As nossas perdas

Gustavo Milagres, dono do posto de gasolina da avenida Rui Barbosa, não resistiu à Covid-19 Por Luiz Cláudio Latgé Gustavo Milagres. Foto: Facebook Nada tem sido normal, nestes dias de pandemia. A paisagem se repete, sem horizonte, limitada à janela da quarentena. É feriado e não vamos poder ir à Itacoatiara. Não vamos parar na empada do Alfredo. Seu Antônio vai ter que esperar. Ficamos assim olhando a tv, acompanhando a curva que mostra o aumento dos casos da doença e o número cada vez mais assustador de mortes. Nos trancamos e queremos imaginar que lá fora tudo segue igual e, quando voltarmos a andar pelas ruas, tudo estará como deixamos. Mas não será assim. Gustavo não vai mais cruzar a avenida Rui Barbosa, em São Francisco, e chegar calado, quase sem ser notado, como se já estivesse ali há muito tempo, para acompanhar a conversa, fazer parte da vida do bairro. Gustavo Milagres morreu na quarta-feira. Na impessoalidade da epidemia, foi uma das 153 vítimas da doença, registradas em Niterói, até agora. Era dono do posto de gasolina na esquina com a Araribóia, do lado da Caixa, em frente à farmácia. É assim que a gente se move na cidade, com esta familiaridade. Mais adiante está o supermercado Rui Barbosa, o depósito, que quem é do lugar sabe reconhecer, porque é um depósito de bebidas e um dos mais antigos pontos de encontro do bairro. E a gente se encontra assim. Na Koppenhagen da Cris, na gráfica do Maurício, no posto do Gustavo. Era dessas pessoas que a gente reconhece como vizinho. Gustavo investiu tudo o que tinha para comprar o posto, que leva a bandeira da Petrobrás. Foi morar longe, no Fonseca, até o negócio se firmar. E ganhar a confiança dos moradores. Abriu a loja do Bob’s, a loja de conveniência, o depósito de gelo e a gente se via por ali. A turma da Harley Davidson até fez ponto no lugar. Gustavo sustentava a conversa com todo mundo. Se você costuma passar por São Francisco, talvez já tenha cruzado com ele. Alto, magro, algo grisalho, óculos, 60 anos, sempre de camisa pólo. Delicado, cumprimentava todo mundo e se apresentava para a conversa. Vamos sentir falta do Gustavo. Assim como o conhecemos, deste jeito incompleto, sem ter todas as informações, sem saber muito mais além do que ele nos oferecia em cada encontro casual. Os dois filhos cresceram no bairro. E hoje moram fora. Nicolas está na Alemanha. Nico, como ele chamava. Era uma das poucas razões para se animar a viajar. Ver a neta. Sempre exibia as fotos no celular. Na pandemia, nem conseguiu embarcar para o Brasil. São as pessoas que fazem um lugar. A morte de Gustavo é como se o GPS tivesse perdido um endereço e nos deixasse sem orientação. A gente se tranca em casa. Espera que as pessoas que gostamos façam o mesmo. Não queremos perder mais ninguém. Quero voltar para a rua e encontrar todo mundo onde sempre esteve.

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