Volta às atividades em Niterói depende do comportamento da população

Atualizado: Ago 18

Prefeito Rodrigo Neves diz ao A Seguir Niterói que “é o cidadão que determina quando a cidade retorna às atividades”


Por Luiz Claudio Latgé


Prefeito confia na responsabilidade dos moradores para a retomada das atividades. Reprodução da entrevista por Zoom


O Prefeito Rodrigo Neves aparece na tela. Está na Prefeitura. Sozinho, numa sala preparada para as frequentes transmissões pelas redes sociais. Usa uma máscara. Com certeza não era o cenário que planejava às vésperas de completar o segundo mandato. A Covid mudou os planos de todo o mundo. O calendário previa uma série de inaugurações na temporada eleitoral. Mas os encontros foram trocados por horas seguidas de reuniões com grupos de gestão de crise, pessoal da Saúde e o Comitê Científico, que dá suporte às ações da Prefeitura. Não há como fugir ao tema na entrevista. Até porque o Prefeito passou pela suspeita de ter a doença. O teste deu negativo. Ele tosse no seu canto na tela dividida. A pergunta é quase intuitiva:


A Seguir: Levou um susto, Prefeito?


Prefeito Rodrigo Neves: Claro, sem dúvida. A gente sempre fica preocupado, porque está trabalhando e vê que é um vírus traiçoeiro. Estamos vendo todo dia como afeta as pessoas e de formas diferentes, cada um tem uma reação. A gente toma cuidado e, quando comecei a ter os sintomas, fiquei preocupado. Com a família, com as pessoas com quem tive contato. Mas, graças a Deus, depois destes dois exames, e a melhoria dos sintomas, tudo indica que foi uma gripe.


A COVID EM NITERÓI


Como foi a estratégia para combater a doença?


Numa situação como esta, você não pode perder tempo. Quando a doença começou na China, criamos um grupo de trabalho na Secretaria de Saúde, com médicos, intensivistas, epidemiologistas. E, mesmo sem saber como e quando a epidemia ia chegar ao Brasil, a equipe foi observando o que acontecia nos outros países e estabelecendo os protocolos. Quando tivemos a confirmação do primeiro caso, integramos todas as áreas: Saúde, Ordem Pública, Assistência Social, Fazenda, Economia, Mobilidade Urbana, Transportes... Criei o gabinete de crise para ter uma ação integrada.


É um problema eminentemente de saúde pública, mas com fortíssimas implicações na questão social e econômica. Então é preciso ter uma ação integrada: saúde, a ação social e suporte às empresas, e uma visão científica, com atenção aos estudos internacionais.


(...) É um plano de Niterói, baseado na ciência. Fomos buscar informações em outras cidades. E contamos com o Comitê Científico formado por cientistas da UFF, da UFRJ e da Fiocruz. Um plano inovador, com dados transparentes, que considera o número de casos, taxa de transmissão, a ocupação de leitos, a taxa de letalidade...


A rede hospitalar suportou a emergência?


A gente trabalhou num plano de combate à pandemia com todas aquelas ações: sanitização, limpeza das ruas, conscientização, isolamento. Eu queria destacar o trabalho de abertura dos leitos, que foi muito consistente. Temos 262 leitos em Niterói, que é mais do que a soma dos leitos do setor privado. Fizemos exclusivamente com recursos municipais, sem contar com nenhum centavo estadual ou federal. Sem qualquer ajuda, a gente ampliou o número de leitos. Foram 10, depois 30, depois 60, depois 100 e hoje nós estamos com 262 leitos.


Esta doença exige atenção básica, mas uma capacidade grande de atendimento médico hospitalar de alta complexidade. Niterói tem uma capacidade boa na área privada, a melhor fora do Rio de Janeiro. Metade da população tem plano de saúde. E tem uma rede hospitalar própria como nenhuma cidade deste porte. A gente tem a Maternidade, o Getulinho, o Hospital Psiquiátrico, o Orêncio de Freitas, o Carlos Tortelly e, agora, o Hospital Oceânico. Niterói é a única cidade do Brasil de 500 mil habitantes que tem seis hospitais públicos municipais. Então, Niterói não teve uma crise hospitalar, diferente do que aconteceu no Rio, onde centenas de pessoas morreram na fila de emergência, e em outras cidades, como Manaus e São Paulo. Em nenhum momento estivemos ameaçados de uma explosão de leitos públicos ou privados.


Qual foi o momento mais difícil?


