Icaraí bate recorde de casos de Covid e mortes em Niterói

Concentração, idosos e desrespeito ao isolamento explicam contaminação Por Carolina Ribeiro Movimento na rua Moreira César. Foto: Gustavo Sthephan Bairro da Zona Sul de Niterói e o mais populoso da cidade, com 140 mil moradores, Icaraí é o recordista em número de casos confirmados e de óbitos pelo coronavírus no município desde o início da pandemia, em março. Os últimos dados por bairros divulgados pelo Sistema de Geoinformações da prefeitura (Sigeo) é de 12 de maio. Até aquele dia, Icaraí tinha 229 casos confirmados de pessoas com Covid-19, ou 33,2% do total do município (985). O bairro tinha tido 14 mortes, ou 23,3% do total. Por que Icaraí? Para especialistas, a razão estaria relacionada ao perfil dos moradores, com poder aquisitivo mais alto e idade mais avançada. Os primeiros casos de internações por Covid na cidade foram de pessoas que tinham viajado de férias para lugares onde a incidência de contaminação já era alta, como a Europa e os Estados Unidos, em janeiro e fevereiro. Aluísio Gomes da Silva Junior, diretor do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que Icaraí enfrenta três fatores que agravam o número de casos: maior concentração de pessoas no bairro, de moradores com poder aquisitivo elevado e de idosos. - Niterói é a cidade com a maior proporção de idosos do Estado do Rio e com uma das maiores proporções do Brasil. De forma geral, o número de casos tem crescido, mas continua o predomínio em Icaraí. É preciso observar se a população do bairro tem sido zelosa em manter o isolamento - diz ele. Não tem. Ou pelo menos nem todos têm. É comum ver filas enormes na porta de agências bancárias nas ruas Moreira César e Gavião Peixoto. Muitas dessas pessoas são idosas, e não há uma organização maior quanto às recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) para se manter distância mínima de 1,5 metro umas das outras. Apesar das proibições impostas pela prefeitura, também era comum ver diariamente, mesmo antes da flexibilização para atividades físicas individuais a partir da última quinta-feira (21), pessoas caminhando pela praia de Icaraí, de manhã e à tarde. Até casais com carrinhos de bebê costumavam ser vistos. O movimento nos bancos é uma preocupação O prefeito Rodrigo Neves também sempre repete, nas suas lives nas redes sociais, que Icaraí é o bairro que tem mais idosos no município: cerca de 30% dos moradores têm mais de 60 anos, segundo ele. Morador do bairro, o fotógrafo Lucas Benevides conta que há menos pessoas na rua do que antes da pandemia, mas para ele o isolamento parece estar longe do ideal, com intensa movimentação, principalmente nos polos comerciais da Moreira César e Gavião Peixoto. - Acredito que optem por ir ao banco ou fazer compras na parte da manhã, mas o que parece é que todos escolhem o mesmo horário para sair. Quando preciso, saio à noite e não encontro movimentação. De tarde, a orla também fica mais cheia, além de ver muitos idosos pela rua… - diz. Darly Bodstein, presidente da Associação de Moradores e Amigos de Icaraí (Amai), admite que ainda há muito mais gente pelas ruas do que o que seria necessário. Reforça que está em contato com a Secretaria Municipal de Saúde e transmite as orientações aos moradores. As autoridades, segundo ele, reconhecem que as medidas de proteção ainda não são seguidas por grande parte da população. - Uma grande parte dos moradores não tem levado a gravidade do vírus em consideração. A Amai distribuiu 1.200 máscaras pelos condomínios do bairro e divulgamos em nossas mídias todas as recomendações de cuidados. Ainda vemos na rua muita gente e sem proteção - lamenta. Enquanto o bairro da Zona Sul se mantém recordista em número de casos, a dura realidade da Covid-19 também é vista do outro lado da cidade, no Fonseca, Zona Norte do município. Lá, a quantidade de doentes não para de aumentar. Até o último dia 12 de maio, eram 101 casos confirmados e oito óbitos. Com um perfil de moradores diferente do de Icaraí, a proliferação do vírus no bairro ocorre devido à concentração de pessoas. - Fonseca é o segundo bairro em população. Depois da epidemia instalada na cidade, o recorte não é mais de pessoas que chegaram de viagem. Qualquer um pode ter a doença. Agora vai depender se o isolamento social será cumprido de fato ou não - diz Aluísio Gomes da Silva Junior. De acordo com o especialista, apesar de a curva de crescimento de casos confirmados estar “descontrolada” no Estado do Rio, em Niterói há sinais de um achatamento dela, a partir das medidas de isolamento adotadas. - Niterói está se mantendo em um patamar mais baixo se comparado a outros municípios como o Rio de Janeiro e São Gonçalo. Isso aponta que as medidas do isolamento social têm salvado vidas.

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