Jogando conversa fora

Moradores se reúnem mesmo com restrições a aglomerações Por Sergio Torres A triste liderança de Icaraí entre os bairros de Niterói mais atingidos pela pandemia não se deve apenas ao fato de seus moradores, mais abastados, terem se contaminado em viagem ao exterior ou em contato com parentes e amigos de volta dos países afetados na Europa e nos Estados Unidos. Alguma influência isso teve. É um raciocínio coerente na análise de uma primeira etapa no ciclo de expansão da doença. Mas, passados mais de três meses do início dos registros médicos, o descaso da população com as regras de distanciamento social é sem dúvida um fator preponderante para Icaraí estar à frente no macabro ranking. Talvez nos primeiros dez dias do isolamento recomendado pelas autoridades sanitárias tenha ainda havido algum respeito às orientações para que ficássemos todos em casa, indo às ruas apenas aqueles que prestam serviços essenciais. E durante o período de lockdown. Mas antes disso a coisa afrouxou de tal maneira que passou a ser comum no bairro a aglomeração dentro de agências bancárias nas ruas Moreira César e Gavião Peixoto, as mais importantes do comércio em Icaraí. Além dos supermercados, onde, a qualquer hora, encontra-se muita gente circulando por corredores lotados. A que se deve esse comportamento? A um sentimento de que não é comigo? A uma discordância dos métodos empregados pelos governantes do estado e do município? A uma irresponsabilidade coletiva? Virou bagunça? Não sei explicar. Mas lamento que gente instruída, como aqueles senhores de cabeça branca que todas as tardes batem ponto na esquina de Moreira César com Otávio Carneiro se comportem de tal maneira. Continuam ali todos os dias, jogando conversa fora, como se o amanhã estivesse garantido. Não está. Nem para eles nem para ninguém. Antes da pandemia, ali era o local de confraternização diária do grupo de aposentados. Maravilha, isso não tem nada demais. Mas continuam se reunindo, discutindo, rindo, conversando na calçada da esquina, como se nada estivesse acontecendo no mundo, no Brasil, no estado, na cidade e no bairro que habitam. Pelo menos, agora, estão de máscara na cara. Mas nem com o lockdown se convenceram a ficar em casa. Nem mesmo a instalação de barreiras e faixas ao longo da Praia de Icaraí, uma das primeiras medidas tomadas pela prefeitura, diminuiu a disposição dos esportistas de calçadão. As faixas até sumiram. Os “atletas”, não. Continuaram a praticar ao ar livre suas corridas, caminhadas e exercícios, mesmo antes da liberação de atividades físicas individuais, na última quinta-feira. O fato é que pelo menos no bairro, onde moro desde que nasci há muito tempo, a adesão às medidas restritivas de circulação foi bem menor do que era desejado pelos mais preocupados com a evolução da pandemia. Esse comportamento não poderia mesmo acabar bem. Não há desculpa para o desrespeito dos moradores de Icaraí aos cuidados exigidos no combate a uma moléstia sem remédio e sem vacina. Sergio Torres é jornalista, morador de Icaraí há 57 anos e pode ser visto caminhando na praia nos horários liberados.

© 2020. A Seguir Niterói. Todos os direitos reservados. Site por Grazy Eckert e João Marcos Latgé.