A dura rotina de uma técnica de enfermagem na pandemia em Niterói

“Mesmo já tendo tido o vírus, continuo com o medo”, diz a funcionária do Huap Por Carolina Ribeiro Izabel é técnica de enfermagem do Antônio Pedro há 26 anos. Foto: Arquivo Pessoal Izabel Cristina Firmino completou 56 anos no último mês. Desses, 26 anos são dedicados ao trabalho como técnica de enfermagem do Hospital Universitário Antônio Pedro (Huap), em Niterói. Servidora da UFF, Izabel é Coordenadora de Políticas para Mulheres, Raça e Etnia e LGBTIQ do Sindicato dos Trabalhadores em Educação da UFF (Sintuff). Trabalhou por 17 anos na UTI Neonatal da unidade e atualmente divide-se entre auxiliar o tratamento de pacientes no ambulatório e realizar a triagem daqueles que buscam atendimento no hospital. O Huap, apesar de não estar com a emergência aberta à população há alguns anos, atende no sistema de Emergência Referenciada pelo SUS desde 2007, isto é, pacientes que necessitam de cuidados de emergência de alta complexidade ou até exames são encaminhados ou transferidos para a unidade. No período da Covid-19, o Huap é hospital de retaguarda, e não linha de frente, absorvendo pacientes para desafogar a rede hospitalar de referência de coronavírus da Secretaria Municipal de Saúde de Niterói. Cerca de 200 profissionais de saúde da prefeitura foram alocados na unidade para auxiliar no combate ao coronavírus. Izabel não trabalha no setor exclusivo de Covid-19, mas realiza plantões de 30 horas semanais no Huap, e, em alguns momentos, faz a triagem dos pacientes. Sem saber como ou quando, descobriu por um teste rápido, feito por conta própria em maio, que já tem os anticorpos do Covid no corpo. Imagina então que a crise de asma que sentiu em abril tenha sido sintoma da doença. A profissional mora em Madureira, no Rio de Janeiro, e acorda às 4h nos dias de plantão para trabalhar no Huap. Passa por um trem de Madureira até a Central do Brasil, no Centro do Rio, onde embarca em um ônibus disponibilizado pela UFF para os funcionários neste momento de pandemia. - Trabalho há 26 anos no Huap, trabalhei por 17 anos na UTI Neonatal e depois fui para o ambulatório. Na minha rotina normal, trabalho no ambulatório, de diferentes especialidades. Neste momento de Covid, desde março, o hospital teve que se reorganizar para se adaptar à situação. Para evitar aglomeração, todas as consultas de rotina do ambulatório foram suspensas, restando apenas os pacientes considerados mais delicados. O meu plantão é de 30 horas semanais divididos em terça, quinta e sexta. - Embora eu more em Madureira, no Rio, minha mãe, de 76 anos, e meu filho, de 19, moram em Niterói. Antes da pandemia, dormia alguns dias em Niterói para dar assistência aos dois, mas desde março não os vejo, pois minha mãe é do grupo de risco e o meu filho está com ela para ajudar. - Em casa, acordo às 4h da manhã, já deixo tudo separado na véspera. Só tomo banho, me visto e vou andando para estação de trem, pego normalmente o trem das 5h10m em direção à Central do Brasil. Ainda dá tempo de tomar um cafezinho na Central antes de sair o ônibus da UFF, às 6h, onde já encontro alguns colegas. Chegamos cedo, antes das 7h, no hospital. E aí, então, nos preparamos para mais um dia de trabalho. Arrumamos o necessário no ambulatório, nos organizamos para recepcionar os pacientes mais graves e depois vou auxiliar na triagem dos pacientes na porta do hospital. Durante a triagem, Izabel oferece álcool em gel e mede a temperatura de todos. Foto: Arquivo Pessoal E a rotina mudou muito depois da pandemia? - Mudou tudo. Desde o nosso cuidado conosco, porque normalmente o profissional de saúde já é uma pessoa que tem um cuidado maior com a higiene, lavamos as mãos com mais frequência, usamos luvas e máscaras em procedimentos. Com a pandemia, a gente começa a ter que tomar mais cuidado ainda. Normalmente, o meu setor do ambulatório e as enfermarias não costumam utilizar os EPIs que são mais indicados para o CTI, como a máscara N95 e os capotes (tipo de avental hospitalar), mas temos que usar neste momento. - Estamos nessa busca por esses cuidados, pois a pandemia pega um