“Eu venci a Covid-19”

Músico de Niterói conta como cinco pessoas de sua família ainda se recuperam dois meses depois da contaminação Por Carolina Ribeiro Cinco pessoas de uma mesma família de Itaipu, na Região Oceânica de Niterói, testaram positivo para a Covid-19 ainda no início da pandemia no Brasil. Músico, Rafael Maiolino, de 33 anos, foi convidado para tocar junto com a cantora Preta Gil no casamento de Marcela Minelli, irmã da influenciadora digital Gabriela Pugliesi, ocorrido em Itacaré, na Bahia, entre os dias 6 e 8 de março. Dois meses depois, a família ainda se recupera. Rafael Maiolino e seus familiares fazem parte do grupo de 445 pessoas que tiveram Covid confirmada por exames e já se recuperaram. No total, incluindo as que tiveram síndromes respiratórias agudas mas sem teste para Covid, segundo o prefeito Rodrigo Neves, 1.500 pessoas que foram atendidas nas redes pública e privada de Niterói estão curadas. As boas notícias, porém, não amenizam a dramática situação das famílias de vítimas da pandemia. Nesta sexta-feira (15), Niterói chegou a 1.186 casos confirmados de Covid-19 e 63 óbitos. Na véspera, eram 58 mortes confirmadas. Depois de o prefeito informar em live nas redes sociais da prefeitura o número de 63 óbitos até ontem, foi confirmada a morte de mais um médico em Niterói. Victor Luiz Bon, de 49 anos, morreu em decorrência de complicações pelo coronavírus. Ele era radiologista do CHN (Complexo Hospitalar de Niterói) e da Proecho. A morte do médico foi confirmada à noite pelo Conselho Regional de Medicina (Cremerj). Já a família de Rafael Maiolino venceu o vírus, mas ainda se recupera. O casamento em que o músico tocou virou notícia em março porque diversos convidados da festa foram infectados, incluindo Preta Gil e Pugliesi. Apesar disso, o músico diz não poder afirmar se a transmissão do vírus aconteceu durante a festa, uma vez que a banda passou por diferentes aviões e três aeroportos, incluindo São Paulo, que já registrava casos. Rafael começou a ter sintomas, como dor de cabeça e febre alta, dois dias depois de chegar em casa, em 10 de março. No dia seguinte, procurou um hospital particular, mas foi liberado com o diagnóstico de gripe. O exame de sangue para confirmar a doença só foi feito depois dos primeiros casos de contaminação no casamento serem confirmados. — Retornei ao hospital, fiz o teste e fui liberado para o isolamento domiciliar, pois moro sozinho. O resultado positivo saiu no dia 14 de março, mesmo dia em que meu pai sentiu os sintomas — relembra. Sem saber que estava contaminado, o músico visitou a mãe, de 59 anos, e o pai, de 62, que moram na mesma casa em que sua avó e o tio-avô, de 84 e 87 anos, respectivamente, antes dos primeiros sintomas. Ao passar mal, seu pai foi a um hospital e conseguiu realizar o teste, que deu positivo alguns dias depois. Já a mãe, que passou mal no dia 17, não foi testada na ocasião devido ao aumento da procura nos hospitais. Na mesma semana, os sintomas de seu pai pioraram e ele precisou ser internado no Complexo Hospitalar de Niterói (CHN) com dificuldade para respirar. Ficou sete dias sendo acompanhado por médicos, dois deles no CTI. Nesse tempo, seu tio-avô começou a apresentar febre, tosse e confusão mental. O diagnóstico, a princípio, era de pneumonia. — Minha mãe, então, resolveu contratar um laboratório que faz teste de anticorpo para todos nós. Foi quando descobrimos os cinco positivos. Um mês depois dos primeiros sintomas, meu pai e meu tio-avô ainda estavam com o vírus e podiam transmitir. Eu, minha mãe e minha avó já estávamos curados — contou. Chamou a atenção da família que a matriarca, aos 84 anos, no grupo de risco para o Covid-19 não sentiu sintomas. O tio-avô, de 87, apesar da confusão mental, já está recuperado. Dois meses após o início da doença e mesmo liberados pela Fundação Municipal de Saúde, Rafael e os pais ainda fazem fisioterapia pulmonar, com prescrição médica, por sentirem cansaço e dificuldade para respirar. — Até hoje não me sinto curado, nem meus pais. Estamos melhorando agora. A recuperação é lenta, ainda nos sentimos cansados e ofegantes por pouco esforço. Continuo sem acreditar em como as pessoas lidam com o coronavírus. Às vezes vejo amigos visitando outros amigos, saindo para se exercitar, e fico surpreso — revela, pedindo que as pessoas se cuidem: — Não é porque nossos cinco casos não foram tão graves que os outros também não serão. É irresponsabilidade achar que não é nada demais. O vírus não escolhe idade — afirma. Motorista de aplicativo, Marcus Vinicius Vital Araujo Abreu, de 31 anos, também é de uma família que foi contaminada pelo Covid e se recuperou. Ele levava uma vida normal de trabalho, apenas com cuidados reforçados, até ser internado por falta de ar no Hospital Municipal Mário Monteiro, no Cafubá, dois dias após começar a sentir sintomas. Sua irmã Caroline Vital Araújo, de 22 anos, e sua mãe, Sandra Rose Vital de Araújo, de 50 anos, todos moradores da Engenhoca, também sentiram sintomas, mas leves. — Comecei a sentir falta de ar, por isso voltei ao hospital depois de já ter sido medicado e liberado. Moro com minha esposa e filhas, mas elas não sentiram nada. Eu tentei me isolar quando comecei com as dores. Minha mãe e irmã sentiram uma gripe leve. Apenas eu que piorei, o que me surpreendeu por conta da idade… — recorda-se. Do Mário Monteiro, Marcus Vinicius foi encaminhado para o Hospital Municipal Carlos Tortelly e depois transferido para o Hospital Municipal Oceânico, todos considerados unidades de referência no combate ao vírus. Por sorte, apesar de precisar de auxílio de um equipamento de oxigênio para respirar, não chegou a ser intubado. Ao mesmo tempo em que ele era tratado nas unidades de saúde, sua mãe e irmã passavam mal em casa. Ambas chegaram a ficar ‘de cama’ por dois dias com fortes dores no corpo e tosse seca, além de perderem o olfato e o paladar. No período, a recomendação era de que os testes para confirmar o Covid-19 fossem feitos apenas em pacientes graves. — Comecei primeiro a sentir dor de cabeça e uma leveza no corpo. Nesse dia, sai de carro com minha mãe e meu irmão, então imagino que um transmitiu para o outro naquele momento. Não tive contato com ninguém que estivesse doente, posso ter pegado no mercado — comenta Caroline. Após a cura da família, Marcus Vinícius se diz assustado que, mesmo com o agravamento da pandemia em Niterói, pessoas ainda estejam descumprindo as regras de isolamento social, fazendo aglomerações e sem usar máscara nas ruas. — As pessoas só acreditam quando é um parente próximo. A doença é séria, eu passei muito mal e vejo que as pessoas não estão levando o vírus com seriedade — finaliza.

© 2020. A Seguir Niterói. Todos os direitos reservados. Site por Grazy Eckert e João Marcos Latgé.