Mundo questiona apagão dos dados da Covid-19 no Brasil

OMS, centros de pesquisa e governos estaduais condenam tentativa de tornar invisíveis casos da doença Por Luiz Claudio Latgé Não somos invisíveis. A decisão do governo federal de sonegar informações sobre a evolução da Covid-19 no país é inédita no mundo e foi condenada por toda a comunidade científica internacional. Pela OMS, que alertou o país sobre os riscos da medida, institutos de pesquisa e secretários de Saúde de todos os estados do Brasil. Trata-se de um exercício fracassado de negar o tamanho da epidemia e priva a sociedade da melhor arma para se proteger da doença, a informação. Numa pandemia, a notificação dos casos da doença é sempre um desafio para as autoridades. O avanço é rápido demais e os mecanismos de testagem nem sempre estão disponíveis e às vezes demandam tempo para a confirmação. É o que estamos vendo no caso da Covid-19, desde os primeiros registros na China, no ano passado, em Wuhan. Os testes para o coronavírus foram desenvolvidos em plena crise e exigem reagentes que nem todos os países encontram. Desde o início, sabe-se da dificuldade e que a doença avança muito mais fortemente do que aparece nos registros oficiais. A subnotificação é enorme e, no Brasil, cientistas calculam que os casos da doença podem ser entre dez e 15 vezes maiores do que constam dos registros. Apesar de toda a dificuldade, a Organização Mundial da Saúde recomenda o aumento da testagem. Testar, testar, testar. É a única forma de mapear a doença, de enxergar como e por onde avança. A falta de informações nos deixa no escuro, sem saber como atuar. A universidade americana Johns Hopkins estabeleceu estes parâmetros exibindo um painel de informações sobre a Covid-19 no mundo, anotando dados de cada país. Os números são eloquentes: passamos de 7,081 milhões de contaminados no planeta e 405 mil mortos. O mesmo quadro, à falta de informações do Ministério da Saúde, mostra que o Brasil é o país que registra, no momento, o maior número de casos por dia. Em termos de contaminados, fica atrás apenas dos Estados Unidos, que tem 1,955 milhão, enquanto registramos 691.758 casos. Em termos de mortes, aparecemos atrás dos Estados Unidos, com 110.876 mortes, e o Reino Unido, 40.680. São 36.455 óbitos no Brasil e a perspectiva de superar os britânicos até o fim da semana. Cada país trabalha seus dados de forma pública, como orientação para os esforços de combate à doença em cada município, entendendo que o contágio se dá de forma local e as barreiras de isolamento variam de acordo com a evolução da doença em cada região. O painel informa o número de casos confirmados, pessoas internadas, óbitos. Revela ainda mais. Faixa etária de incidência da doença e, quando avançamos nas pesquisas, os bairros onde acontece. Assim, é possível verificar a capacidade da rede hospitalar, necessidades de leitos, equipamentos e pessoal. E até de locais para sepultamento, como vemos com a abertura de covas em cidades como Manaus e São Paulo. A informação não é precisa e, no caso da Covid, quase sempre defasada, porque a confirmação da doença muitas vezes só acontece depois da morte, até com uma semana de atraso. No Brasil, já tivemos uma fila de exames pendentes de mais de 3 mil casos. Ainda assim os registros não acompanham a velocidade da doença. A Fiocruz e outras instituições de pesquisa e saúde recomendam que se olhe também os registros dos cartórios. Porque eles revelam o aumento do número de mortes em relação às séries históricas, o que sugere que o impacto da doença seja bem maior do que os casos documentados. Tudo isso gera mais dificuldades no acompanhamento da evolução da doença. Muitas vezes acontece de se registrar num dia casos que, de fato, se referem a mortes passadas, à medida que os exames confirmam a doença. Uma dificuldade a mais no exame dos dados. Estamos sempre olhando o passado. Pode acontecer de uma cidade registrar 100 mortes num determinado dia, mas, destas, apenas 40 se referirem a casos novos; os outros 60 são casos passados, recém confirmados. Os epidemiologistas e estatísticos que analisam as tendências da doença conhecem todos estes problemas e levam todas as informações em conta na hora de recomendar as políticas de isolamento, até agora a única forma encontrada no mundo para o combate à doença, diante da falta de medicamentos eficazes ou vacina. Mas são as informações disponíveis o melhor guia para enfrentar a pandemia. A informação é tão crucial que municípios que não conseguem realizar os testes necessários mantêm no ar o número de casos suspeitos da doença. Em São Gonçalo, onde foram confirmados até esta segunda-feira (8) 2.103 casos e 248 mortes, a prefeitura exibe o número de suspeitos e dá a dimensão do problema: 9.729 pessoas têm algum sintoma da doença. Os números falam alto sobre a necessidade de proteção e do afastamento social. A melhor proteção para todos. A decisão de suspender a divulgação destes dados é uma ação de negação da ciência e do reconhecimento de que a informação orienta a pesquisa. E também uma forma de desrespeito com a população. Com os vivos, que perdem a melhor chance de se proteger da doença, e com os mortos, porque tentam apagar sua memória. Secretários de saúde de todo o país - e a comunidade científica mundial - reagiram contra a tentativa de tornar invisíveis as mortes pelo coronavírus. Não será negando a doença, apagando registros e inventando remédios mágicos como a cloroquina ou o Anitta, que vamos conseguir enfrentar a doença. No mundo inteiro, as comunidades se organizam para erguer memoriais pelas vítimas da doença, lembrar que são pessoas por trás dos números. Jornais do mundo inteiro, do NYT a O Globo, publicaram os nomes da vítimas para lembrar, como um registro para a história, o que estamos enfrentando e como estamos sendo afetados. Parentes. Amigos. Vizinhos. Não merecem ser tornados invisíveis. Por ignorância, estupidez ou oportunismo do governante da vez. A prefeitura de Niterói poderia aproveitar o momento para restaurar o painel da Covid-19, tirado do ar desde o dia 15 de maio e trocado por boletins de propaganda que não permitem enxergar a curva de evolução da doença, a incidência por bairros, faixa etária e outras informações, como a ocupação dos hospitais, casos em UTI… O painel SIGeo ainda reproduz o mapa do Ministério da Saúde que sonega as informações sobre a doença. A informação transparente e o convite ao debate serão sempre produtivos.

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