sistema que está super debilitado, que é o SUS, com poucos funcionários. A maioria dos funcionários no Huap tem mais de 60 anos ou são pessoas com comorbidades, que foram afastadas por serem do grupo de risco. Atualmente são cinco técnicos de enfermagem em um dia e cinco no outro, mas o ideal seria mais do que o dobro. O material para trabalhar neste período está em quantidade insuficiente. - Todos os dias a gente tem que tomar cuidado para ver se tem o material, se o material disponível é de qualidade. Porque às vezes tem o capote, mas não é de qualidade, então temos que usar dois para nos resguardar. A máscara N95 dura 15 dias, se bem cuidada. Às vezes a nossa expira e temos que trabalhar com duas máscaras cirúrgicas porque os companheiros do CTI não podem ficar de jeito nenhum sem a N95. Nós também não poderíamos, mas eles não podem ficar sem de jeito nenhum, pois são eles que estão trabalhando com pacientes internados de Covid. - Como a característica do Antônio Pedro não é um hospital de referência do Covid, nós atendemos pacientes também de outras especialidades. Eles entram no hospital e, quando chegam na internação para cuidar de outras patologias, é identificado a sintomatologia da Covid porque muitos deles são assintomáticos. Ou seja, ficam na enfermaria, podem infectar outros pacientes e os próprios funcionários. A gente começou a perceber que os mesmo cuidados dos setores fechados precisam ser feitos nas enfermarias e no hospital inteiro. Diferente de um hospital de referência, em que os protocolos ocorrem desde a entrada, os hospitais de apoio às vezes acham que não é necessário fazer isso. - É mais fácil perguntar quem não pegou Covid no Huap do que quem não pegou. Na maioria dos setores, os funcionários foram infectados. Tivemos cinco óbitos, estamos agora com uma enfermeira em estado grave no UTI e um colega técnico de enfermagem em estado crítico internado em outro hospital. E como foi o seu contato com a doença? - Tive Covid-19 em abril e não soube. Era uma época em que o Ministério da Saúde ainda não orientava o uso da máscara pela população e nós já começávamos a questionar a qualidade da máscara que estávamos usando. Eu tenho asma e estava espirrando, não sabia se era um estado gripal ou algo relacionado a alergia e a asma. Tratamos como uma crise de asma e depois a médica detectou uma pneumonia. Um mês depois, em 14 de maio, um médico me deu a orientação de ir à policlínica da Uerj para fazer o teste rápido. Lá deu que já havia tido Covid. Esse teste rápido é para fazer exatamente assim, com um distanciamento grande, não é adequado para quem está recém-contaminado. Tem uma margem de erro, mas sei que o que eu tive antes foi Covid. - Mas aí vem a preocupação com as pessoas que fui expondo no meio do caminho, dos meus colegas e até de pacientes sob minha responsabilidade. Eu estava de máscara, mas eles não estavam. E isso aconteceu com outros colegas também. Por isso, questionamos a necessidade da gente, do ambulatório, também usar a N95. Foi só em maio que conseguimos a N95, o capote... - Na última terça-feira (7), os funcionários da enfermagem foram fazer o teste com o Swab (exame que coleta amostras da nasofaringe), que estava sendo realizado no início da pandemia, foi interrompido por um tempo por falta de kit e retornou recentemente. Uma reivindicação nossa é que os testes sejam feitos de forma periódica para todos os funcionários, justamente pela alta contaminação, mortes de funcionários e pessoas assintomáticas. Atribuímos essa ação de terça ao nosso ato de sexta-feira passada, em que cobramos essa questão. A morte de nossos colegas foi algo muito rápido, foram cinco em um mês. A gente precisa fazer mais atos dentro do hospital... E como é a experiência de trabalhar neste período? - Quando estou na triagem me paramento. Coloco meu jaleco, que já usava antes, depois um capote, touca de cabelo, máscara cirúrgica em baixo e em cima da N95, que é para ela durar por 15 vezes, de forma intercalada. No dia que tira, tem que ter um cuidado enorme, não pode colocar a mão contaminada na máscara. Eu quase não respiro e é um desespero. Tem dia