Vacinação será sofrida mas vai chegar a 70% no fim do ano, diz especialista da Fiocruz

Atualizado: Fev 5

O cientista Rômulo Paes lamenta erros cometidos pelo Brasil na pandemia, mas acredita que o Brasil conseguirá vacinar a população



O doutor Rômulo Paes de Souza, PhD em epidemiologia, da Fiocruz, fala com entusiasmo da vacina contra a Covid, o maior legado da pandemia, a resposta da ciência. Mas o otimismo com que encara o enfrentamento da doença não impede de ver os erros cometidos. Como a desorganização nas ações nacionais. "Em setembro, já havia várias vacinas em desenvolvimento e era possível saber quais eram mais promissoras. Negociar em cima da hora é sempre mais difícil."


Para ele, o Brasil perdeu tempo e várias oportunidades de ter um resultado melhor no combate à doença. E erra agora quando distribui a vacina de forma equitativa, pelo tamanho da população, porque não é assim que a doença se espalha. Mas acredita que a oferta de vacinas vai aumentar, hoje já existem pelo menos dez vacinas testadas, e que o Brasil pode chegar ao fim do ano com 70% da população vacinada. No entanto, acha que o problema não se encerra este ano. Que é preciso saber mais sobre as mutações do vírus e resolver questões que ficaram para trás, diante da emergência. "Como vai ser a vacinação de crianças e adolescentes?"


Rômulo Paes de Sousa, da Fiocruz, é médico, especialista em medicina social (UFMG) e PhD em epidemiologia (London School of Hygiene and Tropical Medicine, Reino Unido). E traça um cenário da pandemia, no momento. Confia que vamos chegar ao fim do ano numa situação bem melhor do que vivemos hoje. Mas talvez com uma "certa ressaca", porque poderíamos ter feito melhor.

A Seguir: Niterói: A pandemia tomou o mundo de surpresa. O que poderia ter sido feito, desde o início, diante do pouco que se sabia sobre a doença.


PROFESSOR RÔMULO PAES: O Brasil cometeu muitos erros no enfrentamento do Coronavírus. Perdeu algumas oportunidades importantes, que hoje custam caro em termos de vidas e do gerenciamento da crise. É claro que a Covid foi um desafio para todos os países. Mas antes de se registrar o primeiro caso no país a gente já sabia de algumas coisas. Sabia por exemplo da recomendação de isolamento, do uso de máscaras e da adoção de medidas sanitárias. A doença teve um padrão quando entrou no país, começando pelas capitais e chegando ao interior. Esse padrão permanece, mas a doença hoje está espalhada por todo o país e em diferentes graus num estado ou noutro, nos resumimos à solução médico-hospitalar. Mas é preciso ver que, neste tempo todo, o Brasil perdeu quatro oportunidades fundamentais:


O governo perdeu a chance de unir o Brasil


- A primeira foi a possibilidade de unir o país para enfrentar o risco comum. No começo, houve a percepção de que havia um desafio enorme mas havia também um entendimento de que tínhamos chance de fazer frente à doença, porque tínhamos o SUS. O Presidente nunca liderou este movimento e até confrontou recomendações da OMS. Mas, ainda assim, havia o sentimento de que seria possível fazer um esforço conjunto. Muitos países que começaram desacertados, como Brasil, caso do Reino Unido e do México, por exemplo, depois se acertaram, e não estou entrando no mérito dos resultados, estamos falando da condução do problema. Mas no Brasil isso não aconteceu. Não houve unidade dos governos. Não houve unidade dos estados, dos municípios. O esforço fracassou, sem essa direção, se resumiu a preparativos para a atenção médico-hospitalar.


