tudo voltado para pacientes graves Mas é uma doença de espectros muitos amplo, desde casos leves a casos gravíssimos.


Já é possível estabelecer um protocolo de tratamento para a doença?


O tratamento já mudou, desde que começou... quem estudou a doença há dois meses e não estudou na semana passada já está tratando de forma errada, é muito dinâmica. Como é uma a doença causada, num primeiro momento, nas vias superiores, na faringe, na laringe, então num primeiro momento você usa combinações de medicamentos para impedir a replicação do vírus e diminuir a infectividade do vírus na suas células. Aí entram alguns antibióticos, azitromicina, hidroxicloroquina, o caletra, remdesivir... Nada disto tem comprovação numa medicina baseada em evidências. São estudos de bancada que quando você coloca lá na célula tem efeito comprovado. Mas se traz benefício para os pacientes nenhuma destas drogas pode ser descartada Numa segunda fase, com pacientes mais graves, que são os que acabam o internados e eventualmente que vão para UTI, eles já passaram por esta fase, o vírus já se replicou e ativou o sistema imune. Aí a medicação é outra história, são medicações para controlar o sistema imune, aí entram a cortisona e derivados, até remédios usados para doenças autoimune e outros tipos de imunossupressores. Então, tem que individualizar e saber em que fase da doença você está para poder tratar.


Como vocês se protegem na UTI?


Isso é verdade, tanto que a gente está vendo muitos colegas serem infectados, não só médicos, mas principalmente muitos enfermeiros, a gente tem nossos protocolos de cuidados. Nossos equipamentos de proteção individual, os famosos EPIs. Pelo mecanismo de contágio do vírus, que é transmitido por gotículas, você tem que fazer uma barreira mecânica, que você faz através de capotes, aventais, luvas, máscaras, óculos, toucas... ou seja, você não pode deixar que partículas que o paciente eliminou nas vias respiratórias entrem em contato com o seu corpo. Para você se contaminar, é preciso que o vírus entre nas suas vias aéreas, na sua boca, seu nariz. Mas, se o vírus estiver na sua mão, você corre o risco de levar a mão na boca, que são gestos que você faz de maneira mecânica, então é preciso tomar cuidado para evitar o contágio.


Você chegou a ser contaminado?


Eu me contaminei. Quando eu fui designado para trabalhar com coronavírus, um dia antes eu saí de casa. Imaginando que ia ter contato com o vírus, naturalmente, para evitar contaminar minha família. Então eu me isolei, eu trabalhei numa segunda-feira, na terça-feira eu estava com febre, então eu não consigo definir isto, se eu me contaminei no trabalho ou se já foi uma contaminação na comunidade, é difícil definir isto... mas tem várias pessoas que se contaminaram no trabalho.


Recentemente, vocês perderam um colega, o médico radiologista Victor Bon...


Talvez tenha sido o dia mais triste até hoje, porque era uma pessoa próxima. Você se sente vulnerável. E sente a vulnerabilidade das pessoas que você gosta. Eu já tive a doença, não sinto o risco de adoecer. Mas vejo os meus colegas. Eu não estava no hospital neste dia. Lidar com isso é complicado. Acho que a melhor forma é continuar fazendo o que a gente faz da melhor maneira que a gente pode, estudando, trabalhando, se protegendo, sendo o melhor exemplo que a gente pode ser. De forma nenhuma esquecer as pessoas que partem, mas focar nas vitórias para seguir trabalhando.


Com relação a pesquisas, tratamento... de forma realista, o que se pode esperar?


Bom enfatizar o termo realista. Tem vários estudos químicos em andamento, várias drogas sendo estudadas, vacinas, mas a gente sabe que isso não vai ser para esta pandemia. Não tem como, não há tempo para isto. Então, a gente tem que focar no que é realista, no que é factível, no que dá para fazer. Bem, a gente sabe que quando esses doentes ficam muito graves e vão para o hospital às vezes a causa do óbito não é a evolução da doença Covid-19, mas sim uma infecção hospitalar, uma complicação relacionada à internação, o desenvolvimento de uma trombose, uma piora na respiração pela instalação inapropriada do equipamento, não por falta de conhecimento, mas por falta de disponibilidade. Então eu acho que o que vai ter o maior impacto para o enfrentar a doença é fazer o feijão com arroz bem feito, é o paciente internado numa boa instituição, onde se preste uma boa atenção para as coisas sobre as quais você tem controle. Ficar esperando remédios, ficar esperando isto ou aquilo não faz o menor sentido, porque quando você tiver evidência disto a pandemia já terá acabado... Não faz o menor sentido, na minha percepção.

A doença não vai acabar de uma hora para outra, as pessoas terão que conviver com isso. O que as pessoas podem fazer, para se cuidar e fortalecer o organismo?

De fato, isso não vai mudar tão cedo. O principal fator para o controle da doença são medidas políticas. Agora, de cunho individual, o que a gente pode fazer por nós mesmos, são aquelas medidas de saúde conhecidas que valem para todas as situações. Você manter o equilíbrio emocional, o equilíbrio de atividade física, peso. Evitar o excesso de peso. Molecularmente, biologicamente, já se consegue saber porque que cada uma dessas coisas te predispõe a desenvolver a doença. Não é tirado da cartola... Então, se você consegue modificar alguns fatores de risco, impedir que eles aconteçam em você, a obesidade, hipertensão, diabetes, tabagismo, doença coronariana, você estará fazendo a sua parte. É um assunto que a gente pode conversar muito tempo e falar muita coisa. O que eu diria para todo mundo, é ficar tranquilo, tomar as medidas recomendadas, mas ter o seu plano de contingenciamento, saber o que fazer. Se por acaso você tiver a doença, ou algum parente, saiba o que fazer e para onde ir.


Veja a entrevista na íntegra abaixo:


Vídeo gravado pelo aplicativo de videochamadas Zoom

© 2020. A Seguir Niterói. Todos os direitos reservados. Site por Grazy Eckert e João Marcos Latgé.