Médico de Niterói, que foi prefeito, passou por guerra e gripe asiática diz que Covid é uma tragédia

Waldenir Bragança, 89 anos, relembra a história da saúde pública na cidade e alerta para o risco da tristeza em idosos na quarentena Por Silvia Fonseca Waldenir de Bragança, médico e ex-prefeito de Niterói Era um menino de 12 anos quando veio de Araruama, em agosto de 1943, para Niterói. Vai completar 89 anos em julho, e nunca mais saiu da cidade. Das transformações desde o pós-guerra, do enfrentamento à primeira epidemia de dengue ao lockdown contra a Covid-19, Waldenir de Bragança esteve sempre por aqui. Médico, advogado, professor, deputado estadual, prefeito de 1983 a 1988, presidente da Academia Fluminense de Letras, da Universidade Aberta da Terceira Idade... Já era médico na gripe asiática da década de 1950 e viu famílias inteiras morrerem, socorreu crianças e pais queimados no incêndio do circo em 1961, mas chora ao falar da tristeza dos idosos na pandemia de Covid-19. A história de Waldenir se cruza com a da cidade dos anos 1940 para cá, e é ele quem conta ao A Seguir: Niterói: O Colégio Brasil, no Fonseca, onde Waldenir estudou ao chegar a Niterói - Vim de Araruama para iniciar o ginásio. Fui para o Colégio Brasil, no Fonseca, que era um importante colégio do Estado do Rio, não só de Niterói. Minhas três irmãs já estavam internas no Colégio Nossa Senhora das Mercês. Elas ficavam no internato, mas não havia para homens. E nós alugamos uma casa próxima do Colégio Brasil, na Alameda São Boaventura. Ali estudaram o professor Horário Pacheco, Alberto Torres, Roberto Carlos, o cantor... Ali fiz o científico para fazer vestibular para a Faculdade de Medicina – conta. A Alameda São Boaventura nos anos 40, onde morou A Alameda São Boa Ventura só tinha uma pista asfaltada quando o menino Waldenir chegou. A outra pista era para o bonde. - O Fonseca à época era um bairro com casarões, casas com jardins, mansões bonitas. A alameda era arborizada e por ela passava um rio. Aquele valão é o Rio da Vicência, que vem lá da Caixa D’Água e percorre o bairro até sair do lado onde tem o porto de Niterói – conta Waldenir, que morou no Fonseca a maior parte do tempo. Só saiu de lá em 2007, pressionado pelos filhos, para morar em São Francisco. - Tive de vender a casa onde morei 47 anos para poder juntar dinheiro e comprar aqui em São Francisco. Dei entrada e fui pagando todo mês – lembra. Saiu do Colégio Brasil, passou no vestibular e concluiu o curso de medicina em 1956. Naquela época já mostrava liderança, perfil que o levou a deputado e prefeito de Niterói. Foi presidente do Diretório Acadêmico Barros Terra e integrou a União Fluminense dos Estudantes, entidade representativa de alunos de várias faculdades do Estado do Rio. Depois foi presidente da Associação dos ex-Alunos da Faculdade de Medicina da UFF. Para falar da UFF (Universidade Federal Fluminense) é preciso contar a história e a participação de Waldenir Bragança desde o começo. - Começamos a lutar para que fosse criada uma universidade. Em 1951 a Faculdade Fluminense de Medicina ainda era particular. E nós lutamos para que fosse federalizada. Minha turma, de 1956, foi a primeira turma da federalização da faculdade, tanto que se chama Turma da Federalização. Aí ajudamos a criar a universidade, depois votei no primeiro reitor, professor Durval Batista Pereira, isso em 1960. E continuei, fui ser professor. Como fizera curso de saúde pública na Escola Nacional de Saúde Pública com bons resultados, passou uns meses fora porque foi designado para fazer o primeiro levantamento das condições de saúde de Brasília. - Fui traçar o plano de estrutura de assistência à ciência hospitalar e de saúde pública. Quando cheguei, em 1961, Brasília era barro. O presidente era Jânio Quadros. Eu tinha de trocar de camisa três vezes por dia, muito barro e poeira. Remédios que deviam ser controlados eram vendidos em quitandas. Havia uma média de mil acidentes de trabalho por mês na construção da nova capital porque os operários trabalhavam à noite para ganhar mais. E aí tomavam remédio para ficarem acordados e conseguirem trabalhar à noite, mas quando chegava 4h da manhã eles caíam, sob efeito da droga. A esta altura Waldenir, que tinha se formado em 56, já era professor da universidade, criada em 18 de dezembro de 1960 com o nome de Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFERJ). E integrou o primeiro Conselho da UFERJ. Ele lembra quando a universidade mudou de nome, em 1965. - Brasília já era capital. Então o presidente Castello Branco tirou o nome de Universidade do Brasil e deu o nome de Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E a UFF, que era a Universidade Federal do Estado do Rio, virou Universidade