Não soubemos aproveitar a rede do SUS


- Perdemos a chance de aparelhar o SUS. Quando a pandemia chegou aqui, nós já conhecíamos as nossas deficiências, os problemas estruturais. Falta de leitos, de UTIs, de equipamentos, de profissionais Não tínhamos nos quadros profissionais qualificados em escala para enfrenta a pandemia e não se cuidou disto. Algumas estratégias desprezaram o que tínhamos. O reconhecimento da importância da rede de atenção primária do SUS só aconteceu em julho. Os hospitais de campanha foram um retumbante fracasso. Alguns governos imaginaram seguir o modelo chinês e construir um hospital em dez dias, mas é o modelo chinês e se baseia numa capacidade que eles têm, de recursos, de pessoal. Belo Horizonte, por exemplo, abriu um hospital de campanha que nunca foi usado. Perdemos a chance de fortalecer o SUS, uma rede já existente e provada.


O Brasil desperdiça a experiência que tem em campanhas de vacinação


- Não estamos aproveitando o conhecimento que temos as campanhas de vacinação. Agora mesmo estamos correndo o risco de perder uma nova oportunidade, a nossa capacidade de executar programas de vacinação em massa, como já fizemos no H1N1 e em tantas campanhas. Começa pela ideia equivocada de distribuição da vacina de forma equitativa pelos estados e municípios, quando a doença não se espalha desta forma, há lugares com maior risco do que outros. As demandas não são iguais. Estamos vendo em Manaus, mas podemos ver em várias outras cidades também. Então, seria importante alocar corretamente os recursos. Concentrar nos lugares certos. É o be-a-bá da estratégia de bloqueio. Deveríamos ter avaliado, planejado e organizado melhor estes grupos. Estamos perdendo a oportunidade de realizar a vacinação de forma organizada. Uma competência que nós temos desde a campanha de vacinação do H1N1, e até antes dela. Podemos vacinar 900 mil pessoas por dia (desde a chegada da vacina, o Brasil vacinou apenas 2 milhões de pessoas). O Brasil se atrapalhou.


Gastamos muito dinheiro para pouco resultado no enfrentamento da pandemia


- Tem também a questão do impacto sócio econômico. O Brasil investiu R$ 523 bilhões no combate à pandemia. É um valor expressivo, a maior parte alocada para o auxílio emergencial, que é necessário, correto. Mas este esforço deveria ter sido conjugado com medidas de isolamento social, como incentivo para que as pessoas ficassem em casa. É um investimento excepcional e perdemos a oportunidade de ter uma ação expressiva no controle da pandemia. O objetivo da transferência deveria ser a mudança de comportamento. O estado transfere estes recursos para que você adote um comportamento social diferente, adequado ao enfrentamento da pandemia. Mas não tivemos este resultado no isolamento e no enfrentamento da pandemia. Gastamos todo esse dinheiro e a doença avançou fortemente.


A questão das vacinas está aparecendo fortemente agora. Não há vacina no país para a campanha de imunização...


- O problema que vivemos hoje com a falta da vacina é resultado das escolhas que o Governo Federal fez no ano passado. Desde setembro já era possível saber quais vacinas iriam prosperar. O Brasil poderia ter entrado no Covax (consórcio internacional Covax Facility, organizado pela OMS, para garantir a distribuição da vacina a 150 países), não com uma cota de 10% mas de 50%... Poderia ter comprado a vacina da Pfizer. Poderia ter comprado a Janssen (Johnson & Johnson). Poderia ter feito antes o acordo que fez com a Oxford/AstraZeneca, na Índia. Deixar para negociar na última hora é um convite para a confusão.


Uma das estratégias das campanhas de imunização é vacinar muita gente no menor espeço de tempo. Nós estamos perdendo esta oportunidade?


- O ritmo é muito pequeno e não começamos ainda a segunda dose. Não temos nem certeza de que os registros estão sendo feitos de forma correta, para se garantir a cobertura vacinal. Mas vamos ter a vacina. A Organização PanAmericana informa que vai acelerar a entrega de vacinas. As informações são dinâmicas e as notícias surgem a todo momento (no dia da conversa, o Ministério da Saúde anunciou a possibilidade de aquisição da Sputnik V e da Covaxin, produzida pelo laboratório Biontech, na Índia, o mesmo que produz a Oxfork/AtraZeneca, para entrega ainda em fevereiro). A campanha começou desorganizada. Mas vai avançar. A previsão da OMS é que até o fim do ano 70% da população dos países ricos estará vacinada. Nos países pobres, a vacinação vai chegar a 25% da população até o fim do ano. O Brasil não é um país rico, mas também não é pobre e em termos das estruturas de saúde está mais perto dos países ricos. Então o Brasil pode chegar aos 70%, vai chegar de uma forma mais sofrida, mas tende a chegar.


