A cidade que reabre

Niterói volta a funcionar depois da pandemia, ainda com restrições Por Luiz Claudio Latgé A cidade que começa a reabrir esta semana é como um brinquedo que não se pode tocar. Ou um bolo. Ou um livro. Ou uma bicicleta. Qualquer coisa que a gente preze muito e tenha esperado a noite toda acordado, como na véspera de aniversário ou Natal, como crianças, ansiosos pela promessa de desfazer o embrulho e ver um desejo se realizar. Como não somos mais crianças, tivemos que esperar mais, 120 dias de isolamento, mas igualmente temerosos, sem ter certeza sobre o dia seguinte. Até que depois de tudo, com todos os alertas, vermelho, laranja, amarelo, a gente pode pisar de novo as ruas de Niterói. É como um reconhecimento. A gente não se reconhece de pronto, porque não era assim que víamos a cidade, tão cautelosa. O passeio na orla de Icaraí, nossa principal passarela, era destemido, a gente corria, dava raquetadas, chutava bolas, partia cocos, pedalava bicicletas, encontrava os amigos, um ou outro corajoso ou desavisado ainda mergulhava… Parece que está tudo ali, mas tem este estranhamento, que vai muito além da máscara enfiada na cara… A gente quer encontrar tudo como estava, mas os amigos não estão por perto. Foi para a serra, ainda não saiu de casa, ficou internado e está em recuperação, morreu… As vitrines convidam para a liquidação. Mas quem se anima a entrar na lojas? Fila no banco. Termômetros, álcool em gel. Na bolsa, luvas e máscaras de reposição, como se saíssemos numa longa e perigosa viagem, carregando as máscaras que vamos precisar trocar e todo o manual de proteção. Como se tivéssemos que calibrar os pneus do carro, checar o óleo, ver a água do parabrisa apenas para ir até a esquina. As lojas fechadas e placas de vendo, alugo, fechado, não permitem engano. A cidade também não sai imune ao Covid. Lanchonetes, restaurantes, academias… aos poucos vamos descobrindo o tamanho do estrago. A gente quer abraçar a cidade, mas ela ainda não é totalmente nossa, com todas as restrições, o distanciamento e, sobretudo, o medo. Melhor pedir o delivery, ou passar para pegar na porta. O silêncio da cidade ainda nos incomoda. Durante a quarentena, e os dias de isolamento mais radicais, no lockdown, os bichos ganharam a cidade, havia tucanos, corujas, mico-leão-da-cara-dourada, tartarugas, na água limpa, golfinhos… até pinguins apareceram! Mas que falta faz o barulho!!!! Vou me arrepender de dizer isto, quando o primeiro cretino voltar a buzinar no meu ouvido. A cidade hoje não se permite movimentos efusivos. Não dá para falar alto, festejar, são perdigotos espalhados e enorme risco social. Recuperamos algumas endereços da cidade, isso é bom. Foi emocionante voltar a ver o pôr do sol do Parque da Cidade, ou do MAC. Claro que tinha que chover, depois. Psicanalistas recomendam olhar o céu, na pandemia, a paisagem sempre nos ajuda a relaxar. E assim vamos sentindo o território, ensaiando os próximos passos, mantendo a melhor taxa de isolamento do país. O respeito à norma é um reconhecimento de apreço à cidade - e a quem vive aqui, ao nosso vizinho. Pena que não estão na porta de casa, da loja, no bar… A cidade que começa a reabrir esta semana é a nossa cidade. Vamos retomá-la, no tempo certo, para que seja intensa e viva e, como sempre, o nosso melhor abrigo. A nossa casa.

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