De alma lavada: uma homenagem à Viradouro, campeã do Carnaval de 2020

Os melhores momentos que consagraram a campeã Vermelho e Branco, que cantou o ode à cultura popular baiana e o poder feminino Por Livia Figueiredo Viradouro, no desfile de 2020 / Foto: Leandro Lucas e Renata Xavier Pensar que há um ano versos como “São elas, dos anjos e das marés Crioulas do balangandã, ô iaiá Ciranda de roda, na beira do mar Ganhadeira que benze, vai pro terreiro sambar” seriam cantados a uma só voz a plenos pulmões na Sapucaí. É saudade que transborda o peito e ressoa nos lugares mais afetuosos dos carnavalescos. A hora é de celebrar o título novamente, como uma reprise que dá gosto de ver de novo. Assinado pelos carnavalescos estreantes Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira, o enredo “Viradouro De Alma Lavada”, que presenteou a escola com o segundo título no Grupo Especial da Escola de Samba, homenageou o grupo musical baiano As Ganhadeiras de Itapuã, quinta geração de mulheres que lavavam roupa na Lagoa do Abaeté , que fazia samba de roda, para abordar o protagonismo feminino na história brasileira. O título de campeã interrompe um jejum que durou 23 anos. A "Vermelho e Branco" de Niterói, como é conhecida a Viradouro, volta a levar o título, deixando para trás escolas tradicionais como a Grande Rio, em segundo lugar, seguida de Mocidade, Beija-Flor, Salgueiro e Mangueira. Em 2019, ela tinha chegado bem próximo da conquista, porém a Vice-campeã celebrou o resultado como se fosse um título. Comprovando seu bom convívio entres as escolas de samba, a agremiação fez questão de parabenizar a Mangueira pela vitória. A conquista da Viradouro foi considerada inédita na história dos espetáculos na Marquês de Sapucaí, já que nunca uma agremiação havia conseguido esta colocação no retorno ao grupo de elite. Ode à cultura baiana Sob influência do afoxé, ritmo baiano de matriz africana, nos batuques e na melodia, o samba da escola campeã traduziu em canto as mulheres escravizadas de Salvador. A história remonta ao século XIX, quando elas vendiam comida e lavavam roupas na lagoa do Abaeté e, com o dinheiro arrecadado, compravam sua própria alforria e a de outras mulheres. É a partir dessa premissa que nasceu o grupo d’As Ganhadeiras de Itapuã, exaltadas no desfile como as “primeiras feministas do Brasil”. Em uma nítida referência à ancestralidade negra, aliada às questões feministas, que representam a luta diária de mulheres para conquistar seu espaço, a Viradouro homenageou Oxum, tocando um ijexá, ritmo musical muito presente nos afoxés, em diversos momentos do desfile. A história já estava pré-escrita quando a campeã de 2020, nos primeiros minutos de sua apresentação, entrou com o carro abre-alas, o maior da história da agremiação. Os holofotes todos se voltavam para a ala das baianas, que transitava pela avenida com fantasias luxuosas e adereços religiosos. A expectativa do Carnaval 2022 Para o próximo carnaval, o diretor de passistas da Viradouro, Valci Pelé, faz um alento: "Espero que as pessoas possam acompanhar o próximo trabalho que será feito na Viradouro e minha estreia na Sapucaí como coreógrafo da Comissão de Frente da Unidos da Ponte. Me encontrei nesta nova função de trabalhar. Tive essa oportunidade e foi um desafio, que me fez perceber um potencial adormecido em mim", destacou. Resiliência da escola A fotógrafa Renata Xavier, que registrou os bastidores da Viradouro, ao lado do seu companheiro Leandro Lucas, cuja exposição pode ser vista no MAC na mostra “Das Cinzas Voltar, Nas Cinzas Vencer, Viradouro de Alma Lavada", relembra o incêndio de grandes proporções que atingiu o barracão da Viradouro, deixando cinzas em boa parte da sua infraestrutura. - 2020 foi um ano muito atípico. Uma pandemia global afetou todas as pessoas e países provocando muito sofrimento. O mundo do samba foi atingido em cheio por essa situação sem precedentes. Pela primeira vez desde que foram oficialmente criados, em 1932, não haverá desfiles em fevereiro. No meio dessas cinzas, buscar sobreviver, renascer. A esperança é o que move a Viradouro, o Carnaval e todos nós - explica a fotógrafa. Avante Viradouro! A garra, força, paixão e determinação de todos os integrantes, o famoso “chão” da escola, se revelou por uma sequência de quebra de paradigmas, emplacando uma sequência inédita de vitórias. Num exemplo de resiliência, a Viradouro raramente se abateu com as adversidades. A escola e sua comunidade mostraram conscientes de que a dor faz parte da trajetória cíclica da vida. Caíram, levantaram, caíram novamente e persistiram, se reergueram e seguiram adiante olhando para frente