Movimento entre Niterói, Rio e São Gonçalo é desafio no combate à Covid-19

Terminal João Goulart chegava a 500 mil viagens por dia em tempos normais. O isolamento reduziu o tráfego em 80% Por Carolina Ribeiro Terminal Rodoviário João Goulart Uma cidade dentro da outra. Eram 550 mil acessos por dia no Terminal Rodoviário João Goulart, no Centro de Niterói, antes de a pandemia do coronavírus chegar ao Estado do Rio de Janeiro. O número inclui passageiros de diferentes municípios e trabalhadores do comércio interno do terminal. Por lá passa uma multidão diária que pode ser estimada em metade da população de Niterói, que hoje é de 500 mil pessoas. A partir das medidas de redução de circulação impostas pela prefeitura, a movimentação caiu em 80%, estima a Teroni, empresa que administra o espaço. Ônibus e barcas também estão funcionando com redução da capacidade. Para prevenir o avanço da pandemia em Niterói e em todo o estado, foi reduzida em 70% a frota de ônibus municipais e intermunicipais. Desta forma, o terminal que recebe coletivos de São Gonçalo, Maricá, Itaboraí, Rio de Janeiro, além de cidades da Baixada Fluminense e da Região dos Lagos, registrou queda de 80% na movimentação diária. Diversas pesquisas já foram realizadas, mas não foi possível estipular um número preciso de visitantes de outros municípios. Sabe-se apenas que, dos 550 mil acessos diários, a maior parte do fluxo é de São Gonçalo. É justamente esta movimentação de passageiros que preocupa a gestão de Niterói, uma vez que o número de infectados por Covid-19 em outras cidades continua crescendo fortemente, e o sistema de saúde não suporta a demanda. Visando a reforçar a higiene do terminal, a Teroni informou que faz três turnos de limpeza, disponibiliza álcool em gel na entrada de todos os banheiros, assim como sabão e papel descartável para higienização das mãos na parte interna dos sanitários. Para garantir a saúde dos trabalhadores, o Sindicato dos Rodoviários de Niterói a Arraial do Cabo (Sintronac) encaminhou ofício a empresas de ônibus e prefeituras exigindo a obrigatoriedade do uso de máscaras cirúrgicas e álcool em gel para funcionários. Já o Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro (Setrerj) disse que as empresas realizam ações de prevenção contra o vírus, como a higienização dos carros nas garagens, pontos de maior fluxo e no terminal, pelo menos, a cada turno, além da distribuição de álcool em gel 70% para passageiros.. Ainda de acordo com o sindicato, as empresas estão entregando máscaras e álcool em gel 70% para os colaboradores. Em alguns ônibus, foi instalado ainda um isolamento da cabine dos motoristas para reduzir o contato com os passageiros e estão abrindo as janelas dos veículos, quando possível, para maior circulação de ar. Há ainda um campanhas com mensagens como "Lave as mãos" e "Use máscara" nos carros. — As empresas utilizam uma escala de revezamento para todos os funcionários, que foram divididos em grupos. São 359 funcionários trabalhando no consórcio Transoceânico e 340 trabalhando no TransNit por dia, não houve demissões. Apenas dois tiveram confirmação para Covid-19, um em cada Consórcio, mas já tiveram alta — informa o sindicato. O Sintronac, por suas vez, informou que registrou três óbitos em funcionários de linhas de Niterói e um outro testou positivo e passa bem. Em nota, o sindicato disse que alguns passageiros ainda teimam em entrar nos ônibus sem o equipamento. Motoristas que se recusaram a seguir viagem, já foram ameaçados de agressão. — O sindicato já distribuiu 5 mil máscaras para os rodoviários, desde o início de março, mas ainda é muito pouco. Também realizou campanhas de conscientização da categoria sobre o perigo da doença. Está na hora do poder público fazer sua parte — afirma o presidente do Sintronac, Rubens dos Santos Oliveira. Uma barreira de plástico protege trocadores de contaminação Nas barcas A partir dos decretos do Governo do Estado e da prefeitura de Niterói pelo isolamento social, ficaram autorizados a atravessar de barcas na linha Arariboia (Niterói/Rio de Janeiro) apenas trabalhadores de serviços essenciais e que apresentem comprovantes de trabalho. O controle de acesso é realizado desde o início da operação pela Polícia Militar na Praça Arariboia, em Niterói, e na Praça XV, no Rio. A CCR Barcas, concessionária que administra o transporte aquaviário, informou que estão sendo transportados apenas passageiros sentados e que há bloqueios para impedir aglomeração nos terminais e nos barcos. A empresa destacou ainda que intensificou a higienização das embarcações e de estações e que barcos com sistema de ar condicionado estão navegando com as portas abertas. Como se prevenir no transporte público Em tempos de pandemia do coronavírus, em que o inimigo é invisível, sair de casa pode ser um risco para a contaminação da população e o aumento da proliferação do vírus. Apesar de Niterói estar em isolamento social obrigatório desde meados de março e ter intensificado a restrição em maio, ainda há fluxo de pessoas nas ruas, sobretudo de profissionais dos serviços essenciais. Para quem ainda depende dos transportes coletivos, que acentuam aglomerações e riscos, o jeito é redobrar a higienização. Ônibus lotados, ambientes fechados e grande concentração de pessoas ao mesmo tempo. Rotina comum para quem costuma enfrentar deslocamentos em transportes coletivos diariamente. Mesmo neste período, em que cenários como este devem ser evitados, usuários de ônibus e barcas convivem com o mesmo problema até o momento. Para tentar evitar o contágio, a principal ação é a higienização constante. Tanto das mãos das pessoas, que podem levar o vírus ao rosto, como dos próprios veículos, que podem concentrar o vírus nos pontos de contato coletivo. Andre Ricardo Araujo da Silva, professor da faculdade de medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), ressalta que a limpeza diminui a carga viral nas superfícies, reduzindo a chance de contaminação. — A quantidade de carga viral presente no ambiente precisa ser suficiente para a pessoa ser contaminada ao tocar em uma superfície, ter contato prolongado ou em caso de ambiente fechado. Ao limpar corretamente, a superfície fica livre de vírus. Porém, se ao longo do dia não for feita novas higienizações e pessoas infectadas usarem o transporte, a carga viral será enorme — explica, completando que cada organismo reage de uma forma à carga do vírus. — Há pessoas que podem suportar a exposição e ter um quadro da doença bem leve ou até não saberem, como os assintomáticos. Mas há outras que, expostas à mesma carga de vírus, têm um quadro mais grave — acrescenta. A limpeza nos transportes públicos deve ser feita pelo menos cinco vezes ao dia. Já os passageiros devem lavar a mão com sabão antes e depois de usarem o transporte, além de, se possível, higienizar com álcool em gel durante o trajeto. É preciso evitar levar a mão ao rosto, principalmente, próximo aos olhos, boca e nariz. O contato com a máscara também não deve ser feito. — É um treino de concentração mental. Instintivamente colocamos a mão no rosto várias vezes, por isso, precisamos controlar esses impulsos antes de higienizar as mãos. Falamos muito sobre o uso da máscara, mas ela é uma barreira mecânica, simples e barata, que pode proteger de tosses e espirros. O principal meio de evitar a contaminação ainda é a higienização — finaliza. Morador de São Gonçalo, Pedro Henrique Vigneron trabalha em um hospital particular de Niterói. Ele conta que, desde o início do isolamento social, a frota dos ônibus foi reduzida e o coletivo continua lotado diariamente, uma vez que muitas empresas não param de funcionar. — Onde moro não está passando mais transporte público, preciso ir para o bairro vizinho. Tem dias que deixamos o ônibus passar, pois está lotado e não dá nem para entrar. Vejo que as pessoas tomam o cuidado de usar as máscaras e o álcool em gel particular, mas não vemos limpeza constante dos veículos — afirma. Agente de limpeza higieniza ônibus no Terminal Rodoviário João Goulart

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