Botei a cara para fora de casa e voltei com mais medo da Covid

Em menos de 24h, exemplos de falta de cuidado em Niterói Por Silvia Fonseca Uma infecção me obrigou a sair da quarentena e ir ao médico na terça-feira (14). Consegui horário para as 15h. A secretária pediu que eu fosse de máscara e não levasse acompanhante. Nem precisava. Mas ok, nunca é demais lembrar. Imaginava que, chegando lá, seria atendida no horário marcado e que não haveria outros pacientes esperando, já que todos estariam cumprindo os agendamentos. Pura ilusão. O desrespeito não mudou com a pandemia e o risco de contaminação. Cheguei três minutos antes e na recepção havia, além da secretária, duas pacientes esperando. Perguntei se seria atendida no horário, ela me perguntou para qual eu tinha agendado, eu respondei 15h. Ela disse que sim, estava tudo dentro do horário. - Vou esperar no corredor do prédio, perto da janela, e volto em cinco minutos – eu disse, imaginando então que as outras duas pacientes seriam encaminhadas para outro médico. Voltei minutos depois, e a sala continuava com três pessoas. Não bastou. Chegou outra paciente, com a mãe. A secretária pediu que a acompanhante esperasse lá fora, mas a esta altura já éramos cinco pessoas em uma sala de espera pequena. A paciente que estava sendo atendida saiu, mas em seguida chegaram mais duas pessoas. Fui atendida às 15h45m, 45 minutos depois do horário marcado, quando então havia três pessoas além de mim esperando. Dia seguinte, quarta-feira (15), vou ao laboratório fazer o exame pedido pelo médico. Na porta, um funcionário explica que só podem entrar duas pessoas por vez. Entra uma moça e fico na porta, esperando ela fazer o cadastro. Sem querer, a um metro e meio de distância, inevitavelmente escuto perguntas e respostas. Ela estava fazendo exame de Covid. Descreveu os sintomas que estava sentindo, há quantos dias, etc. A esta altura eu estava em pânico. Bateu desespero e vontade de sair correndo dali, mas eu precisava fazer o exame. Ela entrou para fazer a coleta de sangue. Eu sou chamada para o cadastro e a entrega do material. Antes de responder à primeira pergunta da atendente do laboratório, reclamo: - Vocês tinham de separar exames de pessoas com suspeita de Covid dos demais pacientes. Salas separadas, ou dias, ou horários separados, mas não deixar pacientes com outras doenças junto a pessoas com suspeita de Covid... Para evitar contaminação, cuidado básico. A atendente diz que ela tinha agendado e eu não. Respondo que, no meu caso, não era preciso agendar. E portanto eu estava ali, e que o laboratório não tinha avisado que deveria agendar porque não estão agendando para entrega de material para exame sem ser de Covid. E que, se alguém com Covid agendou para aquele horário, não deveriam atender outras pessoas. Era só me avisar e eu procuraria outro laboratório, no mesmo prédio, ou iria em outro horário. A atendente responde que ali ninguém estava tendo contato com ninguém, todos estavam com máscara, e que se o Ministério da Saúde não permitisse o laboratório não agiria assim... Saí indignada, com medo, insegura, e temo ficar assim pelos próximos dias. Chego em casa e vou assistir à live da prefeitura sobre o lançamento do Plano de Retomada Econômica da cidade, com a presença do prefeito Rodrigo Neves, Secretários municipais, vereadores, dirigentes da indústria e do comércio, o reitor da UFF, umas 15 pessoas pelo que se via no vídeo, fora pessoal de apoio. As autoridades estavam sentadas, mas não havia uma distância de dois metros entre elas, numa sala fechada do Solar do Jambeiro, no Ingá. Pior: todos os que discursaram usaram o mesmo microfone, que passava de mão em mão, perdigoto em perdigoto, sem higienização. Todos estavam de máscaras, mas, como todos sabemos, não basta cumprir só uma das recomendações sanitárias contra a Covid-19. Botei a cara para fora de casa e, em menos de 24 horas, vi que levar a sério de fato a necessidade de cuidado contra a contaminação ainda está longe de ser realidade. Isso em dois ambientes médicos e numa solenidade oficial do Poder Público. Não vou nem contar o que vi na rua...

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