Arquiteto que projetou 2.500 casas, lojas e restaurantes fala como serão as moradias depois da Covid

Ricardo Campos derruba paredes para criar hall de descontaminação, janelas e home office Por Luiz Claudio Latgé Ricardo Campos, pela primeira vez na vida “trabalhando em casa”. Foto: acervo pessoal O arquiteto Ricardo Campos conhece esta cidade por todos os ângulos. Debaixo, de cima, de lado... até de dentro d'água. Literalmente. Nasceu aqui, há 68 anos, e, mesmo quando o trabalho o levou para todos os cantos do mundo, continuou morando aqui. Vive intensamente a cidade, desde os tempos de menino no Abel. Gosta de Itacoatiara, do cinema no Reserva, da Torninha, do Paludo. Se acostumou a levar os clientes no Caneco do Mário. E tem na cabeça o mapa da cidade, que via de cima, quando era campeão de asa-delta. Ah, faltou explicar a vista da cidade quando está no mar… É que ele não perde a chance de velejar na baía da Guanabara e praias vizinhas. Essa é a parte que a gente conhece. Porque, como ele diz, com a ênfase de quem defende suas ideias e projetos com paixão: “agora, muda tudo. A pandemia muda tudo, muda tudo.” Constata, sem receio de começar tudo de novo, de rever seus conceitos de arquitetura, de vida, de casa, de cidade, de comportamento... Como vai ser a loja? Como vai ser o restaurante? O consumo? O entretenimento?... As interrogações não duram muito tempo. Ricardo está trabalhando na construção de uma casa, duas lojas, uma na Barra, e na reforma de um restaurante, este bem perto, o Paludo, que sofreu um incêndio há poucas semanas. Não ficou parado, buscou novos caminhos na prancheta. “De cara, na casa que estou construindo, derrubei umas paredes para abrir janelas. A gente se acostumou a viver com o ar refrigerado e, agora, a gente precisa do ar circulando, a circulação cruzada, ventilação, porque já se sabe que o ar parado é um risco para a saúde.” A cabeça dispara a mil, como se ainda estivesse voando de asa-delta, esporte que abandonou ainda na juventude depois de sofrer um acidente grave. Pensa na casa do futuro, no comércio, nos equipamentos que vão surgir. Os parâmetros mudaram. As prioridades são outras: “limpeza, limpeza, limpeza”, segue enfático. E derruba mais uma parede na casa em obras, para instalar uma área de higienização. - A gente não se preocupava tanto com isso, mas a coisa mais importante, agora, é cuidar do que entra em casa, como receber as pessoas, as compras. Quando você pensou que um dia ia lavar com detergente um saquinho de batata-frita? O delivery, por exemplo, passou a fazer parte importante da vida da gente. Então não dá para pensar num prédio, numa casa sem ter uma área de descontaminação, um hall de triagem, de limpeza, vamos chamar assim, um lugar para processar as compras, alimentos, os equipamentos adequados para a higienização… É preciso parar um pouco, para ordenar o pensamento. O vento forte que anuncia ressaca empurra o pensamento do arquiteto rápido demais. Vamos lá: como Ricardo está vendo a pandemia? - A gente ainda está no meio do processo, a crise será longa, mas já sabemos que tudo vai mudar. Não vai acabar de uma hora para outra, até que se tenha uma vacina, um controle maior. Quanto tempo vai levar isto, um ano, dois? De qualquer forma, a cabeça da gente já está pensando diferente, depois de tanto tempo em casa. As prioridades mudam, os valores, e você passa a observar o que faz parte da sua vida e o que não vai fazer mais parte dela, porque você precisa se proteger... A casa onde vive, em Charitas, é quase uma atração turística, tanto aparece em revistas de arquitetura, do Brasil e da Europa - Portugal, França, Alemanha... É quase um catálogo do seu trabalho, desde que ocupou o lugar como escritório, para depois ampliá-la várias vezes e transformá-la em residência. Tem sido seu abrigo na quarentena, que cumpre com rigor. Descobriu que pode trabalhar sem sair tanto, sem tanta reunião, com as transmissões de