Chefe de emergência em Niterói alerta que doentes crônicos não podem abandonar o tratamento

Se tem doença que requer tratamento, paciente precisa retornar ao hospital Por Silvia Fonseca O médico Daniel Marques, chefe da emergência do Hospital Icaraí A rotina do setor de emergência de um hospital é por natureza caótica. É a porta de entrada. Grande movimento, urgência, pacientes em estado grave. Pois é lá, chefiando uma equipe de 30 médicos e dezenas de outros profissionais de saúde, que trabalha o clínico Daniel Marques, de 31 anos, gestor e coordenador da emergência do Hospital Icaraí desde o começo da pandemia de Covid-19. Daniel foi infectado pelo coronavírus. Precisou ficar isolado em casa por 14 dias, mas já voltou ao trabalho. Quase todos os médicos da emergência acabaram tendo Covid. Gerir pessoas num momento tão complexo foi uma das experiências mais difíceis, além de ver colegas doentes. Hoje a situação começa a mudar. - A gente tem uma curva decrescente de casos. Faço contatos tanto com colegas de Niterói como do Rio e de São Gonçalo. Temos declínio de casos. Claro que ainda existem pacientes internados em CTIs, mas no geral tem diminuído – conta o médico, destacando os resultados do isolamento social na cidade. Com menos casos de Covid em Niterói, o médico enfatiza a necessidade de a população voltar a cuidar de outras doenças que requerem acompanhamento e tratamento. - A preocupação como médico, como hospital, é que Covid não é a única doença existente, e outras matam por ano infinitamente mais. E aí não é minimizar o coronavírus, de jeito nenhum, eu estava ali todo dia e vi pessoas muito graves com Covid. Mas a preocupação é que hospital é lugar que a pessoa tem de procurar quando precisa! Não é shopping e restaurante. Doenças oncológicas, cardiológicas, essas praticamente desapareceram das emergências durante a pandemia. E como estão sendo vistos esses pacientes? Nem a consulta foi viável porque os consultórios estavam fechados. Há uma semana, uma semana e meia, percebemos que esse perfil de pacientes começou a retornar. Só que a gente também constata que, infelizmente, estão chegando mais graves. Gente com doença renal que não estava sendo acompanhada, pessoas com câncer que estavam esperando cirurgia que foi suspensa. E agora voltam até mais grave. Existe uma preocupação muito grande nossa. O hospital não é um local de lazer. Se você tem doença, tem sintoma, procure o hospital – diz o médico. Ele lembra que, no geral, os hospitais separaram alas exclusivas para Covid. E que, portanto, é seguro ir às unidades buscar tratamento, se necessário, sem risco de contrair o coronavírus. - Li um alerta do Colégio Brasileiro de Cirurgiões de que 45 mil pessoas no Brasil vão morrer de câncer nos próximos meses porque, infelizmente, tinham de ter sido operadas e não foram durante a pandemia. O que deixa a gente feliz é poder ajudar esse paciente que está retornando, passada a pandemia. Perceber que esse perfil de paciente começou a retornar. Sobre a Covid, Daniel também destaca o peso de doenças preexistentes: - O que a gente viu muito, e que seria interessante a sociedade ter isso em mente, é que pacientes com síndrome metabólica, especialmente sobrepeso e obesidade, tiveram realmente desfechos mais desfavoráveis. Sofreram mais. Isso não é aqui apenas, é no mundo todo. Ele faz especialização em gestão e finanças hospitalar no Albert Einstein, em São Paulo. Desde o começo também trocou experiências com médicos não só de Niterói, mas também do Rio e de São Gonçalo. - Na emergência o médico já está acostumado a atender pessoas com infarto, com derrame, em estado grave. Mas tudo o que é novo, como no caso da Covid, gera muito medo, muito receio. E naturalmente não pude passar isso para ninguém. Eu peguei, eu contraí, eu tive medo, mas em hora nenhuma eu pude passar isso para a minha equipe, demonstrar isso. Claro, toda profissão tem seus prós e contras. Então o que pedi e afirmei é que não teríamos alguém covarde na equipe, que ninguém se amendrontaria a ponto de abandonar o paciente que requer cuidados. Precisei segurar psicologicamente outras 30 pessoas, diariamente, e incentivá-las. Sem contar o corpo de enfermeiros, técnicos... Além de os profissionais ficarem mais nervosos, tensos, querendo ou não o médico e gestor absorve o clima, não só dos colegas mas também dos pacientes. - A gestão foi muito complicada também porque semanalmente você recebia informações diferentes sobre uma doença nova. Atualizamos protocolos por nove vezes desde o início da pandemia. Fazer uma equipe de 30 pessoas absorverem e executarem uma quantidade de informações voláteis foi o mais complicado. Honestamente, adoecer nem foi tão complicado porque eu sabia que não ia passar em branco nessa. Na emergência, o médico percebeu os efeitos positivos do isolamento social adotado em Niterói, especialmente no começo da pandemia. - A gente tem uma emergência muito movimentada normalmente, então, por incrível que pareça, o fluxo de pacientes (no começo da pandemia) foi até menor do que a gente estava habituado. Niterói conseguiu fazer um isolamento bem razoável, e o perfil de procura médica em Niterói na emergência foi baixo. Claro que as pessoas ficaram com medo de ir ao hospital. Houve um pico razoável no final de março, começo de abril. A quantidade não foi enorme, mas o qualitativo foi bem ruim. Muitos pacientes graves chegavam, com uma doença que ainda é desconhecida em termos de tratamento. Daniel lembra que até hoje o mundo não tem um estudo conclusivo sobre tratamento para dar um respaldo científico aos médicos e que a Covid evolui muito rapidamente. Ele conta que analisou prontuário por prontuário de todos os pacientes que internaram com Covid confirmada ou sob suspeita de contaminação de 12 de março até 12 de junho no Hospital Icaraí. Na média, os doentes procuraram o hospital depois de cinco ou seis dias com sintomas. Mas houve doente que já chegava mal com apenas três dias de sintomas. E cada caso era um caso. Houve pacientes que conseguiram tolerar níveis de oxigenação baixa durante alguns dias em casa, mesmo que não soubessem, não tivessem oxímetro, e clinicamente não estavam com dificuldade para respirar. O período médio de internação no quarto foi de seis a sete dias no caso dos pacientes que não tiveram passagem por CTI. O tempo de internação para aqueles que precisavam de CTI variava mais, dependendo da gravidade e da evolução do quadro. Um dos maiores problemas para gerir a oferta de leitos de CTI, no mundo todo, diz o médico, é que o paciente grave de Covid fica em média duas semanas no respirador. Um quadro muito delicado, com demora para responder ao tratamento, além dos dias de recuperação depois.

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