Cem dias de pandemia, em Niterói, nas fotos de Gustavo Stephan

Fotógrafo faz todos os dias o mesmo percurso para ver como a cidade reage nas diversas fases da epidemia A tentativa de levar a vida “normal” na praia de Icaraí. Fotos: Gustavo Stephan O fotógrafo é antes de mais nada um observador. Alguém que empresta o seu olhar para que a gente possa enxergar o que não vemos, a paisagem diante dos nossos olhos, a expressão que emociona, a força da ação que transforma a vida à volta em um instante. Como se apontasse o dedo para nos chamar a atenção. Olha, não está vendo? Gustavo Stephan não seria capaz deste gesto, não é do seu estilo, é mais para cool, não ia fazer barulho. Mas é o que ele faz quando aponta sua câmera para a cidade para nos mostrar, a nós mesmos, como vivemos a pandemia, nos últimos 100 dias. Gustavo mora em Icaraí e decidiu fazer a cada saída o mesmo percurso, pelas ruas do bairro, para registrar como a cidade vive a pandemia, em suas diferentes fases. O isolamento total, a obrigatoriedade das máscaras, a volta às atividades físicas na orla, a liberação ainda parcial do comércio... Assim, retrata a cidade no tempo e consegue capturar toda a apreensão que existe em cada um de nós, ainda que por trás da máscara. - Eu me preocupo muito com o respeito ao isolamento. Acho que é a atitude certa, que cada um pode tomar, para se proteger e proteger o outro. Às vezes vejo um certo descaso, dos mais jovens, que insistem em sair sem máscaras. Botam em risco a própria saúde e a saúde de outras pessoas, que podem ser até seus pais - comenta. Não perde o olhar de jornalista. Trabalhou 25 anos no Globo, participou de grandes coberturas. Gosta especialmente de uma reportagem especial sobre a abertura de um garimpo no rio Juma, na Amazônia. E uma viagem de 68 dias num veleiro com Amyr Klink até a Antártica. Essa rendeu um livro, Dias na Antártica. Tem outros, um deles, sobre a vivência de caminhoneiros, Por onde andamos. Apesar do trabalho na reportagem, da pressão pelo registro do dia-a-dia, prefere o olhar mais detido, um mergulho mais profundo no que retrata. É assim que está vendo Niterói, agora. Vê como as pessoas ficaram carentes da cidade, de seus lugares favoritos, depois de tanto tempo de quarentena. Registrou o movimento na praia. E algumas mudanças de comportamento. Acha que agora as pessoas caminham mais pela areia do que no calçadão. Talvez para evitar contato, manter o distanciamento, mas talvez porque a água tenha ficado mais limpa. Até pinguins andaram por aqui! - As pessoas ainda estão receosas. Estão saindo devagar. Com todo cuidado. Querem pegar um pouco de sol. Ficar tanto tempo em casa criou uma certa fobia. Mas a volta tem sido bem organizada. No Campo de São Bento foi tudo controlado. As pessoas de máscara. A máscara e o álcool em gel vão ficar na nossa vida muito tempo. Gustavo é mineiro, a família veio de Juiz de Fora. Mas está em Niterói desde os sete anos, e fez sua vida por aqui, no Salesianos, depois na UFF. Começou na Faculdade de Geografia, passou para o Jornalismo e se formou mesmo em Ciências Sociai. Acha que foi um privilégio viver o tempo que viveu, com uma turma que inclui o deputado Marcelo Freixo e o poeta Marcelo Diniz. A conversa sobre filosofia ainda o anima e a constatação das desigualdades sociais o desconcerta. - Acho que com a pandemia as desigualdades ficaram mais visíveis. Tenho a sensação de que aumentou muito a população de rua. É triste ver as pessoas disputando lixo. Outro dia vi uma briga de duas pessoas pelo território do lixo, a área em que cada um poderia vascular as latas de lixo - lamenta. A pandemia também teve outros efeitos na vida do Gustavo, como na de todos nós. Sempre tocou violão e gostava de compor. A quarentena serviu de inspiração. Tem tocado mais. E encontrou no filho Caetano, de 10 anos, um parceiro. Caetano toca na banda do Abel e, entre as lições com o pai, combinaram de apresentar uma música por semana. Ontem, terminaram a décima canção. A primeira composição do Caetano, “De brilhar” é o título. É só clicar. Como bom mineiro, sente falta da orla, das praias, especialmente de Itaipu. Gosta do Caneco do Mário e de comer peixe, tudo o que diz respeito ao mar. É frequentador do cinema da UFF. Do cinema, do Teatro e das exposições. Planeja ele mesmo uma exposição, ou um livro, com os registros que faz da pandemia. Talvez você, leitor, se veja por lá. A Galeria de Fotos do A Seguir: Niterói exibe uma mostra deste trabalho.

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