Cem pessoas

Niterói registra 102 óbitos por Covid-19 desde o início da pandemia e se aproxima de 2.000 casos confirmados da doença Foto: Pedro da Matta e Caio Pacheco Cem mortos. A cidade perdeu mais de 100 pessoas para o coronavírus. Nesta quinta-feira, 28/5, a Prefeitura anunciou que Niterói tem 102 óbitos, desde o início da epidemia. Os números mostram o aumento dos casos confirmados da Covid-19, acelerado, nas últimas semanas, pela maior capacidade de testagem, 1.905, o que coloca a cidade entre as que registram maior taxa da doença por 100 mil habitantes, bem perto e, às vezes, acima do Rio de Janeiro. O prefeito Rodrigo Neves prefere falar na recuperação dos doentes, já somam 1.156 as pessoas que se recuperaram da doença, uma cena recorrente e emocionante nos hospitais da cidade, públicos e privados. Mas ainda há um número crescente de pessoas sendo internadas, no último boletim, 95 no total. Há 552 pessoas com o vírus acompanhados pela Fundação Municipal da Saúde. A curva achatou Uma curva. É essa a imagem que detém a atenção de autoridades, médicos, infectologistas, empresários, cidadãos em todas as partes do planeta. A curva que exibe a evolução da Covid-19 em cada cidade, estado, país. Ela revela a intensidade da epidemia, a maneira como se dá o contágio, o efeito das estratégias de contenção, e o que se pode esperar pela frente. Uma projeção que não permite que se esqueça por um único minuto que aqueles números representam pessoas que estão morrendo. A notícia boa é que “a curva achatou”. Neste tempo de quarentena em que nos transformamos em especialistas em saúde pública, ficamos diante da tela do computador temendo o momento em que a doença atingirá o pico, seu momento mais dramático, e esperando sinais de que a curva parou de crescer, que as medidas de isolamento deram resultados no controle da doença. No grupo de profissionais da UFF que assessora a tomada de decisões da Prefeitura de Niterói, o GET-UFF contra Covid-19, surgido no departamento de Estatística, do Instituto de Matemática, mas que hoje congrega profissionais de várias áreas, da Medicina à Economia, os professores não gostam de tratar dos números que resumem a situação dos países. Entendem que os modelos epidemiológicos se aplicam melhor a unidades menores, que o mais correto seria analisar o que acontece nos município. É isso que tentam fazer, estudando o caso de Niterói. Sem perder de vista o que acontece nos municípios vizinhos, no estado do Rio, no Brasil e no mundo. Estão conectados com institutos de pesquisa internacionais mais relevantes. Os dados do Brasil são preocupantes. Já são mais de 400 mil casos e 26 mil mortos. Hoje, o país com o maior número de novos casos e mortes a cada 24 horas em todo mundo. As cidades mais castigadas são São Paulo e Rio de Janeiro. Uma vizinhança incômoda. E Niterói tenta se dissociar deste cenário, apesar da enorme movimentação de moradores na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, entre São Gonçalo, Rio e Baixada Fluminense, onde estão mais de 80% das mortes no estado. Os gráficos da UFF, atualmente o único mapeamento de dados da cidade disponível, abastecido por informações da Secretaria de Saúde do Estado, mostram que Niterói foi a primeira cidade do estado a registrar um óbito no estado, dia 17 de março, na mesma data que Miguel Pereira. Então a evolução da doença está mais adiantada na cidade que em outros lugares. Já passamos de 20 semanas epidemiológicas, como se conveniou acompanhar o ciclo da doença. A curva começa com uma inclinação suave. Em boa medida decorrente da falta de testes para diagnóstico da doença. O número de casos permanece baixo até meados de abril, quando a expansão da doença chegou a 26,6% em um dia. Apesar da falta de informações, mas atenta à situação de outras cidades no mundo e ao avanço da doença em São Paulo, onde foi documentado o primeiro caso, Niterói adotou medidas de isolamento, como o fechamento de escolas, shoppings, bares, restaurantes e cinemas e outros locais de concentração. A taxa de crescimento de casos caiu para 7,2%, como resultado das medidas de isolamento. O número de mortos cresceu gradualmente, de forma sempre ascendente, mas sem grandes saltos, até o início de maio, quando a curva começa a se acentuar. De 30 mortos, a cidade passou a registrar 45, no dia 14; dia 19, 65. Dia 22, 88 mortos. Até os 99 registados nesta quarta-feira 27/5. Como a doença tem um