A face da diversidade Trans durante a pandemia de Covid-19

No Dia Nacional da Visibilidade Trans, profissionais da Saúde e da Educação contam como atuaram durante o isolamento social na cidade Por Tatiana Clébicar Integrantes da UFF, GDN e Codir: entrega de kits de alimentação, higiene e papelaria para estudantes do Prepara Nem. Foto: Tatiana Clébicar No mundo todo, heróis e heroínas da pandemia de Covid-19 foram exaltados merecidamente. Na maioria dessas homenagens, a bravura tinha a face de um homem branco cis, ou seja, que se reconhece com o sexo que lhe foi atribuído ao nascer. Mas, como essencial é um adjetivo de muitos gêneros, pessoas trans também tiveram papel importante em atividades na Saúde e na Educação. No Dia da Visibilidade Trans, celebrado desde que um grupo de travestis lançou uma campanha por respeito no Congresso Nacional em 29 de janeiro de 2004, pessoas que não se identificam com o sexo designado no nascimento contam como têm contribuído para mitigar os efeitos do isolamento social em Niterói. Especializada no atendimento a pacientes com mal de Alzheimer e Parkinson, a técnica de enfermagem Jhady Marques Almeida, de 27 anos, manteve-se como cuidadora de uma senhora de 100 anos. Morando em São Gonçalo com o pai e a madrasta, que tem risco aumentando para complicações da Covid-19, ela não pode aceitar a convocação para atuar numa unidade específica contra a nova doença. – Tive muita vontade de estar na linha de frente, mas eu colocaria em risco a minha família e a senhora de quem eu cuido. Não poderia fazer isso. Felizmente, nenhum de nós pegou o Coronavírus – conta ela, que perdeu o estágio que fazia numa casa de repouso em Charitas porque a instituição priorizou quem morava perto do trabalho e se exporia menos ao novo vírus no transporte público. A técnica de enfermagem Jhady Almeida cuida de idosos durante a pandemia. Foto: Arquivo pessoal Jhady é um ponto fora da curva. Não há estatísticas oficiais porque os censos e as pesquisas de emprego do IBGE até agora não contemplam identidade de gênero, mas estudos acadêmicos apontam que o acesso ao trabalho é precário. Levantamento da Universidade Federal de São Paulo estima que apenas 16% das pessoas trans atuam com vínculos formais. O restante não está ocupado ou está na informalidade. Cerca de 40% atuam como trabalhadores e trabalhadoras do sexo. Jhady teve apoio da família e não abandonou os estudos. – Quando me identifiquei como mulher trans, eu morava com a minha mãe numa cidade pequena no Paraná. Ela não me aceitou inicialmente e vim morar com meu pai, que me apoiou e acompanhou o processo de retificação de meus documentos. Foi muito gratificante ter meu pai presente no cartório naquele momento. Hoje em dia tenho apoio da minha mãe e somos amigas. Como educação é fundamental para garantir outros direitos, quem alcança o ensino superior estende a mão para quem está nesse caminho. Formada em Letras pela Anhanguera, a professora e escritora Paula Nascimento dá aulas de literatura no Prepara Nem do Grupo Diversidade Niterói (GDN). O curso preparatório para o ingresso na faculdade, via Enem ou vestibulares, é também um espaço de acolhimento psicossocial e precisou ser alterado durante a pandemia, num ano ainda mais violento para esta população. – Conseguimos acesso à plataforma on-line Descomplica e passamos a dar aulas remotas. Além do conteúdo didático, eu também fazia contato permanentemente com alunas e alunos para saber se estavam enfrentando alguma dificuldade – diz ela, que ocupa uma das diretorias da entidade e é autora de três e-books de ficção. A professora e escritora Paula Nascimento deu aulas on-line no curso preparatório para Enem e vestibulares. Foto: Arquivo pessoal Paula foi convidada a dar uma palestra virtual nesta sexta-feira (29) na Fundação Estatal de Saúde de Niterói (FeSaúde). Vai falar sobre o histórico da visibilidade trans e tentar sensibilizar profissionais de saúde para o tema com uma experiência pessoal. – Quando estava na faculdade, passei mal e fui levada ao Hospital Carlos Tortelly. Eu ainda não tinha os documentos retificados. O atendente me perguntou como eu queria ser tratada e qual nome deveria ser colocado no prontuário. Lá, o nome aparece no televisor da sala de espera. Imagina o meu constrangimento se ele não tivesse feito essa pergunta e colocado o nome do meu RG na tela. Esse tipo de atendimento, que não ocorre sempre, me marcou positivamente. Para que situações como essa não sejam exceção também trabalha Felipe Gali, de 21 anos. Homem trans, ele foi selecionado durante a pandemia para atuar como bolsista do projeto de extensão “Saúde das pessoas LGBTI sob a ótica da saúde coletiva: Atenção integral à saúde no Sistema Único de Saúde” (Prosain), da UFF, e se