“Volta às aulas em meio à pandemia de Covid vai inaugurar a pedagogia do medo”, diz especialista

Professora da Faculdade de Educação da UFF afirma que retomada só deveria ocorrer após vacina por Silvia Fonseca Marta Nídia Varella Gomes Maia, pedagoga e doutora em Educação: ensino remoto não significa aprendizagem. Foto: Divulgação A volta às aulas presenciais em meio à pandemia, com todos os protocolos criados, com todas as estratégias de esquema híbrido e revezamento de turmas, além de ampliar o risco de contágio, vai inaugurar a pedagogia do medo, afirma a especialista em Educação Marta Nídia Varella Gomes Maia. Graduada em pedagogia pela UFF, doutora em Educação pela PUC e professora da Faculdade de Educação da UFF, ela é radicalmente contra a retomada das aulas presenciais antes de haver uma vacina contra a Covid. Ela também é crítica do ensino remoto, “que não significa aprendizagem”, e da forma como o debate está sendo feito. E é taxativa: “Nada se sobrepõe à necessidade de cuidarmos da vida, de conter o contágio da Covid e evitar mortes”. Leia a entrevista ao A Seguir: Niterói. A Seguir: Quais os prováveis impactos de cinco meses ou mais de escolas fechadas para a educação no país? Marta Nídia Varella Gomes Maia: Considero muito difícil mensurar esses impactos. Eles são de diversas ordens, desde o impacto sobre a aprendizagem até a alimentação que ocorre na escola e as dificuldades das famílias em cuidar das crianças em tempo integral. No entanto, nada disso se sobrepõe à necessidade de cuidarmos da vida, de conter o contágio da Covid-19 e evitar mortes. Fala-se muito em prejuízos para o desenvolvimento do país e das dificuldades para as avaliações nacionais e internacionais. O maior prejuízo ao país é o adoecimento e a morte da população por uma doença que ainda não tem cura, mas tem formas de proteção, sendo que a principal é o isolamento físico-social. Já as avaliações perdem ainda mais seu sentido diante da tragédia sanitária que se abateu por todo mundo no ano de 2020. Escolas públicas e privadas sofrem da mesma maneira com a suspensão das aulas presenciais e o uso emergencial do ensino remoto? Nem as escolas nem os sujeitos das escolas sofrem da mesma maneira com a suspensão das aulas. Para as escolas privadas há a perda do lucro e das próprias condições de manutenção de sua existência se os pais e responsáveis não quiserem ou não puderem manter as mensalidades. Isso pode ou poderia ter sido minimizado com medidas de diálogo entre os envolvidos, com práticas de descontos, por exemplo; mas, principalmente com medidas de apoio estatal às empresas, ainda que isso viesse a significar a incorporação das mesmas pelo estado, mesmo que temporária. Para os profissionais das escolas privadas isso significou a perda de salários e empregos para muitos e o acréscimo de trabalho para outros, intensificando a precarização do trabalho docente. Para crianças, adolescentes e jovens matriculados em escolas privadas isso acarretou a ausência do convívio com os pares, mas por outro lado a oportunidade para muitos de estar com suas famílias em tempo integral (ainda que isso não seja simples para muitos). Para os alunos do ensino fundamental e médio das escolas privadas acarretou ainda uma carga, por vezes absurda, de atividades remotas nem sempre de qualidade, nem sempre garantindo aprendizagem. Para as escolas públicas trouxe a emergência de lidar com as demandas de garantia da segurança alimentar das crianças e adolescentes matriculados, além de buscar formas de se manterem em conexão com os mesmos. Nas redes em que se implementou algum tipo de atividade remota houve ainda a necessidade de organizar, planejar e executar essas atividades. Para os profissionais das escolas públicas trouxe primeiro a preocupação com suas crianças e adolescentes, com sua saúde, segurança, seu bem-estar. Depois foram acrescentadas as demandas de atividades remotas e, por fim, a angústia com as ameaças de retorno antes de haver segurança sanitária para tal. Para as crianças e adolescentes das escolas públicas, entendemos que há diferentes consequências. Para uma grande parcela a primeira dificuldade é a de alimentação e a inoperância e demora dos governos para buscar medidas de resolver o problema. Depois temos a ausência de pessoas que pudessem cuidar deles em casa (lembrando que muitos profissionais não tiveram direito ou possibilidade de fazer o isolamento físico-social), a segurança física e emocional nas comunidades em que vivem, a falta de convivência de seus pares na escola. No entanto, nada disso se dá de forma igualitária com todos. Há crianças da rede pública que se encontram alimentadas, protegidas, com adultos que cuidem delas e em locais de residência com alguma segurança. Sobre o uso emergencial do ensino remoto: Primeiro é preciso dizer que somos contra o ensino remoto para a educação básica! Na melhor das hipóteses, ele pode ser de maior validade para os alunos do ensino médio. Para o ensino fundamental ele não é indicado e para a educação infantil ele é vetado. Precisamos falar do “tempo de tela” que afeta os olhos, a capacidade de concentração, o corpo como um todo e tem orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria. Depois, precisamos pensar que escola e ensino-aprendizagem não são palavras vazias. São nomes, conceitos, categorias que se referem à presença dos sujeitos em interação, principalmente na educação básica. A expressão “ensino remoto” é um neologismo que já anuncia isso, fala de ensino e não de aprendizagem. Por mais que se empreenda métodos e técnicas para que seja mais qualificado, ele não significa aprendizagem. As escolas particulares, muitas vezes pensando em levar aos pais a sensação de que estavam garantindo a aprendizagem dos alunos, se anteciparam em oferecer atividades remotas para compensar a ausência das aulas presenciais e chegaram a sobrecarregar os mesmos com quatro a seis horas de atividades “ presenciais” na frente da tela com os professores se revezando em suas disciplinas. Uma proposta sem qualquer cuidado pedagógico de fato. Em um ou dois meses começamos a ver relatos da exaustão desses alunos e pouca efetividade disso para sua aprendizagem. Nas redes públicas vimos uma diversidade de propostas que logo se depararam com a impossibilidade de serem de fato realizadas porque não temos o acesso amplo e democrático à tecnologia nas camadas menos privilegiadas da população. Gastou-se dinheiro público nem sempre justificado, nem sempre com o devido planejamento. Sabemos que apenas um pequeno percentual de alunos das redes públicas vem acessando os canais e plataformas disponibilizadas para assistirem aulas e receberem as orientações para seus estudos. Para os profissionais tanto das escolas privadas quanto das públicas, ainda que com diferenças, o ensino remoto se tornou um enorme pesadelo, uma angústia em meio a tanto sofrimento já trazido pela pandemia. São horas de planejamento de estratégias para levar ao aluno os conteúdos de forma palatável, mais um tanto mais de tempo de inserção das atividades nos meios virtuais, seja por vídeos ou outras técnicas, para verificar que pequenos percentuais acessam e números ainda menores dão algum retorno das propostas. Quais as consequências? Para os alunos das redes privadas a sobrecarga que não ajuda a aprendizagem e pode levá-los a uma diminuição do interesse pelo estudo. Um período em que pouco se aprende. Para os alunos das escolas públicas a clara percepção de que suas condições de vida e estudo não são as esperadas pelo sistema que quer lhe impor um período de estudo sem lhe dar as condições. Esse quadro que vemos hoje, com escolas particulares dando aulas on-line desde março e as públicas sem conseguir oferecer o mesmo tipo de acesso ao conteúdo, agrava a desigualdade na educação. No que falharam os administradores públicos nessa questão? Nem as privadas nem as públicas estão conseguindo garantir a aprendizagem nesse período. Ensinar e aprender são coisas extremamente complexas e não se resolvem apenas com tecnologia. Os administradores públicos falharam antes da pandemia em não garantir melhores condições de vida e estudo para as classes populares. Falharam na pandemia em não empreender maiores esforços para garantir o isolamento físico-social que nos ajudaria a sair dela mais rápido e com menos perdas. Falharam em tentar vender uma ideia à população de que conseguiriam aparelhar igualmente todas parcelas da população para o acesso ao ensino remoto. Falharam em apostar na ideia de ensino remoto como forma de substituir a escola presencial. Não deveria ter havido desde o começo um investimento para melhorar o acesso também para alunos de escolas públicas? Deveria por ser um direito dos alunos. Mas não teria dado o resultado que se propagou. A desigualdade social no país antecede a pandemia e se aprofunda com ela. Isso não pode ser resolvido com a distribuição de chips. Há muito se fala da democratização do acesso às tecnologias e ela não se efetivou. Mas ainda não temos a democratização do acesso ao saneamento básico. Como garantir acesso ao ensino remoto se não garantimos água tratada e esgoto aos lares dos nossos alunos? Por que uma possível volta às aulas presenciais, depois de cinco meses de escolas fechadas por causa da pandemia, provoca tanta polêmica? A volta às aulas presencias nesse momento nem deveria estar sendo pautada. No momento em que respondo a essa pergunta é divulgado pela mídia que o país contabiliza 114.277 óbitos por Covid-19, que o Rio de Janeiro tem aumento de óbitos nessa semana. Como colocar crianças e adolescentes em uma sala de aula, ainda que com todos os protocolos divulgados? Como educadora, não desejo ver nenhuma criança vindo a óbito por ter ido à escola, nem os profissionais adoeceram e alguns chegarem ao óbito. Escola é lugar de vida, não de morte. Retornar às atividades presenciais agora é colocar milhões em maior risco. Mesmo que se volte atrás depois, para os mortos não haverá uma segunda chance. O que mais tem dificultado um entendimento sobre isso? É uma questão de prioridades. Para os políticos vale a polêmica que os mantém na mídia. A máxima de falem mal de mim, mas falem de mim, vale na política brasileira, infelizmente. Para os empresários vale o lucro. Para os educadores vale a vida de si mesmos e de seus