Vacina leva a lares de idosos de Niterói esperança do abraço e da visita

Proprietária de três das 40 instituições de longa permanência para idosos da cidade relata os impactos da pandemia

por Silvia Fonseca

Uma das instituições administradas por Carolina Caminha em Niterói. Foto Divulgação


Não há qualquer traço de queixa no relato que a executiva Carolina Caminha, de 39 anos, faz sobre as dificuldades enfrentadas nesses mais de dez meses de pandemia de Covid-19 à frente de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) que ela dirige. O avô dela, enfermeiro, fundou há 50 anos um dos 40 lares para idosos que Niterói tem hoje. Carolina assumiu a casa, abriu mais dois e criou o Grupo Caminha, privado, que tem instituições em Icaraí, Charitas e Itaipu.


Mas não foram tempos fáceis. E o clima nesses lares agora começa a mudar, com idosos e funcionários já respirando alívio e esperança. Os idosos institucionalizados em ILPIs começaram nesta terça-feira a serem vacinados contra a Covid-19 em Niterói. Estão no primeiro grupo prioritário, assim como os profissionais de saúde.


Em conversa com o A Seguir: Niterói, Carolina Caminha contou um pouco sobre a adaptação das casas, dos idosos e de suas famílias aos riscos na pandemia. E como fizeram para garantir a segurança de todos, além da esperança.


Carolina Caminha, que dirige três ILPIs em Niterói


A Seguir: Niterói: Quantos lares para idosos o Grupo Caminha administra? Atende pessoas a partir de qual idade?


- Carolina Caminha: São três casas do Grupo. Os idosos obrigatoriamente têm mais de 60 anos porque hoje só são permitidos idosos de mais de 60 anos em ILPIS por lei. Não se usa mais o termo asilos, e sim ILPI. Nas nossas casas, temos uma média de 15 idosos em cada. Eles vão de 60 anos a 100 anos idade, o mais velho que temos hoje. Temos idosos bem novos, de 66, 68, mas temos esse de 100 anos, um de 98...


Desde que souberam que estão no primeiro grupo a ser vacinado contra a Covid-19, os idosos atendidos por vocês reagiram como? Estão mais esperançosos?


Eles reagiram muito bem. Está todo mundo muito animado com a vacina porque as instituições têm festas sazonais, têm uma movimentação muito grande... são casas abertas, né? Estavam abertas para familiares e para o público antes da pandemia. Então a gente tem música, musicoterapia, tem aula de dança, aula de pintura, sempre muito movimento nas instituições. E, com o começo da pandemia, em março, a gente teve de suspender tudo isso e suspender as visitas.


As visitas de parentes desses idosos então foram reduzidas, já que isso poderia aumentar o risco de contágio?


Desde março as visitas foram suspensas no Grupo Caminha. E a gente adotou o tablet para que pudesse fazer não só o atendimento com a equipe multidisciplinar através do tablet como também o contato com os parentes. Aí a gente disponibilizou wifi nesse tablet para que a família pudesse se comunicar com os idosos. Isso de março a setembro, mais ou menos. Em outubro voltamos com o atendimento da equipe multidisciplinar e começamos a fazer visitas por agendamento. Quando deu uma melhorada (na pandemia), a gente começou a fazer uma visita por dia, 20 minutos por dia. Cada dia uma família. Então a gente recebia uma família por dia, na área externa da instituição, higienizava tudo. A gente comprou a cortina do abraço para que as pessoas pudessem abraçar seus familiares, amigos. Mas quando foi no começo de janeiro (de 2021), recentemente, a própria OMS e o Ministério Público proibiram novamente as visitas nas casas de repouso. Tivemos de suspender novamente. Então os idosos estão muito ansiosos e ficaram muito esperançosos (com a vacina) porque sentem muito a falta da família.


Hoje foi até engraçado porque uma idosa falou pra mim que ela não tinha de ser imunizada primeiro. Quem tinha de ser imunizado primeiro é quem circula, ela disse, que são os jovens e quem trabalha. Achei legal ela falar isso.


