Diretor da Rede D’Or, em Niterói, alerta: “as doenças não param”

Covid atrasou tratamento de doentes crônicos e muitos procuram o hospital em estado grave Por Luiz Claudio Latgé Dr. Luiz Abelardo alerta para necessidade de retomada do tratamento de doenças crônicas Rede D’Or, em Niterói: apenas 12 pacientes de Covid e 118 de outras doenças. Foto: Divulgação O movimento na entrada do Niterói D’Or mostra que a vida começa a voltar ao normal, em meio à epidemia da Covid. O hospital, que chegou perto de ter todos os seu leitos ocupados por pacientes contaminados pelo coronavírus voltou a atender outros pacientes, especialmente portadores de doenças crônicas, que adiaram a ida ao hospital para controle, diante do risco de contágio. O diretor médico do hospital, Luiz Abelardo Reis Santos, diz que hoje tem 12 pacientes de Covid e 118 com outras doenças. Depois da Covid, o que lota os hospitais, no momento, são as doenças crônicas. - As doenças não param - diz o médico. “Será que ninguém mais tem problema na vesícula, cálculo renal, pressão arterial alta?”, reflete. Ele diz que durante o pico da doença, em maio e junho, todas as atenções estavam voltadas para a Covid e os consultórios médicos especializados praticamente não tinham movimento. “Agora, os pacientes estão voltando, as clínicas estão todas funcionando.” Mas isto tudo não aconteceu sem consequências. - O que acontece hoje é que muita gente que fazia acompanhamento regularmente deixou de fazer as consultas e exames e, agora, quando retomam o tratamento, vêm com uma condição de saúde agravada. Pessoas que tinham alguma infecção adiaram ao máximo a vinda ao hospital e quando chegam aqui algumas estão até em uma situação grave- explica. Um dos maiores hospitais da cidade, o Niterói D’Or passou por um teste difícil, justo no momento em que completava a sua ampliação, com a construção do novo prédio, com entrada pela rua Mariz e Barros, inaugurado em outubro de 2019. A epidemia da Covid trouxe uma emergência inesperada, que mudou um pouco os planos do grupo. O Hospital tinha um centro cirúrgico na clínica da Avenida Sete de Setembro, que seria desativado. Mas foi, oportunamente, aproveitado durante a epidemia. Luiz Abelardo diz que a cidade soube enfrentar a Covid, com ações rápidas e efetivas. Ele atribui o resultado a alguns fatores: a ação da Prefeitura para estabelecer o isolamento, a adesão da população, maior que em outras cidades, o envolvimento das universidades e institutos de pesquisa no combate à doença e a existência de uma rede hospitalar consistente, com recursos como os de uma cidade do porte do Rio. Tanto na rede pública, quanto na privada. Ele relata que, em certo momento, os diretores dos maiores hospitais da cidade estabeleceram um acordo para trocar informações e experiências sobre a doença. - Esquece a concorrência, vamos trabalhar juntos. Fizemos várias reuniões com o CHN e o Hospital de Icaraí. E, quando a Prefeitura habilitou o Hospital Oceânico, a Rede D’Or fez uma doação de 14 respiradores. Esse esforço conjunto fez muita diferença… Agora, eles até devolveram os respiradores, com a redução dos casos da doença - conta. O médico acredita que o pior momento da doença ficou para trás. Que o vírus ainda circula na cidade e ainda vai circular por algum tempo. “Vamos ter que conviver com isto,” diz ele. Mas acredita que o risco hoje é menor, quando já se conhece as formas de prevenção, com o distanciamento, a máscara e a limpeza das mãos. Luiz Abelardo avalia que a cidade está mais perto da imunização de rebanho, quando um percentual importante da população teve contato com a doenças e adquiriu anticorpos, e faz uma barreira para a propagação do vírus. Segundo ele, uma boa parte dos casos ainda registrados se referem a uma subnotificação do passado, que aparece agora com o aumento da testagem. - Os doentes que estão hospitalizados com Covid estão internados há algum tempo. Temos casos de gente que está há dois meses na terapia intensiva. O últimos caso entrou há um mês. O que a gente nota, também, aqui e em outros hospitais da rede privada e da rede pública, é que as pessoas que são internadas ficam menos tempo, tem uma manifestação menos agressiva da doença - explica. Outra coisa que contribuiu no combate à doença, segundo o médico, foi o maior conhecimento da doença. Dos tratamentos, remédios, das técnicas de manipulação dos doentes. Diz com entusiasmo que os fisioterapeutas foram muito atuantes na UTI e ajudaram na recuperação dos doentes. Hoje, se reconhece, que o simples fato de trocar o paciente de posição, apresenta resultados importantes na melhora do quadro respiratório. E revela detalhes do trabalho realizado no hospital, em Niterói. - Os fisioterapeutas foram nossos anjos. Em determinado momento eles perceberam que a infecção se movimentava e trouxeram um equipamento, o Timpel, que permite monitorar as áreas mais congestionadas do pulmão. Desta forma, quando eles percebiam o comprometimento maior de um lado do pulmão, trocavam o paciente de posição. Isso melhorou consideravelmente os resultados - explicou. Segundo ele, vamos ter que conviver algum tempo com a doença, até que uma vacina tenha efeito e o controle da doença seja total. Ele previne que será demorado. E que é preciso que as pessoas comecem a retomar suas atividades, porque a quarentena prolongada pode ter consequências, como a falta de sol e pressão psicológica, entre outros. O problema agora é outro. A necessidade de retomada do acompanhamento dos doentes crônicos. As pessoas passaram a evitar os hospitais e deixaram de lados as consultas de doenças crônicas, especialmente. O médico assegura que, no momento, o risco está totalmente controlado. Os pacientes com Covid são isolados e não há nenhum registro de contaminação ocorrida dentro do hospital, nem de pacientes nem de profissionais de saúde. - Nós ficamos três meses em que parecia que ninguém tinha mais problema na vesícula, cálculo renal ou pressão arterial alta. Agora, aos poucos, os consultórios voltaram a funcionar. Temos 12 pacientes com Covid e 118 com outras doenças. Aos poucos, a cidade retoma suas atividades. “Não dá para parar tudo”, diz o médico. E repete a frase do início da conversa. “As doenças não param. Isto é vida.”

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