alunos. A decisão sobre reabrir ou não as escolas deve ser das autoridades públicas ou deveria ser tomada por comitês científicos de assessoramento ao Ministério da Educação, a governadores e prefeitos? Quem entende de doença, de remédios, de medidas de cuidado e prevenção são os médicos, os pesquisadores. É a ciência, apenas a ciência que pode nos orientar em casos de saúde. Todas as outras áreas deveriam se associar à ciência e seus mais dignos representantes para aprender e colaborar no que for possível. Frente a pandemia os pesquisadores da área deveriam ser a autoridade máxima para toda e qualquer decisão. No caso das escolas, os pesquisadores da doença, seu tratamento, formas de propagação e contenção devem ser ouvidos junto aos pesquisadores da educação, assim como aos trabalhadores que estarão na linha de frente nas escolas: os profissionais da educação e sua representação, seus sindicatos. A senhora acha que os pais devem ter o direito de decidir se seus filhos voltarão ou não e a partir de quando? A Constituição Federal define, em seu artigo 227, que é direito da criança, do adolescente e do jovem o direito à educação e que é dever da família, da sociedade e do Estado garantir esse direito. A LDB define com muita clareza em seu Art. 4º que é a educação básica é obrigatória dos 4 aos 17 anos. Logo, a princípio, não é opção dos pais levar seus filhos à escola. Por outro lado, definindo-se que haverá a oferta do ensino remoto, deverá ser possível, caso as aulas presenciais sejam retomadas durante o período de pandemia, que as famílias optem por não levar seus as escolas desde que garantam o acesso deles às atividades remotas oferecidas pela escola. Na minha avaliação, legalmente isso será possível e já vem sendo regulamentado pelos Conselhos Estaduais e Municipais de Educação. Se isso terá alguma efetividade sobre a aprendizagem das crianças não sabemos e, arrisco dizer, que não acredito que venha a ter. Estudar em casa é muito diferente de estudar na escola, com os pares e seus professores. Além do que precisamos pensar em quem poderá garantir esse acesso, uma vez que hoje vemos a desigualdade de acesso ao ensino remoto. Na prática os pais das escolas particulares talvez possam fazer essa escolha, os pais das escolas públicas dificilmente. Caso eu tivesse filhos em idade escolar, sob qualquer condição, não os enviaria à escola em meio à pandemia. A volta das aulas presenciais, mas num esquema híbrido, com manutenção também de aulas on-line e revezamento de turmas, continuará impactando negativamente na educação no país? A pandemia, a desigualdade social, a forma como o país está lidando com a pandemia impacta a educação, impacta a vida das pessoas com ela implicadas. A volta às aulas presenciais presencias em meio à pandemia, com todos os protocolos criados, com todas as estratégias de esquema híbrido, aulas on-line e revezamento de turmas trará uma consequência ainda mais grave junto com a possibilidade de maior contágio e mortes. Estará se inaugurando a PEDAGOGIA DO MEDO. Colocaremos crianças, adolescentes e jovens, além dos adultos, em um ambiente que antes era de convivência e interação, sob o contínuo domínio pelo medo. Os colocaremos sob rígido controle de seus corpos e mentes esperando que aprendam os conteúdos escolares ao mesmo tempo que precisam estar atentos a não tocar em ninguém, manter rostos cobertos, a ter cuidado para não tocar nas superfícies. Em breve tempo, além do risco de mais contágio e mortes, poderemos ter maior incidência de casos de ansiedade, depressão e doenças correlatas por intensa exposição a situação de risco, além de baixos níveis de aprendizagem. Precisamos pensar na qualidade de vida que estamos dispondo às nossas crianças, adolescentes e jovens. Amargaremos por anos os prejuízos emocionais e pedagógicos dessa decisão. Em sua opinião, qual a condição ideal para a retomada das aulas presenciais em todos os níveis de ensino? A condição mínima é a vacina! Sem vacina, sem escola! Isso é ter responsabilidade com a vida das pessoas. Estamos todos preocupados e desejosos que isso tudo passe para que voltemos às nossas vidas de forma presencial em todos os espaços, inclusive nas escolas. Mas isso não pode ser feito tendo como preocupação a economia. CNPJs podem ser resgatados, recuperados, criados outros para fins similares. CPFs uma vez perdidos, perdidos para sempre. A constituição e o ECA nos responsabilizam pelas vidas das crianças e adolescentes, pessoas em situação peculiar de desenvolvimento. A decisão de enviar crianças e adolescentes à escola em meio a pandemia será tomada por diversos adultos, mas não será uma decisão dos que ficarão expostos a doença e ao medo do contágio. Veja: quem decidirá não vai ficar exposto. Quem não tem poder de decisão ficará. Isso não é correto, é injusto e diria que é imoral e desumano. Por tudo isso, os profissionais da educação já declararam que entrarão em greve caso haja a determinação de retorno presencial sem aval da ciência, a chamada GREVE PELA VIDA! Pela vida dos profissionais, mas também pela vida das crianças, adolescentes e jovens.

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