A vacina é a única saída?


- A vacina é a melhor esperança. A resposta tecnológica se apresenta como a melhor e a mais prática para solucionar problemas que são mais complexos, que exigiriam mudanças de comportamento. Poderíamos ter enfrentado melhor o Coronavírus se mudássemos nossos hábitos e respeitássemos o isolamento. É como a questão do emagrecimento, é mais fácil fazer uma cirurgia do que mudar os hábitos e comer menos, fazer exercícios, ter uma vida mais equilibrada. Isso vale para outras questões contemporâneas também, veja a questão do clima, é mais fácil esperar uma nova tecnologia do que mudar o comportamento, uma tecnologia que nos permita continuar fazendo tudo o que sempre fizemos, ao invés de mudarmos o nosso comportamento.


O Brasil vive, afinal, uma segunda onda da doença, agora, com a explosão da doença em Manaus e em outras cidades?


- Alguns cientistas são cuidadosos na hora de avaliar se estamos numa segunda onda da doença, no Brasil. Isso se aplica bem ao caso europeu, em que houve uma onda da doença, um pico de casos e óbitos, e depois a doença foi controlada, para voltar a surgir de novo perto do inverno. O padrão brasileiro não foi este, é mais parecido com o dos Estados Unidos., onde a doença nunca foi controlada. Sempre permaneceu alta. Por isso há certa cautela nesta avaliação.


Em que medida as mutações do vírus podem estar provocando o aumento dos casos?


- Não dá para saber ainda se o aumento dos casos pode estar atrelado ao surgimento de mutações de novas variantes do vírus. Mas estas mutações foram identificadas na África do Sul, no Reino Unido e no Brasil. No caso da África do Sul os estudos estão mais adiantados e existe alguma preocupação. No caso do Brasil, ainda não é possível detectar o impacto da variação do vírus nos casos da doença, como se suspeita, em Manaus. No caso do vírus da Influenza a vacina de um ano não serve para o outro, mas no momento existe otimismo em relação aos efeitos das vacinas. Hoje já existem dez vacinas que estão sendo usadas no mundo para combater à Covid. A produção da vacina em tão pouco tempo é o legado da ciência na pandemia.


O ano está apenas começando e é difícil fazer previsões num cenário tão desafiador como o da pandemia. Mas como o sr acredita que estaremos no final do ano?


- O ano tende a ser melhor, porque dispomos de uma alternativa para enfrentar a doença, que é a vacina. Mas podemos chegar ao final do ano com uma espécie de ressaca, porque poderíamos ter feito melhor e os problemas não vão desaparecer todos de uma vez. O Coronavírus não se resolve este ano. Ainda temos questões para resolver. uma delas, por exemplo, é a vacinação de crianças e adolescentes. Hoje não temos dados sobre os efeitos das vacinas sobre estes grupos, isso não foi testado. E também é provável que surjam variações da doença e você tenha que fazer ajustes nas vacinas, que você continuará estudando, sempre.


A vacina não elimina a necessidade de outros cuidados - até porque, já vimos aqui, a imunização vai se prolongar até o fim do ano. Diante disto - e do risco do espalhamento de variações do vírus, deve-se redobrar os cuidados em relação ao uso de máscaras?


- Há uma discussão importante sobre os tipos de máscara que devem ser usados. Ainda não há muito conhecimento sobre as variantes do vírus, mas já há um alerta sobre a adequação das máscaras, se podem ser de pano, se devem ter duas ou quatro camadas, para fazer a fricção. Eu uso a N 95, tenho chance de usar, mas notei que na posse do Biden ( Presidente dos Estados Unidos) tinha muita gente usando duas máscaras.



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