Homenagem aos moradores de Niterói mortos pela Covid-19

Memorial Inumeráveis conta em prosa a história das vítimas do coronavírus, pelo relato de familiares e amigos Niterói tinha, até esta segunda-feira (1), 119 mortes por Covid-19. Mas quem são as pessoas por trás desses números? O projeto Inumeráveis, um memorial colaborativo dedicado a cada uma das vítimas do coronavírus no Brasil, se dedica a levantar as histórias dessas pessoas. Foi criado pelo artista plástico Edson Pavoni, com a colaboração de jornalistas e voluntários. “Não há quem goste de ser número. Gente merece existir em prosa”. Para isso foi lançado o Inumeráveis. Os relatos são colhidos com familiares ou amigos das vítimas, e os textos escritos de forma poética, numa homenagem a cada um dos mortos. “É uma celebração de cada vida que existiu e que existe, e de como podemos entrelaçá-las para construir memória, afeto, respeito e futuro”, diz a apresentação do memorial. O Memorial Inumeráveis forneceu a lista de nomes que ilustrou edições do jornal O Globo e do Jornal Nacional, entre outros. Agora, oferece a relação dos moradores de Niterói. O A Seguir: Niterói vai trazer aqui, a partir de hoje, aos poucos, os nomes e as histórias dos mortos por coronavírus em Niterói publicadas pelo Inumeráveis. Adélio Electo (1936 - 2020) "No escurema do cininho...” dizia ele, o trocador de sílabas. Adélio trocava a ordem das sílabas como ninguém. Certo estava ele. Maçante falar as palavras sempre igual, sempre igual. Legal é variar, misturar tudo e inventar novas palavras. Quem não quiser que não entenda! A sobrinha Daniele sempre achou divertidíssimo. Era uma pessoa da paz. Engraçado, espiritualizado, dono de um coração de criança e uma fonte inesgotável de alegria. “Foi um tio maravilhoso, que sempre me fez sentir em casa. Guardarei com carinho nossas conversas e risadas na hora do cafezinho”, diz Daniele. Adélio nasceu em Piranga (MG) e faleceu em Niterói (RJ), aos 84 anos, vítima do novo coronavírus. História revisada por Ticiana Werneck, a partir do testemunho enviado por Sobrinha Daniele M. Electo de Paiva, em 11 de maio de 2020. Ana Cristina Mesquita (1975 - 2020) Era contagiante, pura luz. Viveu para servir a Deus e ao próximo. Virtuosa como sempre foi, Cristina era diaconisa na Igreja Evangélica Plenitude em Caramujo, Niterói, onde nasceu e foi criada. Filha mais velha de Lourdes e Waldir, Cristina era técnica de enfermagem. Cuidava com muito amor de seus patrões e de sua avó dona Amélia. Era contagiante, pura luz. Viveu para servir a Deus e ao próximo. A empatia era seu dom. Serão eternas as saudades da mulher incrível que foi. Ana nasceu em Niterói (RJ) e faleceu em Niterói (RJ), aos 43 anos, vítima do novo coronavírus. Testemunho enviado pelo tio de Ana. Este tributo foi apurado por voluntário, editado por Mariana Coelho, revisado por Didi Ribeiro e moderado por Mariana Coelho em 25 de maio de 2020. Anselmo Dominguez Perez (1928 - 2020) Espanhol no RG e brasileiro no coração. Homem bonachão, simples, amigo, religioso e com um astral muito alto. Já tendo sido Cabo no exército espanhol, Anselmo veio para o Brasil no início da década de 1950. Não trouxe só a bagagem, mas também uma mulher em seu coração. Casou-se com ela em 1956 por procuração; seu pai o representou na igreja e a esposa veio posteriormente para o Brasil, onde estabeleceram a família que viria a crescer em 1957, com o primeiro filho. Inicialmente sapateiro, o já mais brasileiro que espanhol também trabalhou como porteiro e sócio de pequenos negócios. “Sócio que participava mais com labor que com dinheiro”, conta o filho Roberto, que relembra um episódio que aconteceu em 1962 e mudou a vida do pai: “Ele levou um tiro na perna ao apartar uma briga no restaurante onde era sócio. Um ano hospitalizado, com risco de amputação. Mas, com o fundamental apoio da sua amada, voltou à ativa. Com uma perna um pouco mais curta, é verdade. Mas, voltou! Um sapato especial o deixava em condições normais para trabalhar. E como