Em maio. Em maio tivemos um momento ali no qual eu me estressei com nossos amigos do setor privado, quando nós batemos 94% de leitos ocupados, dos quais 50 % eram ocupados por pacientes que vieram transferidos do Rio e da Baixada ou de São Gonçalo para Niterói e eu falei o seguinte: olha, vocês não podem penalizar a cidade de Niterói porque a taxa de transmissão do vírus e a pandemia estiveram este tempo todo sob controle, pelo isolamento social que a população de Niterói fez. Mas cheguei a abrir a possibilidade de encampar os leitos privados para a população de Niterói, porque metade desses leitos era usada por pessoas que não eram moradores de Niterói. A gente está fazendo investimentos pesados que nenhuma outra cidade fez, estamos fazendo o nosso dever de casa. E vamos ser penalizados porque outras cidades não fizeram o dever de casa? O meu apelo naquele momento era para que houvesse uma coordenação com a matriz de cada uma das empresas dos grupos hospitalares privados para que não houvesse aquele percentual tão elevado. Mas em nenhum momento estivemos ameaçados pela explosão dos leitos.


ALGUNS ANOS ANTES...


O Prefeito Rodrigo Neves sustenta que o combate à pandemia só foi eficiente em função de medidas adotadas anos atrás. Cita a organização das finanças públicas e a criação de um fundo de reserva com recursos dos royalties. Fala do saneamento básico, porque a água é fundamental para o combate à doença. Da segurança, porque a guarda municipal permitiu a fiscalização. Da ampliação do programa médico de família, que hoje se chama Saúde da Família e cobre todas as comunidades da cidade e garante a ação das equipes que trabalharam na distribuição de kits, testagem e monitoramento casa a casa. Segundo ele, com as contas em ordem, foi possível encontrar dinheiro para os programas de assistência - renda básica para as famílias e Empresa Cidadã, Supera e Supera mais para as empresas.


Prefeito Rodrigo Neves: São R$ 300 milhões em investimento para famílias e empresas. Nós pudemos beneficiar 50 mil famílias, que tiveram tranquilidade para enfrentar a pandemia. Por isso, Niterói teve maior aderência ao isolamento social. É uma situação trágica. Este dilema entre salvar vidas e apoiar a economia não pode existir. Evidentemente a prioridade é salvar vidas, claro, sem isto não teríamos nada funcionando. Mas é possível, e Niterói está mostrando isso, que ao mesmo tempo que você toma as medidas na área da Saúde, é possível você apoiar, sobretudo, as pequenas e médias empresas, porque é isso que vai permitir a retomada depois da pandemia.


- Você vê no Rio: esta semana saiu a notícia de que fecharam 1.500 bares e restaurantes, 14 mil desempregados. Niterói não está passando por isto. Não tivemos nenhum restaurante fechado. Porque o fechamento do Hipódromo, do Fiorentina, do Clube Naval tem um aspecto econômico, que é a perda do negócio, da renda, mas tem um aspecto intangível, que é a relação da cidade com estes lugares, é a perda da identidade da cidade. Imagina Niterói perder a dona Henriqueta (Gruta de Santo Antônio), o Seu Antônio, o Mário...? Das três mil empresas socorridas em Niterói, 400 são do setor de gastronomia, bares e restaurantes, que é o setor que ficou mais tempo fechado.


O que acontece agora?


Estamos no Novo Normal. Nós fomos a primeira cidade a retomar as atividades, não houve questionamento do MP, porque todo o planejamento foi feito de uma maneira responsável, gradual, transparente. E os casos da doença e os óbitos estão diminuindo de lá para cá. É muito importante que a gente compreenda que as decisões do plano de transição gradual são tomadas com base na ciência e nos indicadores. Mas é o comportamento do cidadão, cada cidadão niteroiense, e das empresas que estão retomando suas atividades que vai determinar a taxa de transmissão do vírus na cidade e quando nós passamos de um estágio para outro. Então, se todos seguirem os protocolos de distanciamento, se os cidadãos perseverarem no distanciamento social e no uso de máscaras, a gente tem condições de retornar às atividades na cidade. É o comportamento de cada cidadão e das empresas que vai determinar a retomada. Agora a gente está neste momento de adotar medidas para acelerar a volta às atividades.


Por onde começa a retomada? Pelo setor de serviços, a principal atividade da cidade?