ciclo longo de incubação, sintomas e, quando há complicações, tratamento, os números refletem o passado. Indicam o grau de contágio existente 10, 15 dias atrás. As medidas adotadas em Niterói adiaram o pico da doença, mas o índice de isolamento pretendido pela prefeitura, em torno de 70%, começou a diminuir, o que explica o aumento dos casos e das mortes - e a decisão do Comitê de Gestão de Crise de fechar a cidade, no lockdown adotado no dia 11 de maio, que ampliou as restrições para a redução da movimentação e estabeleceu punição para quem desrespeitasse as normas sanitárias e saísse sem máscara. O decreto determinou ainda o bloqueio nas principais entradas da cidade para tomada de temperatura e testagem. Nos últimos dias, o número de casos seguiu crescendo, em boa medida pelo aumento do número de testes, depois que a prefeitura comprou 50 mil kits para a testagem rápida e os exames de confirmação ficaram mais rápido. Mas a curva já está se achatando, num patamar alto, mas sem o crescimento que assusta os matemáticos, o crescimento exponencial, quando os casos dobram cada vez mais rápido. O número de mortes também diminuiu nos últimos dias, oscilaram entre dois, três e, no máximo, quatro, embora o número de pessoas internadas ainda seja crescente, quase 90, o que não permite relaxar as normas de segurança. A saída da emergência não será tão rápida. A prefeitura adotou um sistema de cores, para medir o risco e o grau de isolamento que deve ser respeitado. O comércio, escolas, bares e restaurantes, cinemas, teatros e parques públicos só voltam a funcionar quando o contágio diminuir e houver melhor condição de atendimento na rede hospitalar, pública e privada. Até 30 de junho, pelo menos, o isolamento continua. Além disso, há regras para a retomada das atividades, o que a prefeitura batizou de Novo Normal, impondo um distanciamento de 1,5 m em locais abertos e de 2 m em lugares fechados. Números confusos Niterói está melhor ou pior que outros municípios? A comparação feita com municípios da Região Metropolitana, tomando casos e mortes por 100 mil habitantes, mostra que a incidência da doença em Niterói é proporcionalmente maior do que no Rio. 396 contra 334, no relatório de 25.05, baseado nos dados fornecidos pela Secretaria Estadual de Saúde. Existe alguma imprecisão no fornecimento dos dados entre prefeitura e o estado e, esta semana, a secretaria corrigiu os números informados, sem maiores explicações. No dia 25, eram 2.041 casos. No dia seguinte, com a correção, o número caiu para 1.692. Na conta da prefeitura, 1.798. Estes números divergentes alteram o cálculo da incidência da doença por 100 mil habitantes. Pelos dados da secretaria, 329 casos. pelas contas da prefeitura, 350 por 100 mil habitantes. Contra os mesmos 334 por 100 mil habitantes do Rio de Janeiro. No que diz respeito ao número de mortes, a situação de Niterói melhora. O Rio tinha dia 25 de maio, 42 óbitos por 100 mil habitantes; Niterói, 17,3. É melhor do que a capital, e do que acontece em Caxias, um município fortemente castigado pela doença. Uma parte da explicação, pode estar nos serviços de saúde existentes na cidade, uma das precursoras do SUS, e na rede hospitalar, que, historicamente, também atende municípios vizinhos. E o apoio da UFF, centro de formação profissional reconhecido e atuante na pesquisa e formulação de políticas em saúde pública. Há outros indicadores considerados, como as taxas de mortalidade, mas estas resultam da divisão do número de casos pelos óbitos registrados. E número de caso documentados é irreal, devido à falta de testes. O fato da cidade ter conseguido ampliar o número de testes melhorou o índice. No Brasil, a taxa é de 6,24%. No Rio, 7,44%; em Niterói, 4,38%. É uma informação, mas não uma garantia de segurança. A questão, para um estatístico, quando se defronta com esta curva -, e hoje a questão que se apresenta aos médicos, cientistas, epidemiologistas, autoridades e todos nós -, é o que acontece com a curva agora, a partir deste ponto que enxergamos no gráfico. A curva sobe? Cai? Cai lentamente? Fez um degrau, parou e voltou a subir? Pode voltar a crescer fortemente? A única certeza que os cientistas que se debruçam hoje sobre a epidemia podem ter é que o que acontecer daqui para a frente será resultado das nossas ações, dos cuidados que tomamos para evitar a propagação da doença.

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