A dura missão de proteger os pulmões na pandemia em Niterói

Fisioterapeuta combate danos da Covid-19 no aparelho respiratório Por Silvia Fonseca Leonardo Honse Ribeiro, intensivista no Hospital Icaraí Fisioterapeuta há 11 anos, sendo dez de terapia intensiva, Leo Honse Ribeiro, de 35 anos, está na linha de frente do combate ao Covid-19 dando plantões no Hospital Icaraí. Mestre em Fisioterapia Respiratória pela Trinity College Dublin, Leo diz que o desafio diário no tratamento de pacientes com coronavírus é “encontrar uma maneira de proteger os pulmões que estão submetidos à ventilação mecânica”. Em entrevista por email ao A Seguir: Niterói, Leo fala de sua rotina no CTI, das dificuldades de se tratar doença provocada por um vírus sobre o qual tão pouco se sabe e também de exercícios para manutenção de capacidade pulmonar. A Seguir: Algum dia você imaginou que enfrentaria uma rotina tão dura com pacientes em CTI, como agora, na linha de frente do combate ao coronavírus? Leo Honse Ribeiro: Certamente que não. Geralmente, os hospitais seguem um padrão nos tipos de doenças e nas características dos doentes. É claro que num país enorme como o Brasil sempre aparecem algumas novidades, mas não em tão larga proporção como com a Covid-19. O que mais chama a atenção no enfrentamento da Covid-19? O que mais perturba? Sem dúvida, a total falência do sistema respiratório. Com o passar dos dias, a resposta inflamatória, gerada pelo ataque do vírus às células acaba causando um nó no sistema imunológico, que perde a orientação de onde atuar corretamente. Essa inflamação desordenada e avassaladora acaba acometendo outras partes do corpo, como os rins, levando os doentes a precisarem de hemodiálise, quase sempre evoluindo para uma piora ainda maior do quadro ventilatório. Esse quadro grave de inflamação generalizada, insuficiência respiratória e renal dificulta o tratamento e a progressão de melhora desses doentes. E com certeza esse prognóstico ruim é o que mais perturba os profissionais da saúde. Os profissionais de saúde enfrentam agora um vírus pouco conhecido. Isso traz desafios imensos para ajudar a salvar vidas. Quais têm sido os seus desafios diários e dos pacientes que você atende no CTI com Covid? O desafio principal, creio, da fisioterapia em geral, é encontrar uma maneira de proteger os pulmões que estão submetidos à ventilação mecânica. Mantê-los sob um modo de ventilação não agressiva e tentando equilibrar com as necessidades apontadas pelos exames previamente coletados, como a gasometria arterial (níveis de pressão de oxigênio e dióxido de carbono no sangue), e os da parte metabólica. Como tem sido sua rotina no hospital e fora dele? Dentro do hospital mudou tudo. Desde a utilização de todos os EPIs até os novos protocolos, que são atualizados semanalmente, passando pelo número de horas de trabalho, que aumentou consideravelmente. Em casa, não mudou muito, mas há especial atenção à limpeza das minhas roupas e dos materiais de uso pessoal no hospital (caneta, crachá, carimbo, chave e telefone celular etc.). Você acha que o fato de Niterói ter tomado medidas para o isolamento social logo no começo da pandemia no Brasil deixou a cidade em situação menos pior que outras do país? Sim, ajudou, mas a população não fez sua parte. Costumo ir e voltar andando para o trabalho. Sempre vi muita gente na rua, inclusive em botecos e padaria, bebendo. E na última semana vi um número crescente de gente nas ruas. Vamos colher esses frutos nas próximas semanas com hospitais completamente lotados. Se as medidas não tivessem sido tomadas estaríamos como Bergamo e Guayaquil. O isolamento social parece ser hoje o único remédio que tem unanimidade contra a Covid. Além de ficarem em casa, as pessoas também podem fazer exercícios para melhorar a capacidade respiratória, pulmonar? Sim, existem vários tipos de exercícios que podem ser feitos em casa. A calistenia (exercícios com o corpo – polichinelo, flexão) é um bom exemplo. O uso de alteres também pode ajudar. Nessas horas, é melhor dar asas à imaginação. Se puder consulte um profissional de educação física de confiança. Que medidas se pode tomar nesse sentido? Exercícios de que tipo? Quanto à reabilitação ou manutenção da capacidade pulmonar, os estudos dizem que não importa o tipo de exercício, desde que seja de intensidade moderada a forte por 30 minutos diários. Quanto aos casos específicos pós Covid-19, será preciso mais estudos para avaliar a melhor estratégia. Vocês têm atendido muitos médicos e outros profissionais de saúde infectados? Há muito medo nos hospitais? Sim, conheço muitos colegas cujos testes deram positivo. Felizmente a maioria com sintomas leves. Poucos precisaram de internação e todos sem muita gravidade. O medo existe. É uma doença de fácil contágio e que, quando desperta os piores sintomas, não é de fácil tratamento. Quando essa tragédia passar, o que você pretende fazer para aliviar um pouco a tensão que tem enfrentado? O que recomendaria? A recomendação atual é ficar em casa. Quando as autoridades sanitárias e de saúde mundiais derem o ok, então vou começar a planejar o que fazer. No meu caso, viajar, voltar a ver a namorada que mora em São Paulo, assistir às ligas esportivas que gosto, tipo NBA, NFL, a NBB e o campeonato brasileiro. Por incrível que pareça, até do destrambelhado Botafogo eu sinto falta (risos).

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