trabalhou! De domingo a domingo, do nascer ao pôr do sol, ou mais! Só começou a folgar aos domingos e reduzir o expediente do sábado lá pela década de 70, quando, nos poucos dias de lazer, geralmente levava a família para o Club Espanhol de Niterói.” Em 1965, o ex-cabo passou a trabalhar no Ribalta Bar; o emprego perdurou por quase 50 anos, até a aposentadoria, em 2014. Em 1967 nasceu o segundo filho. Ah, os filhos! Que fossem bons homens e que estudassem e se formassem no que quisessem era o desejo do pai; não gostaria que um dia precisassem trabalhar tão árdua e pesadamente quanto ele. Na década de 70, Anselmo compra um pequeno sítio com dois amigos, também espanhóis, para se reunirem e jogar a "brisca". “Gostavam tanto disso que combinaram que o último que morresse levaria o baralho para se reunirem lá, no céu, e jogar uma "brisca"! O tempo foi passando e algumas décadas depois vão-se esses grandes amigos para a companhia de Deus”, relata Roberto. No ano de 75, o espanhol de coração brasileiro tirou suas primeiras férias desde que chegou ao Brasil. O destino? Parece óbvio: a Espanha. Foi rever a família junto à sua amada e o segundo filho; o primeiro não foi porque havia sido aprovado no vestibular, o que foi motivo de orgulho para todos. Esse mesmo filho, o mais velho, se casa em 82 e o primeiro neto chega em 85; a segunda chega em 92. Logo em seguida, o filho mais novo também se casa e em 2002 chega a terceira neta. Em 2007, a quarta; caçula do time. A cada neto que chegava o avô transbordava de alegria. “Eram os seus xodós! Que alegria estar com ele ou elas. Ver-lhes o sorriso. Sempre que possível adorava estar com toda a família reunida, rezar antes da refeição e, vez por outra, declamar algo muito engraçado”, relembra o filho Roberto. Em 2017 vai-se a companheira de uma vida e, em 2020, vai ele ao encontro de Deus para se reunir novamente com sua amada e seus amigos. Aliás, levando o baralho, como combinado. “Que Deus o tenha no bom lugar que merece!”, deseja o filho, eternizando a história do pai neste memorial. Anselmo nasceu em Verin, Ourense (Espanha) e faleceu em Niterói (RJ), aos 91 anos, vítima do novo coronavírus. História revisada por Irion Martins, a partir do testemunho enviado por filho Roberto Blanco Dominguez, em 8 de maio de 2020. Antonio Carlos Gomes Tavares (1955 - 2020) Pai, companheiro, amigo. Siga viagem no céu de pipas e aviões da sua infância. Tunico, Kaká, Parrôla, Toninho. Homem de muitos — e carinhosos — apelidos. Uma pessoa simples e popular, que não deixou de nos ofertar com a singularidade de sua vida. Era o primeiro filho de sua mãe, que resolveu chamá-lo pelo mesmo nome de seu tio materno: Antônio Carlos. Enquanto criança, brincou de tudo um pouco. Vendia manga na feira para faturar um trocado e arranhar o céu com sua pipa, tenteando-a para ir ao encontro, naquele fundo anil, do avião que seu pai pilotava. Depois do exame de admissão, ocupava os primeiros lugares nos diários de classe do Pedro II, no Engenho Novo. Não raro, seus professores repetiam em vão o seu nome na chamada. Esquecia o lápis e caderno para ficar hipnotizado nas mesas de seu fliperama preferido, na estação da Penha, até que o pai o levasse para a casa puxado pela orelha. Resolveu ser torcedor do tricolor carioca. Fascinado pelo futebol, vivenciou na mocidade o tricampeonato do escrete de Pelé, Tostão e Jairzinho. Nesta juventude que passou muito rápido, não queria ficar de fora dos times de pelada. Então, se esmerou para guardar sua vaga de goleiro nos campeonatos de futebol de salão, mesmo quando já contava seus cabelos grisalhos, no Pavunense. Como a bola ia ao seu encontro, deixava para correr pelas ruas dos subúrbios do Rio para apagar os balões que lançava nas noites de junho. Nas horas vagas, por atenção ou obrigação dada pela mãe, ensinava matemática aos irmãos mais novos. Tutor exigente até demais, mas não menos correto. Anos depois, o rigor característico das lições de contabilidade marcaria, em parte, sua trajetória de mais de