“Professores se aventuram em uma nova forma de ser professor”

Pedagoga Marly Cury fala dos desafios e dos aprendizados da escola que leva seu nome durante a pandemia de Covid-19 em Niterói Por Melina Amaral A pedagoga Marly Cury. Foto: Divulgação Há 52 anos à frente da instituição que carrega seu nome, a pedagoga Marly Cury conversou com o A Seguir: Niterói. Ela defende que as estratégias e os procedimentos adotados pelas escolas, neste novo momento da Educação em meio à pandemia de Covid-19, sejam postos em prática com cuidado e cautela, sem perder o foco nos estudantes. Marly também ressalta que toda e qualquer mudança que venha para melhorar o sistema de ensino e o bem estar das crianças e da sociedade será benéfica e bem-vinda. A Seguir: Quais as estratégias adotadas para minimizar os impactos aos estudantes dessa migração do modelo presencial para o on-line? Marly Cury: Várias foram as estratégias, que foram se ajustando de momento a momento. Inicialmente, adotamos a tática de oferecer às crianças apenas uma hora e meia de tela por dia, para que elas pudessem se adaptar ao novo modelo de aula. Após duas semanas, começamos a atuar com horário normal da escola, mas alterando o ritmo das aulas, tornando-as um pouco mais lentas, sem deixar, no entanto, de explorar as muitas possibilidades que a plataforma escolhida nos oferecia e oferece. Tivemos a preocupação com o ritmo das aulas para dar, aos alunos e às famílias, tempo - principalmente emocional - para se adaptarem às novas circunstâncias: aulas dentro de suas casas, isolamento social, novo veículo de comunicação, nova linguagem. É fato que uma coisa são as crianças dominarem a ferramenta nos jogos de que elas tanto gostam. Outra, bem diferente, é elas assistirem às aulas e interagirem com o professor e os amigos através da tela. É uma experiência totalmente nova e inusitada, para as crianças e para nós, professores do Marly Cury, a falta da presença na escola. A falta do toque, do estar juntos, dos cuidados com o material, da merenda, das atitudes de companheirismo e solidariedade, do exercício da compreensão entre as crianças e os professores e entre elas e os amigos. Afinal, o melhor lugar de criança é na escola, brincando, aprendendo, ensinando, se socializando. Isto só ratifica o que nós professores pensamos: nada substitui a dinâmica de uma sala presencial, muito embora reconheçamos que a tecnologia, hoje, diante da situação em que nos encontramos, tem contribuído de maneira indispensável e enriquecedora para o aprendizado e crescimento das crianças. Não se pode nem pensar em abrir mão dela. Que tipo de apoio, tanto emocional quanto pedagógico, foi disponibilizado às famílias que precisaram se adaptar a essa nova e complexa rotina? A escola, no decorrer de sua existência, sempre se preocupou em manter diálogo com as famílias. Faz parte da filosofia da escola cultivar e exercitar uma relação de parceria. Por isso, durante este período de isolamento social, sempre que a escola é procurada, prontamente responde a este chamado. Inclusive, abrimos um canal de comunicação com a psicopedagogia da escola e isto tem dado um apoio bem eficaz aos que dele já fizeram uso. Quais os principais desafios encarados pela equipe docente, na difícil tarefa de se reinventar? Foi bem desafiador este novo momento, por vários motivos e, dentre eles, o fato de que, para a maioria dos que lá atuam, o uso do modelo on-line era uma total novidade. Foi suado e sofrido! Tivemos somente uma semana de treinamento em horário integral, incluindo sábado e domingo. A partir daí, abraçamos a causa e, a cada dia que passa, estamos procurando nos aprimorar. Os professores que, num virar de página de suas vidas, tiveram de virar professores de ensino remoto, ainda que emergencial, enfrentaram o novo e, prontamente, entraram na casa de seus alunos para aprender, junto com eles, a nova linguagem que se impunha. Não recuaram um só momento. E, corajosos, se aventuraram em uma nova forma de ser professor. Com o decreto do governo do Estado, de 13 de março, que suspendeu as aulas presenciais nas instituições de ensino públicas e privadas, como a escola se organizou, em um curto intervalo, para oferecer aulas online? Inicialmente, foi um grande susto, confesso. Porém, passado o fim