Primeiro, viabilizando o crédito. Não é possível pensar na retomada sem pensar nas pequenas e médias empresas. Empresas que ficaram muito tempo paradas, já são cinco meses de paralisação. É fundamental que haja nos planos federal e estadual ações para salvar as pequenas e médias empresas. O crédito está muito travado. E as empresas estão morrendo em vários lugares do país por não terem crédito. Porque o nível de exigência para que as pessoas possam captar R$ 60 mil, R$ 80 mil para seu capital de giro é tanto que as empresas vão perder seus ativos, seus negócios e as empresas vão morrer. Isso é triste e ao mesmo tempo é antieconômico, porque se deixar morrer as empresas é mais difícil retomar a economia. Na verdade, isso não é gasto. Vários países capitalistas estão fazendo programas para manter vivas as suas pequenas e médias empresas.


E as escolas, quando voltam a funcionar?


Estamos debatendo o assunto no Comitê Científico e no Gabinete de Crise. Já existem protocolos muito consistentes a partir de experiências internacionais. Acredito que nos próximos dias poderemos ter uma conclusão. A possibilidade de abertura das escolas está condicionada à chegada ao Amarelo-1. A gente está se preparando para, quando isto acontecer, debater com as escolas, as empresas e as famílias. Temos uma preocupação com as universidades, com a UFF. É bom lembrar que as universidades têm autonomia para tomar esta decisão. E a UFF tem 50 mil alunos. E muitos destes estudantes são de cidades onde a pandemia não está sob controle, que vão entrar na cidade.


O que acontece com o réveillon? São Paulo já anunciou o cancelamento do réveillon. Está em discussão se teremos carnaval...


Estamos estudando com muito cuidado. Mas é muito provável que a gente tenha um outro formato do réveillon.


O LEGADO


Rodrigo Neves está completando seu segundo mandato. Certamente tem resultados para apresentar. E alguns fracassos. Um de seus primeiros projetos, uma ambiciosa reforma do Centro, anunciada como uma transformação da cidade, parou nos cavaletes que apresentavam a obra na Praça Arariboia. Rodrigo também teve sua gestão interrompida por acusações de corrupção, e passou três meses na cadeia, de dezembro de 2018 a março de 2019, substituído pelo Presidente da Câmara, Paulo Bagueira. Neves refuta as acusações, que considera infundadas. Mais de um ano depois, diz que nada foi provado e que nenhuma ação seguiu adiante. Pergunto sobre o legado que vai deixar. E me ajeito na cadeira preparado para ouvir a lista de obras, como faria todo político em campanha. Mas a resposta é outra.


Qual o seu legado, depois de dois mandatos?


Gestão! Tem uma grande revolução gerencial na Prefeitura, e uma mudança de paradigma na administração de Niterói que é algo que as pessoas não enxergam, mas é importante para a cidade. Hoje Niterói recebeu uma certificação da situação Previdenciária. No início do governo, Niterói estava numa espécie de Serasa das Prefeituras. Não tinha recursos para cobrir suas obrigações. Hoje, mesmo depois de tudo o que nós fizemos, o Fundo de Previdência chegou a R$ 653 milhões.


(...) Fizemos isto antes dos royalties, que só entraram de maneira mais forte em 2018. Fizemos uma gestão profissional, com a criação do É cidade, a integração das ações, a criação de Procuradores, o concurso para de fiscais de Receita. A cidade tinha 25, muito pouco, entraram mais 40 fiscais, criamos uma carreira do gestor, fizemos o Plano Niterói Que Queremos, o plano de mobilidade, o plano de saneamento... Uma gestão orientada para resultados. Não é tão visível, mas é a maior contribuição que damos à cidade. E que permite a construção recorde de escolas, médico de família, água tratada e saneamento... Tiramos do papel projetos engavetados há décadas.


AGORA, SIM, AS OBRAS


Prefeito Rodrigo Neves: A cidade é um organismo vivo, da mesma forma que nosso organismo. Se parte do organismo da cidade não está funcionando, a cidade não está bem. Chegamos a ter na Região Oceânica um movimento de emancipação, porque 80 das ruas não tinham asfalto e qualquer chuvinha a região ficava semanas inundada. Então as pessoas se mudaram para lá e as suas expectativas não foram atendidas. Estavam voltando. (...) E nós fizemos um planejamento. Porque Niterói não teve uma explosão demográfica que justificasse isso. Niterói tem uma taxa de crescimento europeia. Maricá cresce 5% ao ano, Niterói cresce a 0,5%. O que acontecia é que não havia um planejamento dos investimentos. Todo mundo querendo se abrigar no Jardim Icaraí e esta concentração estava gerando um adensamento descontrolado, com perda de qualidade de vida. Então congelamos os investimentos imobiliários na região, só ficaram os que já estavam aprovados. E decidimos investir em outros setores da cidade.