três décadas no Banco do Brasil. Depois de deixar pelo caminho a faculdade aos vinte anos, quase cinquentão, voltou para a sala de aula. Aluno persistente até mesmo nas sextas-feiras, fim de noite. Repetiu a dose várias vezes, entre outras motivações, para que os filhos o tivessem como exemplo. A severidade do trabalho acompanhou, na mesma medida, a leveza, bondade e solidariedade de sua vida. Considerado amigo de primeira e churrasqueiro ímpar em todos os lugares onde havia fumaça e fogo no braseiro, tornou mais interessante esta arte culinária. Quase uma ópera de cortes diferentes, harmonicamente sincronizados. Para acompanhar a arte das carnes, a ciência do chope: tinha de estar absolutamente perfeito e na temperatura exata, ou então a bebida retornava ao balcão, seguindo o ritual de um autêntico apreciador da tulipa e do colarinho. Depois dos anos, já muito caseiro, alegrava-se quando o dia lhe oferecia a oportunidade de contar histórias a todos, muitas vezes repetidas, mas originalmente regadas com seu humor. Nos encontros e churrascos fazia sua melhor performance, nos palcos que dividiu com os colegas do Banco, amigos de esquina e, especialmente, a família. Mais do que tudo, teve oportunidade de viver e sentir-se em família, que abraçou com um amor confinado, mas imensamente forte por seus filhos e esposa. Quem pertenceu a esta cena e atravessou a sua vida, colheu a beleza, força e integridade que marcaram o destino de uma grande pessoa. De onde estiver, talvez no céu que admirou junto com as pipas e os aviões durante a infância, vai passar, agora, a nos observar, legando grandes e memoráveis sentimentos a todos que partilharam de sua motivação pela vida. Antonio nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e faleceu em Niterói (RJ), aos 64 anos, vítima do novo coronavírus. Jornalista desta história Michel Misse Filho, em entrevista feita com irmão Paulo Tavares, em 19 de maio de 2020. Bernadete de Souza Araújo (1920 - 2020) Que amorosa e especial foi Tia Bebé. Em sua tenra infância, na cidade de Pão de Açúcar, interior alagoano, Bernadete carregou os irmãos no colo para, junto da mãe, fugir do sanguinário Lampião. “Tia Bebé não constituiu família, mas dedicou sua vida à família”, lembra o sobrinho Alex. Trabalhou até os 78 anos. “Tudo que nossos pais não podiam nos proporcionar, ela generosamente nos dava, das roupas de aniversário até o custo de nossos estudos em colégio particular”, diz ele que deve a formação à Tia Bebé. Incapaz de reclamar, Bebé vivia sorrindo e jorrando amor. Bernadete nasceu em Pão de Açúcar (AL) e faleceu em Niterói (RJ), aos 100 anos, vítima do novo coronavírus. História revisada por Ticiana Werneck, a partir do testemunho enviado por sobrinho Alex Fabrício Araújo, em 3 de maio de 2020. Carmen do Rego Barros de Vasconcellos Dias (1937 - 2020) Com carinho, alegria e amor, sempre pedia um beijo. "Prefiro acreditar, mãe querida, que papai veio te buscar porque não conseguiu ficar sem você. Ele te amava muito! Mas como não te amar, mãe?", disse sua filha Beatriz. Como não amar… Seu sorriso lindo e contagiante? Sua constante alegria? Sua generosidade? Seu olhar de orgulho, alegria e amor? Seu eterno carinho e aquele seu pedido de sempre: "Me dá um beijo?" Uma mãe que, mesmo eu já beirando os 60 anos, me olhava e dizia: "Minha filhinha querida". Como não amar... Uma mãe e avó que nunca mediu esforços para ter a família reunida? A avó que esperava as férias com o coração repleto de alegria pela chegada dos seis netos, preparando as delícias de que eles tanto gostavam, como craveiro e torta de limão? Sua casa, que nunca foi só sua, mas também nossa? Lá sempre teve lugar para todo mundo. Seus telefonemas diários, geralmente à noite, para perguntar se estávamos bem e como tinha sido o nosso dia? Como não amar... O Natal com a árvore cheia de enfeites, a maioria feitos por você, para nos esperar? Aquela mesa na cozinha onde as festas terminavam? Suas perguntas que, de tão indiscretas, se tornaram um folclore