Covid impacta também o Enem em Niterói

Cursos dão aulas remotas, mas desigualdade no acesso às universidades deve aumentar Por Carolina Ribeiro Enem: exame foi adiado e ainda não tem data marcada Apesar do adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a discussão em torno da realização da prova que dá acesso a universidades continua por causa da paralisação das aulas presenciais em meio à pandemia de Covid-19. Educadores defendem que o prazo de adiamento de 30 a 60 dias pode ser curto devido à incerteza sobre quando será possível retornar à sala de aula. Diretora das unidades de Icaraí do Colégio e Curso pH, Cristiane Teixeira diz que este período é desafiador para as escolas e os educadores, pois estão tendo de se reinventar. Apesar de manter a programação pedagógica dos educadores em relação ao Enem, Cristiane afirma que foi preciso redimensionar as expectativas de aprendizado, uma vez que o trabalho virtual precisa de planejamentos diferentes e traz mudanças pela falta de contato presencial com os alunos. Porém, com a pandemia, os estudantes estão aprendendo também a lidar com as adversidades e a insegurança provocadas pela incerteza. O pH adotou, além de atividades diárias, aulas ao vivo via internet para que os alunos conseguissem acesso ao professor e monitoria on-line. Além disso, os simulados das provas continuam e há um acompanhamento individual para orientação e cuidados com o emocional. Mesmo com boa estrutura tecnológica que permitiu a adaptação, a instituição também defende o adiamento do Enem, sobretudo por este ser um ano atípico com duas provas diferenciadas (on-line e presencial). - Nem todas as escolas têm a possibilidade de dar o mesmo suporte aos seus alunos. Ser uma escola privada não garante que você tenha uma estrutura de ambiente virtual e de tecnologia capaz de dar conta de todo esse novo cenário de preparo dos alunos. Com o adiamento, é mais tempo para o retorno ao cenário presencial. Assim, cada unidade poderá criar seu plano de recuperação das aprendizagens para que os alunos possam estar num nível mais próximo e buscar as suas vagas - ressaltou. Para Fernando Penna, professor e diretor da Faculdade de Educação da UFF, a desigualdade educacional em setores dos ensinos público e privado sempre foi percebida em anos anteriores, mas foi acentuada e “escancarada” com a pandemia. - De um lado temos alunos que continuam estudando e, do outro, estudantes que não estão tendo acesso a quase nada ou a nada. A discussão também é sobre adiar por quanto tempo e como fazer. São várias possibilidades e uma incerteza muito grande. Fica difícil resolver quando não sabemos quanto tempo [a pandemia] vai durar - disse ele, completando que insistir na realização do Enem este ano exclui das oportunidades de ensino os alunos que não estão tendo acesso ao estudo remoto. Com as escolas fechadas, o alternativa encontrada por gestores foi migrar o ensino presencial para o virtual. Colégios e cursos preparatórios disponibilizaram as aulas em vídeos gravados ou on-line. Foi o caso do pré-vestibular social Rede Educativa UFF Niterói, que precisou se adequar para gravar e publicar vídeos no youtube. Atualmente são 220 pessoas matriculadas, mas nem todos têm acesso à internet. De acordo com o coordenador acadêmico, Matheus Avelino, as maiores dificuldades foram a adequação às vídeo-aulas e as barreiras tecnológicas/sociais dos alunos. Esta é a primeira vez que a maioria dos professores trabalha com vídeo-aulas, e não houve tempo hábil de treinamento. Além disso, muitos alunos não têm conexão com a internet ou aparelho para assistir aos vídeos. - Não temos certeza de quanto tempo mais ficaremos quarentenados e se precisaremos continuar com as vídeo-aulas. Caso o ensino remoto vá até o fim do ano, nossos alunos serão prejudicados, até porque a maioria massiva é oriunda do ensino público e já apresenta alguma defasagem. Apesar de eles assistirem aos vídeos e tirarem dúvidas, não estamos tendo o alcance ideal e muitos estão ficando atrasados com os estudos - lamentou Avelino, ressaltando que o canal no youtube está liberado para que todos possam usufruir do conteúdo. Responsável pela rede pública de Ensino Médio, a Secretaria Estadual de Educação (Seeduc), por meio de nota, informou que, após a suspensão das aulas presenciais, fechou parceria gratuita com a Google For Education para utilização da plataforma Google Classroom. O ensino remoto está acontecendo com mais de 90% dos professores e cerca de 80% dos alunos participam permanentemente das atividades pela internet, segundo a Secretaria. O estado afirma ainda que a “implementação do ensino remoto é voltada para que os estudantes percam o mínimo de conteúdo possível e que continuem tendo contato com os seus professores”. Material pedagógico impresso também foi entregue nas casas dos estudantes. Aulas estão sendo transmitidas na TV Bandeirantes todos os dias, das 6h às 7h da manhã, com reprise das 14h às 15h, assim como na TV Alerj e na Rio TV Câmara. Prova definitiva para o futuro dos estudantes, o movimento para o adiamento do Enem foi grande devido às incertezas sobre a data de reabertura das escolas e à desigualdade de acesso dos alunos ao estudo em casa ao longo dos meses de quarentena. A campanha pelo adiamento foi endossada por entidades estudantis como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), além de representantes das maiores universidades do país. O movimento ganhou ainda mais amplitude depois que o Ministério da Educação lançou, no início do mês, uma propaganda com o mote “O Brasil não pode parar”, pedindo que os candidatos estudassem como conseguissem para as provas. - A votação no Senado e o recuo do MEC e do Inep com o anúncio oficial do adiamento das datas representam grandes vitórias, fruto dessa intensa pressão dos estudantes (...). Nossa pauta é que o adiamento ocorra pelo tempo necessário, de acordo com a prorrogação do ano letivo - ressalta nota divulgada pela UNE. Em apoio à causa, representantes de UFF, UFRJ, IFF, CEFET, UEZO, IFRJ, UENF, UFRRJ, UERJ, UNIRIO e Colégio Pedro II divulgaram uma carta coletiva antes da decisão de adiamento do Enem. No texto, os dirigentes ressaltaram que o tempo de isolamento social ainda não pode ser seguramente definido e que a crise gerada pelo Covid-19 poderá agravar ainda mais a desigualdade social entre os candidatos. - Milhões destes estudantes [em vulnerabilidade social] não têm acesso à tecnologia ou à internet, o que impede ações pedagógicas similares ao cotidiano escolar com aulas presenciais - diz trecho da nota, que reitera ainda a importância das instituições de ensino públicas e pede que nenhum estudante tenha o seu ingresso na universidade prejudicado pela crise da Covid-19. O MEC anunciou o adiamento no último dia 20 por 30 a 60 dias em relação ao previsto. Neste ano, o exame poderia ser feito em prova on-line, em outubro, e presencial, em novembro. A nova data será definida em junho, depois de uma enquete no portal dos inscritos.

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