Impactos da pandemia na educação vão muito além das salas de aula fechadas, diz especialista

Psiquiatra mestre em Educação acredita que Covid expõe “o buraco” do ensino, a falta de suporte e de assistência Por Carolina Ribeiro Salas de aulas vazias: até quando não se sabe ainda. Foto: Getty Images O debate sobre retornar ou não às aulas presenciais em meio à pandemia de Covid não pode ser apenas em torno do vírus, apontam especialistas, mas também dos reflexos da pandemia na educação de crianças e adolescentes. Além de evidenciar e potencializar a vulnerabilidade social e a desigualdade entre os alunos, o coronavírus pode agravar o chamado fracasso escolar, com a evasão de alunos e a não aprendizagem. - Certamente pode ocorrer uma evasão escolar [devido ao tempo fora da escola]. Há um sentimento de desânimo, desmotivação, a ideia de que se perdeu o fio da meada, que a escola não é importante ou que não vai conseguir acompanhar. Pode haver o que chamamos de fracasso escolar, que é um aumento da evasão e da não aprendizagem - diz o psiquiatra Jairo Werner, professor da área de Psiquiatria da Infância e Adolescência da UFF, Mestre em Educação e Doutor em Saúde Mental. A prioridade neste período, na opinião do especialista, é a preservação da saúde e da vida, para evitar que mais pessoas fiquem doentes e transmitam o vírus aos grupos de risco. Por isso, a importância de um planejamento competente de retorno, com discussões entre responsáveis e a escola, levando em consideração os diferentes contextos de classe social e infraestrutura da comunidade. Mas não se pode esquecer as outras consequências. A pandemia trouxe um benefício: aproximou os pais e os filhos, possibilitando um conhecimento mútuo devido ao maior convívio e a uma melhor percepção das características dos filhos. Mas, por outro lado, o tempo em casa também intensifica a vulnerabilidade social, passando pela precarização e pela desigualdade da educação aos casos mais sérios, os familiares e emocionais. Enquanto a maioria dos alunos da rede privada tem aula on-line e em tempo real desde o início da pandemia, a maioria dos estudantes da rede pública não tem acesso ao ensino remoto, além de muitas vezes não possuir computadores, celulares ou mesmo internet em casa. - Sem um preparo [dos professores e alunos] para o ensino remoto, a educação passa a ser prejudicada. Está ocasionando um problema sério de concentração, aprendizado, ritmo, interesse e motivação em aprender. A educação remota, simplesmente para tapar buraco, sem os recursos necessários e o preparo dos professores é um prejuízo - sentenciou o psiquiatra. Os casos mais graves de vulnerabilidade neste período incluem as questões emocionais como as brigas familiares, ofensas psicológicas e sexuais, entre outros, que podem se intensificar devido à restrição de circulação. O período na escola servia como um neutralizador de certas pressões psicológicas, aponta o especialista. Além disso, há também a necessidade dos pais saírem para trabalhar e, sem infraestrutura e condição de manter os filhos em casa - principalmente pela falta de aulas no caso das classes mais populares -, há muitas crianças e adolescentes que passam o dia na rua brincando e se distraindo. - É um fator que exige um posicionamento acadêmico, não só sobre a merenda, mas sobre como dar conta dessa realidade, que é muito diferente da das crianças de classe média - afirma. O tema é complexo. Está sendo estudado também por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para evidenciar as situações de vulnerabilidade em que crianças e adolescentes estão sujeitos fora do ambiente escolar. A pneumologista Patrícia Canto Ribeiro, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, reforça a questão da acentuação da desigualdade de ensino e situações como violência doméstica, uso de drogas, insegurança alimentar, entre outros. - São situações que, com certeza, aumentaram a vulnerabilidade das crianças na pandemia. A escola, por exemplo, era fonte de alimentação balanceada para muitos alunos. Seria importante que os governos tivessem também medidas de proteção a essas crianças para que o fato de elas estarem em casa não as transforme em vítimas de outros problemas maiores do que a Covid - analisa a pneumologista. E o futuro? O fracasso escolar não é algo novo, causado pela pandemia. Ocorre há anos, principalmente na rede pública. Uma pesquisa do IBGE divulgada em julho deste ano traz dados atualizados, com base em 2019. Das 50 milhões de pessoas com idades entre 14 e 29 anos, dez milhões, ou seja, 20%, não tinham terminado alguma das etapas da educação básica. A grande maioria de pretos e pardos. Entre os motivos, a necessidade de trabalhar e a falta de interesse, mas também gravidez e tarefas domésticas para mulheres. O psiquiatra Jairo Werner explica que, mesmo em um processo longo de aprendizagem - são pelo menos 12 anos na escola -, muitos jovens terminam a Educação Básica sem aprender de fato. Mas muitos também abandonam antes de concluir o ciclo por não verem razão em estudar, já que não entendem o conteúdo ou por acharem que não vão entrar na universidade. A pandemia está intensificando esse sentimento. - A pessoa acha que não é capaz, ocorre uma culpabilização da vítima. O fracasso escolar deve piorar com a pandemia, talvez por repetência, mas sem dúvida pela falta de conteúdo, de aprendizagem e uma desistência de continuar estudando. E não só na escola pública. Muitos alunos, também da rede privada, estão dizendo que o ano já acabou, que não querem mais estudar - completa. Mas como resolver? Como devolver o interesse em estudar? - [A questão] esbarra num problema que já é estrutural. O ensino está precário em todas as classes - expõe o psiquiatra, que também é Mestre em Educação. Ele acredita que a pandemia pode trazer renovações. - Acredito que, talvez, a pandemia mostre o buraco da educação, a falta de suporte. Do ponto de visto das escolas públicas, principalmente, vão precisar mudar o nível de assistência, o acesso à própria internet, fazer um processo de educação híbrida. Além do suporte nas escolas, chegar até as casas, dar uma atenção mais individualizada, monitorando os alunos - analisa. Medicalização e culpabilização do aluno O psiquiatra e professor da UFF Jairo Werner complementa ainda que a desmotivação dos alunos é, muitas vezes, medicada sem necessidade. Ele conta que as escolas encaminham os jovem para médicos, culpam a família e o aluno pela falta de aprendizagem, quando o problema pode estar no ensino. E não necessariamente a culpa é do professor. - As escolas não dão conta dos alunos e recomendam que as famílias procurem psicólogos e psiquiatras, medicalizam as crianças contra desmotivação. Muitas acham que têm déficits, também é um outro problema do fracasso escolar - finaliza.

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