familiar? "Mãe, só temos uma maneira de fazer jus à sua memória: continuar amando como você nos amou e mantendo nossa família unida pra perpetuar a sua alegria entre nós. Bom saber que Fábio e Marcos hoje estão com você. Obrigada, mãe, por cada dia a seu lado. Te amo pra sempre!" Carmen nasceu e faleceu em Niterói (RJ), aos 83 anos, vítima do novo coronavírus. História revisada por Danylo Martins, a partir do testemunho enviado por filha Beatriz Rego Barros de Vasconcellos Dias, em 19 de maio de 2020. Clarinda Maria da Conceição (1946 - 2020) Tinha um sorriso largo e contagiante. Teve cinco filhos, mas foi mãe de muitos outros. Casou-se aos 18 anos, virgem, de véu e grinalda, como gostava de frisar (risos). Teve cinco filhos. Separou-se aos 27 anos - um horror para a época. Mulher negra, de pouco estudo, mas que lutou uma vida inteira pra criar seus filhos com dignidade. Sem lamentar. Ela sambava na cara de cada adversidade. Sorria um sorriso largo. Largo o bastante pra contagiar de alegria todos que se aproximassem. Ela chamava de "meu filho" o catador de lixo, o carteiro, o entregador. Clarinda Maria foi uma guerreira amorosa, devota de Nossa Senhora. Mãe, avó e bisavó. Deixou órfãos não apenas os seus, mas uma legião de amigos que hoje choram sua partida. "Te amo, mãe!", disse a filha Scheila. Clarinda nasceu no Rio de janeiro (RJ) e faleceu em Niterói (RJ), aos 74 anos, vítima do novo coronavírus. História revisada por Priscilla Fernandes, a partir do testemunho enviado por filha Scheila Paula Fagundes Vargas, em 10 de maio de 2020. Erasmo Gomes de Souza (1923 - 2020) "Pai , você foi um exemplo de singeleza e humildade." Veio de uma família de lavradores de Campos dos Goytacazes. Viveu um casamento de 70 anos ao lado da sua amada com muita cumplicidade, carinho e felicidade. Criou três filhas dando a elas tudo que não teve. E deu o melhor que tinha. Não frequentou escolas, mas tinha uma cultura ímpar. Suas palavras de sabedoria ficarão para sempre conosco. Você aproveitou o melhor que Deus separou para você. Te amamos pai. Vai com Deus, nosso xuxuzinho. Erasmo nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ) e faleceu em Niterói (RJ), aos 96 anos, vítima do novo coronavírus. História revisada por Flávia Campos, a partir do testemunho enviado por filha Cláudia Maria Pereira de Souza dos Santos, em 12 de maio de 2020. Firmino Guimarães (1924 - 2020) Alegria, alto astral e simpatia em pessoa. Um coração enorme que fazia todos se apaixonarem por ele. Torcedor do Flamengo, Firmino não dispensava um galeto com chopp gelado. Contador de histórias nato, não abria mão de uma conversa e boas risadas, assim como não deixava de ler o jornal todos os dias, mesmo com a idade avançada. Era alegria pura, alto astral, bondade e coração. Conquistava todo mundo com o seu jeito de ser. Um senhor muito simpático, amigo dos netos, dos filhos e de todos que conhecia por aí. Muito carinhoso, adorava elogiar e tinha uma risada contagiante. Na última conversa, por videochamada, com uma de suas filhas e a neta, Malu, disse: “não consigo decidir quem é a mais bonita”. Que coração bonito ele tinha! Firmino nasceu em Barra do Piraí (RJ) e faleceu em Niterói (RJ), aos 95 anos, vítima do novo coronavírus. Jornalista desta história Amanda Reis, em entrevista feita com neta Maria Luiza Massa, em 17 de maio de 2020. Hélio Sampaio (1936 - 2020) Roberto Carlos na música, Pelé no futebol e ele na arrumação. Uma ótima pessoa, brincalhona e adorava apelidar os amigos. Gostava de casa cheia e era um grande arrumador. Hélio nasceu e faleceu em Niterói (RJ), aos 84 anos, vítima do novo coronavírus. História revisada por Priscilla Fernandes, a partir do testemunho enviado por amigo Roberto, em 12 de maio de 2020. Irene Azevedo de Jesus (1927 - 2020) Sua risada, força e dizeres permanecerão para sempre entre os seus. Nena, assim era chamada por todos que a conheciam. Guerreira, criou sozinha seis filhos de sangue e outros tantos agregados. Deu a eles o que orgulha toda