Mulheres brasileiras nos EUA

“O que aconteceu? Aconteceu a Covid-19” Por Heloisa Maria Galvão A pessoa que sorri para mim na foto do whatsApp não parece nada com a voz no telefone. A foto no whatsApp é alegria pura; a voz no telefone soa desesperada. O que aconteceu? O que transformou aquele rosto sorridente em um espasmo de dor? Aconteceu a Covid-19. Até fevereiro, esse vírus era uma ameaça remota que assolava o outro lado do mundo. Havia um oceano separando quem mora nos Estados Unidos e um governo prometendo que o vírus não chegaria aqui. Eu moro em Boston, no estado de Massachusetts, onde, calcula-se, vivem quase 400 mil brasileiros. O estado dos Kennedys, dizem muitos, detém a maior comunidade brasileira nos Estados Unidos. E, no momento, é o terceiro estado em número de mortos pelo coronavírus. Mais de 6.300 mortos e 91.662 contaminados. São mulheres 52% das vítimas, contrariando estatísticas mundiais. Metade são imigrantes e negros. O coronavírus, de forma cruel e trágica, confirma o que ninguém quer admitir: a profunda desigualdade sócio-econômica e de saúde existente na nossa sociedade. Eu trabalho no Grupo Mulher Brasileira, uma organização de base, fundada há 25 anos por mulheres imigrantes brasileiras sem nenhuma intenção de fundar uma entidade sem fins lucrativos. Mas o aumento da comunidade e a perseguição aos imigrantes transformaram o GMB em um centro engajado na luta por direitos, dignidade e igualdade. O Grupo Mulher Brasileira trabalha para formar lideranças, principalmente femininas, para ocuparem seu espaço na sociedade norte-americana. Nas eleições de novembro último, elegemos quatro brasileiras vereadoras. Uma conquista histórica. Aí chegou o coronavírus. Ele contamina nossas vidas, toma nosso trabalho, infecta nosso povo, mata nossos entes queridos e nos mostra o melhor do povo brasileiro. Mesmo sem renda, passando necessidade, à beira da depressão, ou para se livrar dela, brasileiras se voluntariam para fazer e doar máscaras que salvam funcionários da saúde e famílias sem nenhum poder aquisitivo. Sem carteira e quase sem dinheiro para a gasolina, dirigem para cima e para baixo levando comida, remédios, itens preciosos para quem não pode sair de casa mesmo. É uma comunidade da qual tenho orgulho de pertencer: trabalhadora, empreendedora, criativa, firma-se às custas do seu suor e de sua capacidade. Dá uma lição de altruísmo e amor ao próximo que dignifica a raça humana. Isso tem de ficar registrado porque daqui a alguns anos, vamos querer contar essas histórias para nossos netos e bisnetos. De como um povo sem documento, abandonado e perseguido pelo governo fez mais para salvar o país do que o governo que foi eleito para apoiar o povo e, criminosamente, falha. Heloisa nasceu na Ilha Grande, cresceu em Niterói, estudou no Liceu Nilo Peçanha e ingressou no jornalismo em O Fluminense. Hoje vive em Boston.

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