e repetindo o lema que é quase um mantra dentro da escola: Avante Viradouro! Foto: Leandro Lucas e Renata Xavier O A Seguir: Niterói relembra o desfile da escola campeã, em 2020, que já figura entre os momentos memoráreis do Sambódromo. Com o carnaval cancelado por causa da pandemia do coronavírus, a TV Globo decidiu exibir alguns dos melhores desfiles que já passaram pela avenida Marquês de Sapucaí nos últimos anos. O desfile da Viradouro em 2020 aparece na lista de 14 desfiles memoráveis do carnaval brasileiro, ao lado de Explode Coração, do Salgueiro, Liberdade, Liberdade, da Imperatriz, e Ratos e Urubus, da Beija-Flor. Aliás, a Viradouro tem dois desfiles na lista: Orfeu, o negro do carnaval (1998). Veja a lista: Acadêmicos do Salgueiro (1993) - “Peguei um Ita no Norte” (Explode Coração) Mocidade Independente de Padre Miguel (1990) - “Vira Virou, a Mocidade Chegou” Unidos do Viradouro (1998) - “Orfeu – O Negro do Carnaval” Beija-Flor (1989) - “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia” Portela (2017) - “Quem Nunca Sentiu o Corpo Arrepiar ao Ver Esse Rio Passar” Unidos da Tijuca (2010) - “É Segredo” Imperatriz Leopoldinense (1989) - “Liberdade! Liberdade! Abra as Asas Sobre Nós” Estação Primeira de Mangueira (2016) - “Maria Bethânia, a Menina dos Olhos de Oyá” Unidos de Vila Isabel (1988) - “Kizomba, Festa da Raça” Mocidade Independente de Padre Miguel (1985) - “Ziriguidum 2001” Beija-Flor (2011) - “A Simplicidade de um Rei” Acadêmicos do Grande Rio (2017) - “Ivete do Rio ao Rio” Unidos do Viradouro (2020) - “Viradouro de Alma Lavada” Império Serrano (2004 – reedição do samba de 1964) - “Aquarela Brasileira” Foto: Leandro Lucas e Renata Xavier Abaixo você confere, na íntegra, o samba enredo que levou a Viradouro a conquistar seu 2º título de campeã: Viradouro de alma lavada Ó, mãe! Ensaboa, mãe!
Ensaboa, pra depois quarar
Ó, mãe! Ensaboa, mãe!
Ensaboa, pra depois quarar Ora yê yê ô oxum! Seu dourado tem axé
Faz o seu quilombo no Abaeté
Quem lava a alma dessa gente veste ouro
É Viradouro! É Viradouro! Ora yê yê ô oxum! Seu dourado tem axé
Faz o seu quilombo no Abaeté
Quem lava a alma dessa gente veste ouro
É Viradouro! É Viradouro! Levanta, preta, que o Sol tá na janela
Leva a gamela pro xaréu do pescador
A alforria se conquista com o ganho
E o balaio é do tamanho do suor do seu amor
Mainha, esses velhos areais
Onde nossas ancestrais acordavam as manhãs
Pra luta sentem cheiro de angelim
E a doçura do quindim
Da bica de Itapuã Camará ganhou a cidade
O erê herdou liberdade Canto das Marias, baixa do dendê
Chama a freguesia pro batuquejê Camará ganhou a cidade
O erê herdou liberdade Canto das Marias, baixa do dendê
Chama a freguesia pro batuquejê São elas, dos anjos e das marés
Crioulas do balangandã, ô iaiá
Ciranda de roda, na beira do mar
Ganhadeira que benze, vai pro terreiro sambar
Nas escadas da fé
É a voz da mulher! Xangô ilumina a caminhada
A falange está formada
Um coral cheio de amor
Kaô, o axé vem da Bahia
Nessa negra cantoria
Que Maria ensinou Ó, mãe! Ensaboa, mãe!
Ensaboa, pra depois quarar Ó, mãe! Ensaboa, mãe!
Ensaboa, pra depois quarar Ora yê yê ô oxum! Seu dourado tem axé
Faz o seu quilombo no Abaeté
Quem lava a alma dessa gente veste ouro
É Viradouro! É Viradouro! Ora yê yê ô oxum! Seu dourado tem axé
Faz o seu quilombo no Abaeté
Quem lava a alma dessa gente veste ouro
É Viradouro! É Viradouro! Levanta, preta, que o Sol tá na janela
Leva a gamela pro xaréu do pescador
A alforria se conquista com o ganho
E o balaio é do tamanho do suor do seu amor
Mainha, esses velhos areais
Onde nossas ancestrais acordavam as manhãs
Pra luta sentem cheiro de angelim
E a doçura do quindim
Da bica de Itapuã Camará ganhou a cidade
O erê herdou liberdade Canto das Marias, baixa do dendê
Chama a freguesia pro batuquejê Camará ganhou a cidade
O erê herdou liberdade Canto das Marias, baixa do dendê
Chama a freguesia pro batuquejê São elas, dos anjos e das marés
Crioulas do balangandã, ô iaiá
Ciranda de roda, na beira do mar
Ganhadeira que benze, vai pro terreiro sambar
Nas escadas da fé
É a voz da mulher! Xangô ilumina a caminhada
A falange está formada
Um coral cheio de amor
Kaô, o axé vem da Bahia
Nessa negra cantoria
Que Maria ensinou Ó, mãe! Ensaboa, mãe!
Ensaboa, pra depois quarar Ó, mãe! Ensaboa, mãe! Ensaboa, pra depois quarar Ora yê yê ô oxum! Seu dourado tem axé
Faz o seu quilombo no Abaeté
Quem lava a alma dessa gente veste ouro
É Viradouro! É Viradouro! Ora yê yê ô oxum! Seu dourado tem axé
Faz o seu quilombo no Abaeté
Quem lava a alma dessa gente veste ouro
É Viradouro! É Viradouro!

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