mãe: honra, honestidade e amor. Mãe, sogra, avó, bisa, tataravó... Suas risadas vão fazer falta, assim como sua resposta quando perguntávamos o que tinha pra comer... "ensopadinho de nada com pouquinha coisa", diria a Nena. "Depois de tantas vitórias na saúde, te perdemos. Mas, nunca dentro de nossos corações. Te amaremos pra sempre!", declara a nora Renata. Irene nasceu em São Gonçalo (RJ) e faleceu em Niterói (RJ), aos 93 anos, vítima do novo coronavírus. Testemunho enviado pela nora de Irene. Este tributo foi apurado por Ricardo Pinheiro, editado por Noêmia Maués, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 1 de junho de 2020. Joílson Silva de Medeiros (1953 - 2020) Um super pai. Viveu para ser pai. Amigo, companheiro, presente em todos os momentos, deu o seu melhor pela família. Formou o coração e o caráter de seus filhos. Os ensinou a ser gente do bem. Sua missão foi cumprida. Joílson nasceu e faleceu Niterói (RJ), aos 67 anos, vítima do novo coronavírus. História revisada por Rayane Urani, a partir do testemunho enviado por filha Cintia, em 3 de maio de 2020. José Antunes de Carvalho (1931 - 2020) Foi uma fonte inesgotável de água com sabor de amor de pai. Advogado, casado, pai de 6, avô de 6 também. Amava o trabalho e os livros. Enquanto durou sua lucidez (fazia anos que sofria da Doença de Alzheimer), gostava de garimpar pelos sebos no centro do Rio e de se debruçar sobre seus processos na solidão das madrugadas. Deixa uma esposa zelosa, nossa mãe, que esteve ao seu lado até o último momento. E deixa na memória de todos lembranças das piadas sem graça que, mesmo assim, nos faziam rir pelo tanto que o divertiam, e também de seu vozeirão a ecoar pela casa canções de serestas antigas. "Em mim fica a lembrança da água que me levava à cama de madrugada, para acalmar o meus medos dos pesadelos e aplacar a sede do menino que fui. Aquela água tinha sabor de barro do filtro e de amor de pai." diz o filho André Luis, que complementa: "Gratidão, meu pai. Que bons deuses e bons espíritos acolham sua alma em sua passagem e na sua jornada renovada." José nasceu em Mercês (MG) e faleceu em Niterói (RJ), aos 89 anos, vítima do novo coronavírus. História revisada por Irion Martins, a partir do testemunho enviado por filho André Luis de Lima Carvalho, em 9 de maio de 2020. Lourival de Melo (1950 - 2020) "Tudo bem? Vai a pé ou de trem?", brincava. Ele gostava de dar conselhos a todos, que eram sempre bem-vindos. Como era hospitaleiro! Depois do falecimento da esposa, buscava estar mais próximo ainda dos filhos. Lourival nasceu em Presidente Prudente (SP) e faleceu em Niterói (RJ), aos 70 anos, vítima do novo coronavírus. História revisada por Ticiana Werneck, a partir do testemunho enviado por filha Raquel Melo, em 12 de maio de 2020. Maria da Conceição Silva Jorge Mussi (1923 - 2020) Uma mulher à frente do seu tempo e sempre pensando na Educação. Mãe, avó e professora. Morou por anos em Niterói (RJ), mas sempre esteve com o coração em Trajano de Morais (RJ), onde foi diretora e professora do Colégio que leva o mesmo nome. Muito amada pela família e amigos, especialmente os trajanenses. Foi ao encontro de João Jorge Mussi, seu grande amor. Maria nasceu em Trajano de Morais (RJ) e faleceu em Niterói (RJ), aos 96 anos, vítima do novo coronavírus. Jornalista desta história: Flávia Gebran, em entrevista feita com neto Henrique Mussi, em 18 de maio de 2020. Maria das Graças Araújo Pinheiro (1955 - 2020) Nas horas difíceis trazia uma palavra de ânimo. Sempre dedicada à família e ao trabalho, criou seus filhos dando esse lindo exemplo de entrega. "Pare de bobeira, simbora beber!" era a forma dela de convidar os amigos e familiares a buscar o lado leve da vida. Não deu tempo de dizer "Adeus", mas certamente o amor de seus filhos, netos e familiares transformará a eterna saudade em lembranças maravilhosas da sua missão muito bem cumprida. Onde quer que esteja sabemos que estará orando por nós. Maria nasceu no Rio de Janeiro e faleceu em Niterói (RJ), aos 65 anos, vítima do novo coronavírus. História revisada por Denise Pereira, a partir do testemunho enviado por filha de consideração Ana Paula, em 23 de maio de 2020. Maria Ignez Marques Procópio (1948 - 2020) Tinha um imenso amor pela sua profissão e enfrentou heroicamente a pandemia, sem perder a ternura. 