A alma encantadora dos mercados municipais

Niterói pode atrair moradores e turistas se novo empreendimento der certo Por Silvia Fonseca O mercado de São Miguel, em Madri: imperdível para espanhóis e turistas Eu amo um mercado municipal. Esse sentimento de natureza toda íntima não seria revelado por mim se não julgasse, e razões não houvesse para julgar, que este amor, assim absoluto e assim exagerado, é partilhado por todos vós. Amo verdadeiramente. Gosto de flanar pelos mercados municipais como um vagabundo flana pelas ruas. Cobiçar cada tempero, cheiro, sabor, cor, gente que se movimenta. Embalar o cérebro no ritmo das vozes que se oferecem atrás dos balcões, provar tudo. E amei trocar “rua” por “mercado municipal” na primeira frase deste texto. O apaixonado pelas ruas e autor da frase é João do Rio, que escreveu “A alma encantadora das ruas”. Mas eu queria usar mais uma frase dele, fazendo a mesma troca: Os mercados municipais têm alma. Jamais visito uma cidade e suas ruas sem vagabundear também por seu mercado municipal. Se não for até lá, fico com a impressão de ir embora sem ter conhecido a verdadeira alma daquele lugar. Só não consigo dizer de qual mercado de qual cidade gostei mais. Gosto de todos. E de tudo. Já comi cobra, ouriço, ostras, azeitonas de todos os tamanhos, comprei páprica, tomei suco de romã, fotografei a maior variedade de cores que já tinha visto numa simples banca de pimentões. E a arquitetura? A história? O ambiente? O Mercado Central de Budapeste fica num prédio de fachada com inspiração neogótica de 1897, perto da Ponte da Liberdade, sobre o Danúbio. Perto é perto mesmo, ao lado. É o maior mercado varejista da Hungria, o mais emblemático e mais visitado por turistas no país. Não é como “de tudo o que há no mundo tem na feira de Caruaru”. Mas de tudo o que há na Hungria, com certeza. Saí carregando potes de páprica e um vinho Tokaji. Junto com o Danúbio, é a alma da cidade. O prédio do Mercado Central de Budapeste Tel Aviv, em Israel, tem pelo menos quatro mercados, no caso são de rua, imperdíveis. No de Carmel, tomei suco de romã. Elas são tão grandes, mas tão grandes, e expostas abertas ao meio nas barracas, que você passa a acreditar que nunca viu um vermelho tão bonito como aquele. E são espremidas na hora, na sua frente. No Mercado do Porto de Tel Avid, uma espécie de mercado do produtor, saí enlouquecida com legumes, frutas e comidinhas. No de Jafa, me perdi. Quer coisa melhor do que se perder num mercado, literal e metaforicamente? Jerusalém se abre para o turista no Mahane Yahuda. O cheiro de pães saindo do forno, o falafel quente na pita, aquela profusão de temperos, doces, frutas secas. Tem de ter espírito aberto para entrar na alma de tantas ruas do mercado, mas é uma experiência para a vida. Azeitonas para todos os gostos num mercado em Tel Aviv E o que dizer do mercado de especiarias de Istambul, na Turquia? Ali ao lado do Grande Bazar. Até a frenética chamada que todo dono de lojinha faz apelando para você entrar, além do hábito de esperar que você pechinche até que o preço fique de fato justo, até isso tem seu charme por aqueles corredores de anos e anos de história e cores. Na China eu comi cobra e sopa de pombo. No Japão, no famoso mercado de peixe Tsukiji, em Tóquio, se eu contar ninguém acredita. Não porque era exótico ou peçonhento, mas porque era bom, muito bom de tão fresco. Então só comendo para entender. O La Boqueria, na Rambla de Barcelona, sempre achei confuso como confusa é a alma da cidade catalã. E ainda assim imperdíveis, o mercado e as ruas da cidade. Já os de Madri… Os santos protetores dos comedores de ostras e tapas de sabores fortes que sempre me protegeram, amém. A capital espanhola tem muitos mercados, mas o de São Miguel, com sua estrutura de ferro, ali ao lado da Paza Mayor e nada longe da Puerta del Sol, me tira do sério completamente. Também me deixou tonta de alegria o Mercado da Ribera, na beira do rio, em Bilbao. As tapas de Madri ganham o nome pintchos no País Basco. Que loucura são aquelas fatias de pães com peixes defumados, presuntos crus, bacalhau, não dá pra descrever. Tem de ir e provar. Paris conjuga bem mercado e rua. E essa combinação é enlouquecedora porque tudo se multiplica. Os queijos franceses estão nas bancas por toda a cidade, nas feiras livres e não apenas nos grandes mercados de produtores, como o da região da Bastilha. E as ruas-mercados permanentes, como a Mouffetard, a Montotgueil e tantas outras… Melhor parar de falar porque estou com muita água na boca e saudades de viajar desde que começou a pandemia de Covid. Aqui mais pertinho, não dá para ir a Belo Horizonte sem visitar o Mercado Central. Deus do céu, os queijos da Serra da Canastra, as linguiças, os chouriços, os doces, os tira-gostos de jiló nos bares.. Como também é obrigação, em São Paulo, passar pelo Mercado Municipal e comer um pastel de bacalhau (gigantesco), um pão com mortadela. E o de Porto Alegre! Podia falar de muitos outros (os da Itália, tantos, Roma, Pádua, Florença…) mas queria só dizer que, como apaixonada por mercados e ruas, estou na torcida para que o Novo Mercado Municipal de Niterói consiga atrair mercadorias e gente interessantes, originais. E que essa mistura ganhe a alma da cidade. Além de jornalista há 30 anos, Silvia Fonseca experimenta viagens e gastronomia há mais tempo ainda, mora em Niterói e é autora do @semcrachacompassaporte no Instagram.

© 2020. A Seguir Niterói. Todos os direitos reservados. Site por Grazy Eckert e João Marcos Latgé.