vídeo on-line. - A gente, às vezes, perdia um dia inteiro para sair daqui e fazer uma reunião na Barra. Uma hora e meia, duas horas para chegar. Você levava os projetos, mostrava, discutia, meia hora de conversa para voltar. Mais uma hora e meia de ponte… E hoje estamos vendo que muitas destas coisas a gente está resolvendo sem precisar se deslocar. É claro que tem um momento que precisa olhar, sentir os materiais… Mas com certeza não teremos mais tanta reunião presencial. Estar perto, sentir os materiais faz parte da essência do trabalho de Ricardo Campos, que preza o desenho exclusivo, a solução artesanal. Durante o curso de Arquitetura, na primeira turma da UFF, dividia seu tempo com a prática dos vôos de asa-delta. Se transformou em instrutor e campeão no esporte, nos tempos do falecido Pepê, um dos precursores da atividade. Mas sofreu um acidente, se machucou muito. E acabou buscando outra ocupação: foi desenhar jóias. Fez algum sucesso. E teve encomendas de diversas partes do Brasil. As encomendas, que poderiam fazer a alegria de outros artistas, viraram problema, pela repetição dos pedidos. Ampliou sua área de atuação: começou a fazer peças decorativas. E fez “a estante de CD”. Assim mesmo, entre aspas. A estante de CD merece uma explicação, não era um objeto qualquer… A famosa “estante de CD”. Foto: acervo pessoal - Você abria uma revista, estava lá minha estante de CD. Tinha uma entrevista do Caetano, aparecia a estante na casa dele. Entrava a novela, tinha a estante no canto da sala… - conta. Ele nem tem mais aparelho de CD, desapareceram das casas, mas conserva no estúdio duas torres do jeito que deixou, 20 anos atrás, repletas de CDs. Ricardo entrava, assim, na casa de milhares de pessoas. E não parou mais de ser convidado a entrar em outras casas, e lojas e restaurantes. Calcula que já fez mais de 2.500 projetos. Não quer ser impreciso, corrige: 2.460 projetos. Lojas da Reserva, FYI, Natura, entre tantas.Trabalha para os maiores grupos de comércio de roupas do país. Assina a ambientação de restaurantes … E tem o Paludo… - É um desafio. Porque não sabemos como os restaurantes vão funcionar depois da pandemia. O serviço de buffet não vai ser como era antes. Tem várias coisas sendo estudadas. Em Amsterdam tem um restaurante que instalou tendas na calçada. Na Alemanha outro fez cabines de acrílico.Tem experiências para entregar a comida embalada, como naquelas esteiras dos restaurantes japoneses. Ainda não tem um caminho, quem encontrar vai apontar uma direção, vai ser seguido. É um desafio. Muda tudo, como ele diz. Mas se tem uma coisa que ele não pretende mudar é a forma de trabalho que o consagrou. Ele mantém uma enorme oficina, que chama de fábrica de lojas, em Santa Rosa. Ali faz a pré-montagem de todos os móveis, luminárias, mesas, balcões… tudo que usa nas lojas e restaurantes. Conta com uma equipe bem preparada, e hoje todos trabalham de forma independente nos projetos. Ele acha que vai ser um período de muito trabalho, quando a economia reabrir. Porque casas, lojas e restaurantes existentes vão ter que se adaptar. E haverá oportunidade para novas empresas se estabelecerem. - Vai ter muita obra. Muita reforma. Projeto novo. Porque as pessoas vão querer ter segurança nas suas atividades. Vão querer ter mais conforto, em casa. Tem o home office, que não vai desaparecer. Se não vão sair tanto, a área de TV, o escritório, os circuitos de internet, você tem que pensar tudo de outra forma. A cozinha vai mudar, porque você vai cozinhar mais em casa… - lista, como se pudesse falar indefinidamente de tudo que vai ser diferente daqui para adiante. Está preparado para o momento, como sempre. Tem vários planos em mente. Tem um livro pronto, para marcar a carreira. A edição foi atropelada pela pandemia. Mas o título expressa bem o estilo do autor. Ricardo Campos, 40 anos: arquitetura, diversão e arte.

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