1º de Maio, Dia do Trabalhador. Uma data marcada como dia de luta por condições adequadas de trabalho, salários dignos e pela construção de um mundo mais justo e igualitário. Essa poderia ser a resposta dada por Maria Ignez Marques Procópio, Auxiliar de Enfermagem do Hospital Universitário Antonio Pedro, da Universidade Federal Fluminense (HUAP – UFF). Só não é uma resposta dela, que também já foi delegada da Delegacia de Base e também coordenadora do Sindicato dos Servidores Técnico-administrativos da Universidade (SINTUFF), porque, justamente no dia 1º de Maio de 2020, travou sua última e mais dramática luta e, infelizmente, a COVID-19 foi mais forte. Aos 72 anos de idade, Ignez atuou na linha de frente do combate ao Coronavírus, mesmo integrando (pela questão da idade) o chamado grupo de risco. A universidade, em página oficial de uma rede social, mencionou que ela estava aposentada e voltou, como voluntária, para contribuir no enfrentamento à crise sanitária mundial. Em nota de pesar, no site oficial da UFF, isso não é mencionado, apenas que ela foi servidora por 40 anos. Alguns amigos dizem que ela não deu entrada na aposentadoria, pois só sairia da universidade mediante aposentadoria compulsória. Outros amigos afirmam que ela deu entrada no processo e esperava pela aposentadoria. Contudo, é evidente que a universidade e a direção do hospital permitiram que a servidora, mesmo com 72 anos e integrando grupo de risco, continuasse a exercer suas funções e, consequentemente, ficar exposta à possibilidade de contágio. No entanto, o fato é que, independente da versão mais próxima da realidade (acerca do andamento de sua aposentadoria), Ignez era dessas. Dessas que tomam lugar na linha de frente encaram com coragem o que quer que seja. E assim foi, com coragem lutou até o fim. “(…) era funcionária antiga, tinha entrado com pedido de aposentadoria (…) Um dia desses, eu e Sandra (outra amiga) íamos pelo corredor central do HUAP e encontramos com Ignez, a mesma de sempre, ocupada com seus afazeres, parou para conversarmos sobre a falta e má qualidade dos EPIs, da diminuição da nossa insalubridade retirada pelo Reitor obediente ao governo Bolsonaro”, comentou Izabel Firmino, também servidora do HUAP. Maria Ignez, conta Izabel, era querida por todos e que foi um grande baque para os colegas, pois achavam que ela iria se recuperar. A servidora deu entrada no CTI no mesmo dia (28/04) em que Sílvio Ribeiro dos Santos, outro trabalhador do setor de enfermagem do HUAP, sob aplausos emocionados dos colegas, tinha alta da internação, necessária por conta das complicações proporcionadas pelo Coronavírus. No CTI, a auxiliar de enfermagem não podia receber visitas, nem dos amigos do hospital. Porém seu quadro era estável, o que justificava as esperanças iniciais, mas em questão de dias se agravou. No dia 30/04 todos no hospital já estavam de sobreaviso, uma vez que a situação de Ignez era muito grave. Ela faleceu na madrugada do Dia do Trabalhador, junto com outra funcionária da enfermagem, Luciana Roberto de Souza, ligada a EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, responsável pela atual gestão do HUAP). Luciana também tinha dado entrada no CTI a poucos dias e não resistiu à Covid-19. Lembrando com carinho, Izabel Firmino acrescenta que Ignez era uma “mãe e avó amorosa, preocupada com as filhas e netos”. Elas tinham uma relação de amizade e companheirismo nas lutas em torno da busca por uma saúde pública, gratuita e de qualidade. “Ela conheceu meu filho bem pequeno, eu fiz pré-natal e ganhei Pedro no Antonio Pedro (Hospital Universitário), militava com filho pequeno, ela sempre perguntava : ‘como tá meu neto? Manda um beijo pro meu