A reinvenção nos tempos do corona

Ações de pequenos empreendedores locais para tentar driblar a crise Por Melina Amaral Superar os efeitos da Covid-19 pode ir além das difíceis questões que envolvem a saúde coletiva. Do dia para a noite, pequenos empreendedores, comerciantes e profissionais liberais viram suas atividades tornarem-se "não essenciais" para uma sociedade em perigo, que precisa se isolar. Foi necessário se reinventar em meio ao caos, se adaptar rapidamente a uma nova e estranha realidade, na qual as comemorações em família, os encontros entres amigos e os diversos eventos presenciais deram lugar a chats, lives e reuniões virtuais. Mas o que fazer quando você, que trabalha justamente registrando esses momentos, fica de fora da festa? A agenda de eventos do casal de fotógrafos Bernardo Waack e Eleonara Bellé, sócios na Amonder Fotografia e Design, transformou-se numa lista de remarcações e cancelamentos. Sem poder exercer a atividade que realizam há 12 anos, e com experiência na diagramação de álbuns, Bernardo e Eleonara decidiram apostar na área do design gráfico e digital. - Ficar parado não faz bem, tanto mentalmente quanto financeiramente, então pensamos em algo que nos ajudasse a ter uma renda, mas sem fugir muito da nossa área. Buscamos cursos on-line gratuitos, baixamos alguns programas e passamos a nos dedicar à criação de logos, ícones, identidades visuais, entre outras coisas. Não temos o mesmo retorno financeiro de antes, mas já conseguimos uma renda esporádica - explicou Bernardo. Desafio parecido vem sendo enfrentado por outro casal, Kely Xavier, representante de vendas e consultora das marcas Lazuri e EVA, e Leandro Milward, técnico de planejamento na área de petróleo e gás. Impedida de realizar atendimentos presenciais às clientes, Kely também foi em busca de cursos para investir em mídias sociais e vendas on-line. Mas, com o marido - que trabalha embarcado - em stand by de sua função e temporariamente sem remuneração, a situação financeira da família ficou comprometida. Toda a preocupação do casal logo deu lugar à criatividade, e assim nasceu um novo empreendimento, a Duck's Drink. “Quando tudo parou, a primeira sensação foi de desespero, mas isso não resolveria nada. Procurei me manter ativa, adaptando minha forma de trabalhar. Mas precisávamos ir além. E foi de uma ideia caseira que o Leandro começou a produzir receitas de drinks à base de gin. Buscamos parcerias e apoio de empreendedores já consolidados para comercializar a bebida por delivery”, destacou Kely. Nutricionista, confeiteira e professora, Helena de Sá, idealizadora da LUNI Brigadeiros, também viu sua vida de pernas para o ar com o cancelamento de festas, e consequentemente, das encomendas de bolos e doces, e o adiamento das aulas presenciais. Chefe de família e com o seu trabalho como única fonte de renda, Helena precisou adaptar toda sua produção para continuar vendendo. Resgatou uma ideia antiga de comercializar seus doces em porções individuais e lançou um kit festa - com um mini bolo e alguns docinhos - para pequenas celebrações caseiras. Já as aulas, essas migraram para o modelo on-line. - No primeiro cancelamento de encomenda, a sensação foi de pânico, um dia inteiro chorando. Precisei me reinventar e imaginar o que as pessoas poderiam consumir dentro de casa, sem festas ou grandes comemorações. E o resultado tem sido maravilhoso! Poder adoçar momentos em dias tão complicados é uma alegria sem tamanho. Quando tudo passar, pretendo continuar com a essa opção para pequenas celebrações - revelou Helena. Um dos itens individuais do cardápio da LUNI hoje integra as caixas de café da manhã produzidas pela publicitária Luciana Moraes, que há mais de dez anos atuava como assessora e decoradora de eventos sociais e corporativos na LM Eventos. Com a necessidade de distanciamento social e a interrupção total de suas atividades, Luciana ficou de mãos atadas. Mas uma ideia sobre como presentear sua própria mãe este ano, no Dia das Mães, fez com que a microempreendedora criasse um novo modelo de negócio para si. Foram necessárias diversas adaptações, mas o retorno já começou a aparecer. - Tive que criar uma rede de fornecedores para me atender com os insumos, contei com a ajuda de parceiros como a LUNI e a Rio Balloon. Minha sala se transformou em um ateliê, tem até um frigobar agora. Montei uma logística de transporte para as entregas e com a preocupação redobrada com a higienização do material. E o resultado está sendo excelente! Só na primeira semana, vendi mais de dez caixas de café da manhã, e para o Dia das Mães foram cerca de 100 pedidos - festejou Luciana. Da organização de eventos de gastronomia diretamente para a linha de produção, esse foi o caminho percorrido pela também publicitária Priscilla Laterce, durante as primeiras semanas de quarentena. Gestora também de um centro de beleza, que está com suas portas fechadas durante todo este período, ela aproveitou sua habilidade na cozinha, adquirida ao longo de 12 anos trabalhando com grandes chefs, para assumir as panelas. E contou com a ajuda de um sous-chef especial, o marido Cláudio Furtado, que, impossibilitado de tocar sua empresa de representação de mídia, decidiu auxiliar a mulher na nova atividade. Com um cardápio bem variado, com empadões, quiches, panquecas, rocamboles, entre outros pratos, o Cozinha Gourmet da Pri também está prosperando. “Começamos em 21 de março. Em 40 dias, já estamos eu, meu marido, uma assistente e agora precisamos contratar mais uma pessoa, para dar conta da demanda. Em aproximadamente um mês e meio, vendemos mais de 1.500 porções. Tudo isso, graças à divulgação nas redes sociais, feita por minha filha”, relatou a empreendedora. Comunidade do Facebook reúne microempreendedores Criada pela personal de viagens Katia Yusim, com a ajuda das filhas Mariana e Letícia, com o objetivo de arrecadar doações para ajudar vendedores ambulantes, camelôs e outros trabalhadores informais que ficaram completamente sem renda devido ao isolamento, a comunidade do Facebook “Uma mão lava a outra”, que em um mês atingiu a marca de dez mil membros e conta ainda com um perfil no Instagram, tornou-se também uma importante vitrine para pequenos empreendedores locais. Imbuídos de solidariedade, os participantes do grupo começaram não apenas a divulgar seus produtos e serviços, mas a consumir os de outros profissionais, criando assim uma forte rede de trocas. - Essa ideia veio em minha cabeça como uma espécie de voz dizendo que eu precisava fazer algo para ajudar essas pessoas, e digo que foi um presente. Sou muito grata em poder contribuir. E o nome Uma Mão Lava A Outra casou perfeitamente com a ideia, pois um tem ajudado o outro e as vendas de muitas pessoas aumentaram significativamente com essa oportunidade de divulgação. De modo inesperado, formaram-se duas frente: as arrecadações para doação e a troca de bens e serviços - explicou Katia.

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