ocupou da organização de rodas de conversa virtuais entre estudantes de medicina e representantes de movimentos sociais. Mais de 150 pessoas receberam certificados por participarem dessas reuniões das quais saíram documentos destinados à Fundação Municipal de Saúde. – Discutimos as demandas de saúde da população LGBTI. Uma delas é justamente a sensibilização de profissionais para atender as pessoas trans fora de unidades especializadas. Nós precisamos de cuidados além daqueles relacionados à transição. Também temos amidalite, gastrite, Covid-19 e as unidades básicas nem sempre estão preparadas para nos receber. Outra questão diz respeito às campanhas de prevenção de câncer. É preciso colorir outubro e novembro com outras cores além de rosa e azul. Há homens com mamas e mulheres com próstata. As campanhas não podem tratar gêneros, precisam incluir os corpos em sua diversidade. Felipe Gali é bolsista da UFF e organizou atividades virtuais para sensibilizar estudantes de medicina para questões da saúde trans durante o período de isolamento. Foto: Anasylvia Cardoso Ignorar essas vivências é uma forma de violência simbólica, mas há outras bem concretas. Segundo dados nacionais compilados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em 2020, 175 mulheres trans e travestis morreram no Brasil vítimas de transfobia por assassinatos ou suicídios. Esse número é o mais alto desde que entidade iniciou o levantamento há 13 anos e mantém o país no topo das estatísticas mundiais. A falta de políticas públicas que permitissem que esse grupo ficasse em casa com as necessidades básicas atendidas e em segurança é apontada como uma das causas da exposição à violência. Para tentar garantir minimamente meios de subsistência para esta população, o GDN se articulou para fornecer cestas básicas e incluir as pessoas mais vulneráveis nos programas de auxílio da prefeitura. Acionando uma rede, que mobilizou pessoas físicas, jurídicas e órgãos estatais, mais de 3 mil cestas foram entregues desde o início do isolamento em março. – A população LGBTI já estava em isolamento há muito tempo, porque nossos corpos nunca foram bem-vindos nessa sociedade heteronormativa. A pandemia deixou isso mais evidente. Como a demanda foi muito grande, fizemos um recorte para definir prioridades. Na ponta da lança da vulnerabilidade estão as pessoas trans, negras e do gênero feminino. As primeiras cestas foram para elas – explica Felipe Carvalho, presidente do GDN, que comemora a inclusão de pessoas trans nos cadastros assistenciais da prefeitura de Niterói. – Com o apoio da Coordenadoria de Defesa dos Direitos Difusos e Enfrentamento à Intolerância Religiosa (Codir), conseguirmos cadastrar uma galera que estava totalmente à margem dos programas assistenciais. Elas passaram a receber pelo menos a cesta básica. E continuam até hoje. Uma das instituições que têm apoiado o esforço conjunto é a UFF. Por meio de um edital de fomento da Pró-reitoria de Extensão, foram entregues, no dia 20 deste mês, alimentos, kits de higiene e material escolar, que totalizaram R$ 1.709,29, destinados ao GDN, para distribuição entre pessoas trans em situação de vulnerabilidade. Quem fez a doação foi o Prosain, representado pela coordenadora do projeto, Sandra Brignol, professora do Departamento de Epidemiologia e Bioestatística do Instituto de Saúde Coletiva. Aliada na luta pela visibilidade trans desde bem antes da pandemia, ela organiza a cada semestre o Sescotrans, seminário que discute a necessidade de inclusão de temas da saúde das pessoas trans na formação médica. Por causa da Covid, os eventos do ano passado precisaram ser suspensos, mas outras atividades virtuais foram mantidas. Agora, a docente, que é uma mulher cis, prepara-se para iniciar uma pesquisa de pós-doutorado sobre os efeitos, na saúde mental, da violência e das violações de direitos humanos às quais mulheres trans e travestis são expostas diariamente. A pesquisa tem parceria com a Universidade Federal de Pernambuco e a Universidade do Porto, em Portugal: – Um compromisso que eu tenho como pesquisadora é, na medida do possível, trazer as pessoas trans para atuarem no Prosain, como foi o caso do Felipe Gali. Além disso, convidamos pessoas trans para conduzir nossos debates e mesas-redondas. Nos eventos, normalmente, faço a abertura e passo a palavra para elas. A gente pode falar de resultado de pesquisa e de teoria, mas não deve assumir esse lugar de fala. Embora seja muito sensível e parceira em suas lutas, não posso me colocar no lugar e na pele de uma pessoa trans. Professora da UFF, Sandra Brignol entregou kits de alimentação, higiene e papelaria para o presidente do GDN, Felipe Carvalho. Foto: Tatiana Clébicar

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