Fechado pela pandemia, parquinho do Campo de São Bento completa 62 anos

Brinquedos foram trazidos de Portugal e são administrados pela mesma família até hoje Por Silvia Fonseca O Carrossel do parque Maracanã, no Campo de São Bento. Fotos: Gustavo Stephan Quem é de Niterói não enjoa de ir ao Campo de São Bento. Deu muita cabeçada no bate-bate de lá, depois levou os filhos para cavalgar nos cavalinhos do carrossel e agora carrega os netos... Ali no canto junto à esquina da Domingues de Sá com Gavião Peixoto, o parque Diversões Maracanã completa 62 anos este mês. Pela primeira vez nessas mais de seis décadas de funcionamento, está fechado há quase quatro meses e não tem data para reabrir por causa da pandemia de Covid-19. Nunca antes carrinhos, elefantinhos e cavalinhos ficaram tanto tempo parados. Nem mesmo quando ele se mudou de lugar lá dentro do parque mesmo e fechou por menos de um mês. Se as crianças sentem falta, imagina dona Terezinha Alves da Cunha, de 82 anos. Ela e o irmão, Ricardo Alves da Cunha, de 83, são os donos do parquinho, trazido pelo bisavô dos dois de Portugal no pós-guerra. - Ela ia lá todos os dias, não falhava, há anos e anos, desde jovem. Agora, na pandemia, foi duas ou três vezes só porque tudo está fechado – conta Matheus Alves da Cunha de Azevedo, de 23 anos, neto de dona Terezinha e gerente do parque. O bisavó de dona Terezinha, que também se chamava Ricardo Alves, fundou o parque em Canas de Senhorim, uma pequena vila, distrito de Viseu, em Portugal. No pós-guerra, com parentes já morando no Brasil, Ricardo fez mala e cuia e partiu para Niterói, trazendo os brinquedos do parque no navio. Inicialmente montou o parque no Centro da cidade, transferindo depois para o Campo de São Bento. Quando Ricardo Alves morreu, o Diversões Maracanã ficou para o filho, pai de Terezinha e Ricardo. Este morreu há 12 anos, e o negócio é tocado desde então pelos dois irmãos, com a ajuda de outros parentes e do neto Matheus. São cinco brinquedos: o carrinho bate-bate, uma charrete, um carrossel, um carrinho para crianças pequenas e o dumbinho, que atualmente está meio desmontado para ser modernizado. - O que mais acontece é de passarem por lá avós contando que levavam os netos, que lembram dos filhos quando eram mais novos... Muitos avôs me contam que lembram de vovó quando jovem, lá no parque – diz Matheus. Matheus não sabe da lenda de que um cobra teria sido achada, nos anos 1960, num carrinho do bate-bate do parque. Mas diz que nunca viu cobra no Campo de São Bento, embora sempre apareçam gatos abandonados, patos que escapam da área destinada a eles no campo, além dos gambás que moram nas árvores e outros bichos silvestres. Nesses quatro meses de pandemia, e ainda sem data certa para poder reabrir o parque - a prefeitura reabriu o Campo de São Bento no dia 22 de junho, mas apenas para esportes individuais -, os administradores ligam os brinquedos pelo menos uma vez por semana para não dar problema nos rolamentos e as borrachas não secarem. A família tem dois funcionários fixos, com carteira assinada, e conseguiu mantê-los no período usando recursos próprios, já que o parque não está tendo receita. Assim como dona Terezinha, Matheus também mora em Icaraí. - Desde criança eu ia todos os dias ao parque. É minha segunda casa. Não digo triste, mas vovó está bem chateada e ansiosa. Ansiosa para voltar a trabalhar lá, e chateada por não poder abrir. Mas ela já foi ao parquinho duas vezes desde que teve de ser fechado. Eu a arrastei até lá para ela rever – conta Matheus, que estudou História na PUC do Rio, mas se dedica ao negócio da família. Além do Diversões Maracanã, o Campo de São Bento abriga o Colégio Estadual Joaquim Távora, o Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, a Escola Municipal Júlia Cortines e a Biblioteca Estadual Infantil Anísio Teixeira. Todos ainda estão fechados por causa da pandemia. História Principal jardim público urbano de Niterói, com cerca de 40 mil metros quadrados, o Campo de São Bento oficialmente se chama Parque Prefeito Ferraz. Mas é conhecido popularmente como Campo de São Bento desde que, em 1697, o terreno foi vendido aos monges beneditinos do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. Em 1824, a área foi usada como campo de manobra pelo imperador Dom Pedro I. Foco de doenças transmitidas por mosquitos, foi aterrado em 1882. Só “ressurgiu” em 1909, durante a gestão do prefeito João Pereira Ferraz. Daí o nome atual do campo. E ganhou projeto do engenheiro e paisagista belga Arsène Puttemans (1873-1937). Algumas das construções são tombadas, como o Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, este tombado pela prefeitura em 1990. Já o coreto que se inspira no paisagismo inglês foi tombado pelo Inepac em 1985 como marco do romantismo popular de fins do século XIX e início do XX. Em meados de junho, em meio à pandemia de Covid-19, a prefeitura iniciou uma obra de manutenção e replantio de canteiros para manter as características originais da obra de Puttemans.

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