(O prefeito lista uma série de realizações. Seleciono algumas, nem sempre na ordem que foi apresentada. Aparecem nos sites da Prefeitura)

- A cidade tinha muitas carências. Era a mesma infraestrutura de anos atrás. Foram 40 anos sem investimentos de infraestrutura urbana, sobretudo de mobilidade. Niterói tinha 30, 40 mil carros e hoje tem 300 mil carros.


- Fizemos o alargamento da Marquês do Paraná, obra prevista desde a inauguração da ponte. Fizemos o túnel Luis Antonio Pimentel e o túnel João Sampaio. A cidade tinha dois túneis, o de São Francisco para Icaraí, construído na década de 60, e o de Icaraí para São Francisco, da década de 70. Os outros quatro fui eu que construí… Fizemos uma nova cidade na Região Oceânica, integrada à cidade, porque é a área de expansão de Niterói.


- Reformamos a Avenida Francisco da Cruz Nunes, que era um horror, nem calçada tinha. Hoje é uma avenida moderna. E a partir dela você vai ver surgirem investimentos de qualidade.


- Fizemos Cafubá, Fazendinha, Bairro Peixoto, fizemos Piratininga. Oitenta por cento das ruas não tinham asfalto. Agora estamos fazendo Santo Antônio, Maravista... É uma nova cidade. E vamos dar início ao Parque de Piratininga, vamos resolver definitivamente o problema da poluição da lagoa de Piratininga, vai se chamar Parque Ecológico Alfredo Sirkis.


- Ainda há outros projetos até o fim do governo. O programa piloto de reestruturação de calçadas, começando pela Amaral Peixoto, com a padronização de calçadas. Isso é responsabilidade do comércio e dos proprietários, mas no caso do Centro nós vamos começar o projeto de recuperação das calçadas.


- E tem o Mercado Municipal, que vamos inaugurar dia 22 de novembro e será um marco para a cidade.


A ELEIÇÃO


Rodrigo Neves já recebeu meia dúzia de avisos de que estourou o tempo da entrevista, já são quase duas horas de conversa. Ainda quero falar de política. Ele reforça os laços que tem com a cidade. Lembra do avô, da escola, destaca que foi líder estudantil com 16 anos, no anos 90. Se formou no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFF. Casou em Niterói, teve três filhos aqui. “As minhas lembranças são destes lugares que todo mundo que vive nesta cidade se reconhece. No Bicho Papão, jogando futebol com os amigos em Icaraí, na praia de Camboinhas... “, conta. Rodrigo foi vereador com 21 anos, o mais jovem da cidade. E deputado estadual aos 26. Prefeito com 36 anos. Diz que tem a sensação de dever cumprido. Mas, com toda essa trajetória, não descuida da política. Quer fazer do ex-secretário Axel Grael o próximo Prefeito.


- Acho que o Axel Grael é o melhor quadro que a cidade tem hoje. Preparado, íntegro, honesto, de uma família querida de Niterói e tem experiência administrativa. Este estilo dele tranquilo, menos acelerado que o meu, vai ser muito interessante para a cidade. Então, com todo respeito aos demais candidatos, e tem nomes muito promissores para o futuro da cidade, jovens, neste momento, Niterói não pode correr riscos, temos que votar no melhor síndico e que tenha a capacidade de manter Niterói protegida nestes anos tão difíceis que teremos pela frente.


PLANOS POLÍTICOS


Qual seu projeto político, depois que entregar a Prefeitura?


Eu pretendo ser o avô da Manuela. Pretendo me dedicar a escrever dois livros sobre a experiência da gestão de Niterói. Porque acho que isso pode contribuir muito para as administrações municipais, porque será uma década muito difícil para o Brasil e para as cidades brasileiras. Então quero me dedicar no primeiro semestre do ano que vem a escrever um livro sobre administração e a gestão pública e sobre os desafios das cidades brasileiras. Pretendo dar aula. E pretendo fazer um doutorado na área da Sociologia. Acho que eu e minha família merecemos


Este é o projeto até 2022... E depois?


Ele entende a provocação, solta uma risada.


Prefeito Rodrigo Neves: Hahaha. Olha, estou realmente muito motivado. Mas evidentemente eu tenho 44 anos e ainda tenho uma vida longa pela frente, mas neste momento eu pretendo me dedicar a estes projetos, mais aos estudos e à minha família.




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