de semana daquela sexta-feira, 13/3, vimos que não era o fim do mundo e, sim, mais um dos inúmeros desafios aos quais nos acostumamos a enfrentar no decorrer desses 50 anos. No entanto, sou obrigada a admitir que este está sendo um dos mais impactantes, haja vista a sua amplitude, já que esta situação atual atinge, emocionalmente, não só as crianças, como as famílias e os professores. Porém, passado o primeiro sobressalto, veio o alento, pelo fato de o colégio ter uma equipe muito coesa, dedicada e de saberes bastante diversificados. Na verdade, isso fez muita diferença na hora de se encontrar e de se trilhar novos caminhos, pois nos possibilitou enfrentar a mudança um pouco mais seguros. Realizamos reuniões, fizemos planejamento e tomamos decisões que não foram fáceis no início, mas a competência da nossa equipe multidisciplinar abriu as portas para a ação em curto período de tempo. É claro que isso demandou muito esforço e energia, mas fez com que as conquistas viessem a acontecer. Que tipo de investimentos precisaram ser feitos para essa adaptação? Fizemos o investimento em plataformas de transmissão e de sala de aula, treinamento de professores, desenvolvimento do ambiente virtual, armazenamento em nuvem e cessão de equipamentos para professores que não possuíam equipamentos em casa. Temos duas pessoas dedicadas ao desenvolvimento e ao gerenciamento dos ambientes virtuais e suporte técnico. Como tem sido a tarefa de administrar a escola neste período? Tem sido um período de muitos aprendizados. Agora, levamos a escola para dentro da casa dos alunos, em uma nova dinâmica. Este modelo exige uma maior descentralização e respostas on-line rápidas às questões que surgem no dia a dia. Além da curva de aprendizagem de professores e funcionários neste modelo, também foi um período de alto aprendizado para os alunos e para as famílias. Depois de um mês de aulas on-line, podemos dizer que, em maio, entramos em uma fase de maior rotina, com todos já bastante adaptados. Na equipe, podemos ver que a coesão que já existia dentro da escola agora se transformou em uma relação de total confiança e autonomia. Hoje, podemos dizer que somos capazes de realizar coisas que nunca havíamos imaginado há três meses. Tenho a certeza de que, ao voltarmos às aulas presenciais, traremos muitos aprendizados deste modelo de educação remota que estamos vivendo. Quais recursos virtuais e atividades estão sendo oferecidos aos estudantes? As crianças participam diariamente de aulas síncronas, com interação entre professores e demais colegas da turma, pelo mesmo período que teriam de atividades na escola, obedecendo, inclusive, a intervalos de recreio e aulas especializadas. As crianças têm acesso, também, à nossa plataforma no Moodle, por onde recebem e podem enviar as atividades propostas. Além disso, podem acessar nossa biblioteca virtual e assistir à gravação das aulas, caso não consigam participar das mesmas, no momento em que estão acontecendo. Nossas parcerias com a “Árvore Educação (Guten)” e com o “De criança para criança” também trazem novas ferramentas que nossos alunos estão adorando utilizar. Neste momento, estamos organizando nossa Feira do Livro virtual, que se concretizará através de um site para exposição virtual dos trabalhos dos alunos. Muitos afirmam que a sociedade sairá modificada desta pandemia, o chamado “novo normal”. Em sua opinião de pedagoga, que tipo de mudanças poderão ser adotadas, de forma positiva, pelas escolas? Na verdade este é um novo caminho a ser percorrido. Todas as escolas vivem, no seu cotidiano, pensando e repensando estratégias e procedimentos, de acordo com cada momento que se apresenta na sociedade na qual elas estão inseridas. Portanto, este momento não será diferente. Será também pensado e repensado para se agir tendo sempre em mente a pessoa do aluno, o seu equilíbrio e o seu saber. Por vezes, pode parecer que as escolas são um tanto lentas em suas decisões e escolhas. Porém, isto é somente cuidado e cautela, para que não percam o foco principal de sua existência: o aluno. Sendo assim, toda e qualquer mudança que venha para melhorar o sistema de ensino e o bem estar de nossas crianças e de nossa sociedade será benéfica e bem-vinda.

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