'Estão julgando a gente pela cor da pele', diz Danilo Félix sobre os 53 dias de prisão injusta

Jovem foi preso, sem provas, depois de uma controversa identificação por foto; ele sequer tinha antecedentes criminais por Lívia Figueiredo Danilo Félix, após ter sido solto, no terraço da sua casa / Foto: Divulgação “A ficha ainda não caiu”. Assim o jovem negro Danilo Félix, de 25 anos, morador do Morro do Estado, no Centro de Niterói, inicia nossa conversa. Preso por mais de 50 dias, Danilo revela ter sido vítima de racismo, após ser detido sem qualquer prova e sem antecedente criminal. Danilo é ex-funcionário de uma terceirizada da UFF e agora administra, junto com a sua esposa, uma loja virtual de roupas. Numa conversa emocionante com A Seguir: Niterói, ele conta um pouco dos seus momentos de aflição quando estava no presídio e do alívio de ter sido libertado no dia do seu aniversário. A Seguir: Como foi esse período na prisão? Você passou por três presídios, quais eram as condições deles? Danilo Félix: Em Benfica me deram dois pedaços de pão assim que cheguei, nem colchão tinha. Dormi no chão de aço. A comida não era de qualidade, mas era o que tinha. No Tiago Teles fizeram a gente tirar a roupa, tomar um banho, no frio. Foi um dos dias mais difíceis para mim. Minha mente ficava atribulada, não tinha como não pensar na minha família e na minha esposa. Dormíamos no chão. Eu comecei a adoecer, tive dor de cabeça e dor de garganta. Para dormir, era um revezamento, pois não tinha espaço e muito menos colchão. Fiquei 15 dias em isolamento no Tiago Teles por conta da pandemia, sendo que havia 20 pessoas dentro da cela. Não era um isolamento, os rapazes vinham com as quentinhas e distribuíam de mão em mão. Não tínhamos máscara e nem álcool gel. Como foi a mobilização dos amigos? O que você sentiu quando descobriu a manifestação a favor da sua liberdade? Eu não tinha noção da proporção que isso tinha tomado. Ao sair do presídio, eu me emocionei dentro do carro quando vi meu irmão e minha esposa. Dentro do presídio, eu pude ver na televisão os cartazes que fizeram para mim, também vi uma foto do meu irmão falando no microfone durante a manifestação que teve em frente ao Fórum, em um jornal. Quando eu vi os vídeos do protesto no celular do meu irmão fui tomado pela emoção. Não consegui terminar de assistir porque estava ainda muito comovido com todo aquele movimento pela minha liberdade e pelos meninos Luiz Carlos Faustino e Jefferson Ribeiro dos Santos. Falando neles, qual a sua opinião sobre esses casos? São casos muito semelhantes ao meu, um envolve a prisão injusta por identificação de foto. Não é um ato que tem lógica. Isso é injustiça racial, é inadmissível. Estão julgando a gente pela cor da pele. Como um carro à paisana me leva sem ter um mandado? Como foi passar o aniversário em casa depois de mais de 50 dias na prisão por um crime que não cometeu? Para mim é muito gratificante, senti muita falta da minha casa e da minha família. Eu não consigo explicar a emoção que eu senti ao chegar em casa. A ficha ainda não caiu. É muito bom poder estar junto da minha família e dar valor às pequenas coisas, como um banho, uma refeição e uma cama para dormir. Eu fiquei de meia noite às 15h no dia do meu aniversário na prisão por um crime que eu não cometi. A primeira coisa que meu irmão fez, quando cheguei no carro, foi me abraçar e falar “cara, cortaram seu cabelo!”. Cheguei em casa e a minha família havia montado uma surpresa para mim, com os amigos mais próximos. Foram dois presentes: meu aniversário e minha liberdade. Quais são os planos para o futuro em relação ao trabalho? Quando terminou meu contrato com a terceirizada da reitoria da UFF, eu peguei uma parte do dinheiro e investi na Bf cropped, uma loja virtual de roupa, que criei com minha esposa. Inicialmente começamos com brechó, pegamos algumas roupas nossas para vender a preço razoável. Como a mãe da minha esposa costura, ela confeccionou algumas peças de roupa, como cropped, e começamos a vender. Isso em paralelo ao brechó. Também compramos algumas roupas e revendemos na loja virtual. Pretendo continuar com ela, pois tem dado certo.

© 2020. A Seguir Niterói. Todos os direitos reservados. Site por Grazy Eckert e João Marcos Latgé.