Federal Fluminense, UFF. É desta mesma época que Waldenir gosta de lembrar de outra campanha que faz parte da história da saúde pública de Niterói: - O Hospital Municipal Antônio Pedro vivia fechando porque a prefeitura não tinha recursos para manter. Quando ocorreu o incêndio do circo, em dezembro de 1961, eu estava lá participando do socorro aos queimados. Meus filhos iriam ao circo. Não fomos porque fui chamado e levei minha família para a criação de um hospital em Araruama. Mas voltei correndo para ajudar no socorro. O médico chora ao lembrar da tragédia: - Fui, fiquei lá socorrendo crianças, adultos, famílias inteiras, e o hospital municipal estava fechado. Foi aberto para socorrer os mais de 500 queimados, uma luta terrível, cheiro de queimado, gente cega, uma luta terrível... – lembra. Como membro do Conselho Universitário da UFF, atuou para que o Antônio Pedro passasse a ser mantido pela União, pela universidade, para se tornar um centro de treinamento de estudantes de medicina, enfermagem, farmácia, etc. - Foi uma luta nossa, junto com a professora Violeta Saldanha da Gama, que era diretora da Escola de Serviço Social. Esse fato está omitido no painel de entrada do Antônio Pedro. Juntos lutamos para que não fechasse. Propus a federalização e o reitor, Dioclécio Dantas de Araújo, cearense, amigo de infância do presidente Castello Branco, reagiu. “Esse garoto está inventando um elefante branco, que come muito, vai comer toda a verba da universidade, ele não tem ideia de quanto um hospital gasta de dinheiro”, ele protestou. Preparei uma proposta para que o hospital municipal fosse transferido para a universidade. Eu e dona Violeta assinamos. Peguei assinaturas. Conseguimos 17 assinaturas. A maioria das 23 do Conselho Universitário. Foi aprovado. Também na década de 1960, com colegas da faculdade, criou um hospital no Fonseca, a Casa de Saúde Santa Rita. De 1975 a 1977 foi secretário de Saúde do município, e depois eleito deputado estadual em 1978. Ficou na Assembleia até 1982, quando se elegeu prefeito. Waldenir está há mais de cem dias em casa, sem sair. Os três filhos, todos médicos, estão trabalhando. Uma filha mora com os pais na casa de São Francisco e é aquele ritual de higienização quando chega em casa, antes de ter contato com eles. - Sou da faixa dos mais vulneráveis, passei dos 80... Na quarentena não deixou de trabalhar. Escreve, conversa ao telefone, lê. Como presidente da Academia Fluminense de Letras, faz reuniões virtuais. - Também presido a Universidade Aberta da Terceira Idade, que funciona no prédio da Faculdade de Direito há 27 anos... Então as minhas meninas e os meus meninos estão ansiosos para voltar. Isso me incomoda. Niterói tem a maior concentração de idosos do Estado do Rio, mais de 90 mil idosos. E muitos idosos estão em casa, estão tristes. Faz um alerta sobre a tristeza, especialmente entre idosos, que pode levar à depressão: - A depressão é altamente perigosa em pessoas idosas porque elas perdem o interesse pela vida e começam a desenvolver o desejo de não mais existir, e isso pode levar ao suicídio. O grande perigo (na quarentena), em especial para pessoas idosas, é que ficam sem atividade, sem relacionamento, porque o conviver ajuda a viver. O ser humano é um animal social, ele precisa interagir, sorrir, estar com outras pessoas, trocar ideias, mexer com o cérebro, e esse isolamento da pandemia tem aumentado o número de clientes com depressão, alguns não querendo mais viver. Segundo psiquiatras, tem gente que está querendo abandonar o mundo porque não tem mais motivação para viver. O médico especialista em saúde pública, geriatra, clínico, faz um diagnóstico triste da pandemia: - Há muita gente morrendo pela virose, mas muita gente também morrendo por passar fome, deprimida, sem dinheiro para se alimentar, sem dinheiro para comprar remédio. A pandemia tem sido um desastre para a vida humana e para a parte mental, a parte social também. É um desastre dentro de outro desastre: as pessoas estão isoladas, perdendo a motivação, o interesse pela vida, perdendo recursos... Ele sabe que é uma situação muito delicada para o gestor porque, “se paralisar o Brasil como um todo muita gente vai passar fome. Mas também se abre, aumenta o número de casos”. Para o ex-prefeito, a prefeitura atual de Niterói atuou “de maneira rápida e firme”, mas mesmo assim o número de casos de Covid é grande. É como a pergunta de Platão para Sócrates, o mestre, sobre o que é a política, diz Waldenir. Como fazer para que as pessoas não sofram, não tenham situação financeira terrível, percam a saúde mental e ao mesmo tempo não fiquem enfermas? Tudo muito complexo e triste, diz o médico.

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