neto’. Era assim, bem-humorada, carinhosa, excelente funcionária, cuidadosa com os pacientes, companheira de trabalho e luta”, concluiu Izabel. Jornalista desta história Alexandro Chagas Florentino, em entrevista com colega de trabalho Izabel Cristina Firmino, em 3 de maio de 2020. “Foi com profundo pesar que a Reitoria da UFF teve ciência do falecimento de Maria Ignez Marques Procópio, na madrugada desta sexta-feira, 1/5. Auxiliar de enfermagem do Hospital Universitário Antonio Pedro (HUAP), Maria Ignez tinha 72 anos de idade e trabalhava há 40 anos na Universidade. Durante todos esses anos, Maria Ignez tocou a vida de todos que trabalharam com ela e também dos pacientes que tiveram os seus cuidados. Maria Ignez tinha um imenso amor pela sua profissão e enfrentou heroicamente a pandemia sem perder a ternura, o comprometimento e o seu entusiasmo. Todo este empenho torna a sua missão no serviço público digna de profunda admiração por todos nós. Maria Ignez faleceu no dia 1º de maio, Dia do Trabalhador, e será lembrada sempre como uma pessoa que representa uma classe de trabalhadores que não se intimida frente às adversidades da vida e que se doa sem medir esforços. A Universidade Federal Fluminense presta sinceras condolências à família e aos amigos.” Maria nasceu em São Gonçalo (RJ) e faleceu em Niterói (RJ), aos 72 anos, vítima do novo coronavírus. Jornalista desta história Cintia Honorato de Santana, em 3 de maio de 2020. Nathan de Carvalho Moraes Rego (1941 - 2020) Sempre fez de tudo por sua família e deixou sua marca espalhando amor pelo seu caminho. Um homem muito bondoso, que disseminou amor por onde quer que tenha passado. Inteligentíssimo e protagonista de muito boas histórias, criou uma família linda. Família que hoje, apesar da saudade, sabe que ele será eterno dentro de cada coração. Nathan nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e faleceu em Niterói (RJ), aos 78 anos, vítima do novo coronavírus. Testemunho enviado pelo neto de Nathan. Este tributo foi apurado por Ricardo Pinheiro, editado por Andressa Cunha, revisado por Monelise Vilela e moderado por Rayane Urani em 28 de maio de 2020. Paulo Sérgio Souza (1948 - 2020) Era um grande amigo de fé, irmão e camarada! Um boêmio alegre e iluminado, que amava estar rodeado de amigos ouvindo Roberto Carlos. Será para sempre nosso grande amigo de fé, irmão e camarada! Paulo nasceu em Niterói (RJ) e faleceu em Niterói (RJ), aos 72 anos, vítima do novo coronavírus. História revisada por Daniela Buono, a partir do testemunho enviado por filha do coração de Luciana, em 10 de maio de 2020. Vany Azevedo Vasconcelos (1944 - 2020) Os amigos torciam para os finais de semana chegarem logo e lá se ia mais um fim de semana jogando buraco. Vany era uma mulher guerreira, amiga, alegre, independente e descolada. Tinha muitas qualidades. Foi uma costureira talentosa, de mão cheia. Foi madrinha de casamento da amiga Liane e dessa amizade se entrelaçaram as famílias. "Aceitou com muito entusiasmo ser minha madrinha de casamento. Fazia bolos como ninguém. Lembro de um aniversário do meu marido... ela tinha uma consulta odontológica com ele. Na clínica, ela era a paciente 01 porque foi a primeira cadastrada e atendida assim que inauguramos a empresa, em 1995. Uma grande honra! Nesse dia (do aniversário) levou um bolo de surpresa, um mimo gracioso. Encheu o ambiente de alegria e logo preencheu todos os espaços com seu carinho.", lembra a amiga Liane. Vany tinha um enorme talento no jogo de buraco, daquelas que joga com o olhar. As tardes de sábado e os domingos passavam num piscar de olhos. Sem ela, os jogos de buraco nunca mais serão os mesmos. Ela deixou a saudade nos corações e um vazio na vida dos que o amavam. Vany nasceu em São Gonçalo (RJ) e faleceu em Niterói (RJ), aos 76 anos, vítima do novo coronavírus. História revisada por Júlio Casimiro, a partir do testemunho enviado por amiga Liane Werner Sathler Zuniga, em 23 de maio de 2020.

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