que faz muito calor na triagem, que é na porta do hospital, dá vontade de tirar essa roupa toda e jogar tudo fora (risos). E também usamos a face shield para proteger de algum fluído. - Depois que acaba a triagem, coloco uma nova luva de procedimento, tiro a face shield, higienizo a máscara toda e depois coloco num balcão já higienizado. Depois tiro o capote, a touca, a luva e jogo tudo no lixo. Coloco uma nova luva, descarto as duas máscaras cirúrgicas que uso e tiro a N95 com todo o cuidado e a coloco em um saco de papel. Vou no banheiro, lavo minha mão, rosto e braços e depois volto para guardar a N95 corretamente, para isso, uso um filtro de papel de café com um buraco na ponta, encaixa certinho a máscara. - É o dia inteiro com essa roupa toda. A sorte é que minha orelha é pequena, pois ficaria que nem a orelha do Dumbo (risos). Machuca e incomoda demais. A gente termina o plantão com dor de cabeça e dor na nuca por causa do peso da face shield, é bem desconfortável. Fico imaginando os companheiros do CTI… é muito exaustivo. A gente fica exaurida de corpo e mente. Se quer beber água ou ir ao banheiro, tem que tirar tudo e tem que ter muito cuidado, pois é na hora de tirar que há o risco de se contaminar. - Mesmo já tendo tido o vírus, continuo com o medo. Vejo e leio notícias todos os dias, acompanho a quantidade de óbitos em todo o mundo, no Rio e em Niterói. A gente vê os números da doença crescendo e sabendo que tem pessoas que tiveram Covid, fizeram o exame e não conseguiram anticorpo suficiente. O exame que eu fiz deu uma quantidade baixa, preciso fazer outro teste para saber quanto que eu tenho de IgG, que é a célula de defesa. A gente já tem casos relatados no Brasil de pessoas que tiveram reinfecção do vírus e morreram depois. Mas não é algo que aconteça com todos. Com a população comum, acredito que seja mais difícil, mas nós estamos dentro do ambiente, não descarto a possibilidade, ainda mais que tenho asma. - Fico muito preocupada, por isso tenho essa rotina, e todos os dias reivindicamos mais material e de qualidade para todos os colegas. Às vezes, as máscaras demoram a chegar para gente, o médico já está esperando e nós não podemos começar. A gente tem que usar o material que é fornecido pelo hospital. Eu tenho que tirar as minhas máscaras de pano, que eu ando na rua assim que eu chego no hospital e quando vou embora uso outra que eu tenho na bolsa. - Quando eu chego em casa, é outra rotina. Tiro sapato, vou direto para a área, tiro minha roupa toda e coloco num balde. Vou tomar banho e depois vou agir as coisas dentro de casa. Não moro com criança ou idosos, mas moro com minha companheira e tenho que protegê-la também. -Durante o meu período com sintomas, ela cuidou de mim porque achamos que era crise de alergia/asma e ela não teve sintomas. Mas ela também não fez o teste. E é isso que a gente pede. Precisamos fazer a testagem regularmente do funcionário, mas também dos familiares, é uma orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS), mas os hospitais do Brasil não estão respeitando isso. Alegam sempre a falta de material. Mas a vida da gente vai ficar em jogo por causa da falta de material? - O Huap alegou que os funcionários não estavam sabendo usar o EPI corretamente e disseram que tinham passado orientações a todos os funcionários, mas não passou. O ambulatório, por exemplo, que recebe os pacientes na porta, não recebeu essas orientações. Eu estou na linha de frente e não passei por orientação. Se eu nao fosse buscar por conta própria, conversar com colegas e até pela experiência, estaríamos ainda pior... - E outro absurdo: fecharam o setor que era responsável pela saúde do servidor. Se começamos a sentir os sintomas, não temos onde buscar. É uma briga com a emergência e depende muito do dia do plantão. Não dá para o funcionário vir trabalhar, adoecer no Antônio Pedro e buscar atendimento no Hospital Municipal Carlos Tortelly. O certo seria testar o funcionário, afastá-lo, testar todo o setor e a família do funcionário, mas não fazem isso, simplesmente dão um atestado.

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