Cientista político diz que São Gonçalo foi reduto bolsonarista no Estado

Eleitorado evangélico e conservador, impulsionado pelas fake news, pode ter sido decisivo por Silvia Fonseca Capitão Nelson, do Avante: vitória apertada em São Gonçalo. Foto reprodução da internet Com mais de 1 milhão de habitantes, São Gonçalo elegeu seu prefeito por uma diferença de menos de 6 mil votos, numa das disputas mais acirradas do país. A soma das abstenções, dos votos nulos e em branco chegou a quase metade do eleitorado de mais de 600 mil pessoas. É deste cenário de divisão e contaminação tanto pela praga das fake news como pelo vírus da Covid-19 que saiu vitorioso o candidato do Avante, Capitão Nelson, um PM já acusado (e não condenado) de milícia e que teve o apoio do presidente Bolsonaro. Em entrevista ao A Seguir: Niterói, o cientista político Márcio Malta, professor do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF (Inest/UFF), considera que São Gonçalo foi um reduto bolsonarista no Estadodo Rio e votou na contramão do que mostraram as urnas nos grandes centros urbanos do país. A Seguir: Niterói: São Gonçalo teve um dos resultados mais apertados do país. Capitão Nelson, do Avante, venceu Dimas Gadelha, do PT, por menos de 6 mil votos. As pesquisas, porém, davam vitória para Dimas. O que pode ter acontecido? - São Gonçalo tem um histórico de conservadorismo. Existia uma esperança, a partir do resultado do primeiro turno, que novos ventos fossem soprar na cidade. Mas o resultado confirmou que São Gonçalo foi um ponto fora da curva e escolheu o obscurantismo negacionista. Praticamente a única cidade que elegeu um político bolsonarista e nadou contra a corrente. Desperdiça assim a oportunidade de novos rumos, com políticas públicas e desenvolvimentismo nos mesmos marcos de cidades como Niterói e Maricá, que, com todas as críticas que possam ser feitas, equacionaram suas contas públicas e investiram fortemente em áreas como programas sociais e saúde. Dimas tinha o apoio de Washington Quaquá, dirigente do PT e ex-Prefeito de Maricá, e de Rodrigo Neves, Prefeito de Niterói, do PDT. Os dois não conseguiram “transferir” prestígio para Dimas? - Talvez o fato de Quaquá e Rodrigo Neves terem sido abatidos pela Covid-19 fizeram com que não tivessem o mesmo protagonismo do primeiro turno. E de fato a transferência de votos não é automática. Talvez o histórico de Dimas não tenha sido tão decisivo. Sem contar que os números são muito próximos. A cidade estava dividida. Mais de 33% dos eleitores de São Gonçalo não compareceram para votar, além dos 11% que anularam e dos 4,13% que votaram em branco. Isso dá quase metade do eleitorado. Revela desencanto ou medo da pandemia, que aumentou na cidade? Ou as duas coisas? - O índice de abstenção foi um dos maiores do estado. A pandemia certamente influenciou. Talvez associada a uma cultura política de menor participação e engajamento. Talvez também por conta do ceticismo de tantos anos de abandono do poder público. E as fake news, que foram fortemente usadas na campanha em São Gonçalo, também podem ter influenciado? - As fake news foram usadas de forma acintosa pelo vitorioso. Urge que o TSE adote formas de combate. Assistimos novamente a essa política de mentiras que acaba influenciando as eleições, imputando ao adversário fatos inexistentes. O eleitorado de São Gonçalo é mais conservador e de maioria evangélica. Isso pode ter ajudado na vitória de Capitão Nelson? - O eleitorado evangélico e conservador, impulsionado pelas fake news, pode ter sido sim um elemento decisivo. Mais uma vez mostrando ir na contramão de outras cidades como o Rio de Janeiro, que deu um basta a essa forma pequena e não inclusiva de se fazer política.

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