A vacina está sendo muito esperada pelas famílias também. As instituições hoje se tornaram moradia assistida. Então a gente tem muito idoso lúcido cujos filhos trabalham, que não têm condição de cuidar daquele idoso, ou que não queriam deixar aquele idoso ficar muito sozinho. E acham na instituição um lugar pra socializar com outras pessoas lúcidas, com uma rotina normal. Eles entram, eles saem, eles vão, eles voltam. Depende do estado físico de cada idoso, mas as casas são abertas, eram abertas antes da pandemia. Então eram casas que tinham muita visita, muito movimento, muitos netos, muitas crianças. Está todo mundo muito na expectativa e muito esperançoso com a vacina.


Vocês já tiveram, ao longo desse quase um ano de pandemia, casos de pessoas infectadas pelo coronavírus? Casos de óbitos? Como isso repercutiu no ambiente?


Nessas três instituições, a gente teve um óbito por Covid. Essa idosa, na verdade, acabou indo para um hospital, e pegou Covid no hospital e veio a óbito no hospital. Dentro das instituições não tivemos nem um óbito por Covid. A gente teve uma instituição com 100 por cento dos idosos contaminados. Mas temos uma equipe muito bacana, com médicos e enfermeiros experientes, com muito tempo de profissão. Nosso geriatra é um médico que estava no combate ao Covid em grandes hospitais de Niterói. Então a gente soube agir muito rapidamente, traçou um plano de contingência e esse plano foi seguido até o fim, desde março.


E as medidas que as casas de repouso tiveram de tomar desde o início da pandemia? Isso impactou na capacidade de receber novos idosos, na forma de atendimento?


Neste plano a gente deu cesta básica para funcionários, pagou uber, fez plantões com horários diferentes, uma estratégia para diminuir todos os riscos. Tudo era recebido do lado de fora, higienizado para depois ser armazenado. A gente sofreu muito impacto porque, por exemplo, antes da pandemia eu pagava R$ 30 numa caixa de luva, hoje essa caixa está R$ 100. Eu cheguei a pagar R$ 1.500 numa caixa de máscara. As instituições sofreram muito porque foi muito difícil manter funcionários e manter a segurança, porque os funcionários tinham de ir pra casa em algum momento. Por isso que traçamos esse plano de contingência e deu muito certo.


E quando a gente teve uma instituição contaminada, por um serviço terceirizado de uma família, a gente teve de fazer isolamento, quarto específico para isolamento. Mudou muita coisa nas instituições. Temos hoje o quarto de isolamento. Se a gente institucionaliza alguém, interna um idoso hoje, apesar de ele ter de chegar com o teste de Covid negativo, ele ainda fica em isolamento antes de ser inserido.


A pandemia provocou um aumento da procura por vagas em lares de repouso para idosos?


Houve um aumento muito grande durante a pandemia, aumento na procura por vagas nas instituições. Quem utiliza serviço de homecare, por exemplo: muita gente teve dificuldade de manter aquele funcionário com segurança em casa. Funcionários começaram a não ir trabalhar, funcionários começaram a pegar Covid, as pessoas ficaram com muito medo e começaram a procurar as instituições achando que eram mais seguras. Inclusive técnicas de enfermagem, cuidadoras foram trabalhar em hospitais, em hospitais de campanha, então se tornou mais difícil e mais caro achar profissionais bons para manter os idosos em casa porque esses profissionais estavam sendo muito requisitados. Se a gente, enquanto instituição, já sentiu essa dificuldade, imagina quem tem um serviço doméstico.


Sobre o início da vacinação, que tipo de informações foram pedidas pelo Ministério da Saúde e/ou Prefeitura de Niterói?


A Secretaria de Saúde de Niterói vai começar a vacinar as instituições de longa permanência a partir desta semana (começou nesta terça), e todos os idosos institucionalizados serão vacinados pelo que informaram. Sobre os funcionários ainda dependemos de uma resposta, mas eles já solicitaram os nomes, endereços, todos os dados para que possam ser incluídos.


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