Niterói faz arte até na quarentena pela Covid-19

Artistas da cidade reinventam a música, o teatro e as artes plásticas Por Lea Cristina Na aula de máscaras dos cursos de teatro, o aluno é convidado a passar um tempão observando uma delas. Olhou bem? Olha de novo. E de novo. Até que, enfim, deve colocá-la no rosto. A partir daí, espera-se que ele esteja pronto para interpretar o papel que ela lhe sugeriu. Assim o ator, diretor e professor de teatro Marcos Ácher descreve um dos vários processos de composição de personagem. O mesmo usado por ele na criação de um dos roteiros dos esquetes que passou a publicar no Instagram e no Facebook (@marcosacher), por causa da quarentena. - Estava com muita saudade de atuar. Como hoje não se tem plateia, decidi bolar roteiros, encenar e postar. É uma forma de me divertir e de alegrar a quem puder - diz Ácher, que, depois de curta temporada no Theatro Municipal de Niterói, em fevereiro, com “O teatro de Cervantes”, ia participar de outras duas produções este ano. - Tudo já interrompido. As motivações são as mesmas para músicos, cantores e atores que, há algumas semanas, andam fazendo arte por Niterói - seja online ou pelas varandas e janelas da cidade. Estão em ação, por exemplo, integrantes do Coletivo Choro na Rua, como seu líder, o trompetista Silvério Pontes, e Tiago Do Bandolim, da ala mais jovem do grupo. Em pleno isolamento social, a cantora Mona Vilardo conseguiu, inclusive, monetizar suas apresentações. O Coletivo Choro na Rua (@choro_na_rua), que se apresentava mensalmente em Icaraí e na Gávea, chegou a fazer lives nos dois primeiros sábados da quarentena. Mas ficou complicado manter o suporte tecnológico que colocava no ar, ao mesmo tempo, de oito a dez dos 15 integrantes do grupo. Resultado: os músicos resolveram partir para apresentações individuais. Silvério começou dia 23 de março. Integrante da Banda do Síndico - composta pelos instrumentistas originais da antiga Vitória Régia, banda que tocou com Tim Maia por 12 anos - viu ser suspenso um show do grupo marcado para a véspera, no Rio. Pois não teve dúvidas: passou a fazer lives todo santo dia no Facebook (silverio.pontes) - são mais de 50 postagens, portanto. É o “Choro na Janela”. Cada apresentação dura de 25 a 30 minutos e é feita na sala ou na cozinha de seu apartamento, em São Francisco. - Eu precisava tocar, me apresentar, tinha que fazer alguma coisa. E como o som do trompete facilita tudo… O trompetista e compositor já tocou com vários artistas, como Elza Soares, Cidade Negra, Ed Motta, e com Luiz Melodia, com quem fez sua primeira turnê, em 1986. Com o trombonista Zé da Velha, forma uma super dupla instrumental. Já Tiago Do Bandolim não faz lives, nem apresentações em janelas. Mas a cada dois ou três dias, o músico integrante da ala jovem do Choro na Rua publica seu som no Instagram e no Facebook (@tiagodobandolim). Tempo de quarentena? Tempo para começar a colocar em prática um projeto com que sonha há muito - gravar um álbum de bandolim solo. Filho de peixe, Tiago é da escola de bandolinistas criada por Jacob do Bandolim e que, seu pai, Ronaldo Do Bandolim, ajudou a desenvolver. Nas mãos deles, o instrumento deixou de servir apenas a ritmos alegres, de velocidade, tornando-se personagem central, explorando a emoção. Hoje, na vibe de Hamilton de Holanda, Tiago segue a vertente da nova geração de músicos que apostam no bandolim solo. O novo álbum será o segundo de Tiago, que já tem um CD de choro gravado. O material vem sendo preparado há algum tempo, mas é na quarentena que ele está trabalhando a maior parte das músicas. Professor na Escola Nossa, regente do grupo de choro do “Programa Aprendiz” (que atende a 80% da rede municipal de ensino) e fazendo shows todos os fins de semana, ele não conseguia tocar a ideia adiante. Agora, é meio caminho andado, para quando o isolamento terminar. - Já que não posso entrar em estúdio agora, resolvi tomar coragem e publicar as músicas de forma caseira _ diz Tiago, um apaixonado pelo som lírico de seu instrumento. - Assim como o atabaque representa nossa ancestralidade africana, o bandolim nos traz nossa ancestralidade portuguesa. Para ouvidos enamorados A cantora Mona Vilardo, por sua vez, tinha optado apenas por soltar a voz na varanda de seu apartamento na Rua Graciliano Ramos, no Vital Brazil. A via é sem saída e dá um ótimo eco. Devidamente publicado em lives nas redes sociais, o projeto ganhou o nome de “Quem canta o vírus espanta”. Mas suas ações não pararam por aí. E Mona bolou um jeito de tornar seu trabalho rentável. Para o Dia das Mães, criou o “Eu canto para sua mãe”, vendendo mais de 60 vídeos, entre chamadas via WhatsApp (R$ 50) e os que ganham adicionais de mensagens no YouTube (R$ 80). O serviço deu tão certo que, na segunda-feira seguinte ao segundo domingo de maio, ela ainda estava gravando material contratado. A nova meta da cantora é o Dia dos Namorados, para o qual criou o projeto “Por onde for quero ser seu par”. A agenda já está aberta. Mas os preços subiram: - Eu canto, gravo, faço os posts. Não sabia que ia dar tanto trabalho. Por isso, para essa segunda data, tive que aumentar os valores. Até porque mudaram também os produtos (@monavilardo). O vídeo com mensagem foi mantido e sai agora a R$ 120. Mas, quem preferir, pode contratar uma serenata virtual de 40 minutos para sua cara-metade, por R$ 200. E ainda há a paródia personalizada, em que Mona vai contar a história do casal, embalada pela música que o cliente escolher. No caso, por R$ 300. Ideias para que te quero Fato é que, na constante ânsia de criação, atores, músicos, cantores vão se reinventando para tornar a quarentena o mais suportável artística e/ou financeiramente possível. No caso de Marcos Ácher, a ideia de publicar esquetes nas redes surgiu quando ele começou a gravar vídeos para as aulas virtuais, que envia semanalmente para sua turma de teatro do Colégio Prisma. - Achei que o material que eu mandava para a escola estava meio tosco. Resolvi, então, investir em algum cenário. No que fiz isso, me veio a vontade de atuar. E o roteiro sobre os diferentes tipos de máscaras rolou de forma quase óbvia: - Tenho sete máscaras de proteção. Por nada, em casa, olhava pra elas e pensava: que personagem usaria essa? A que comprei na farmácia, tipo bico de pato, por ser mais profissional, me fez pensar num cara sério, tenso, meio neurótico. Com a preta, imaginei um cara moderno, leve, que sai andando por aí ouvindo música. Assim foi… São dois esquetes por semana no Instagram e no Facebook. Para a criançada do Prisma, são três vídeos, correspondentes às aulas presenciais suspensas, em que, além de detalhes técnicos, Ácher oferece exercícios e brincadeiras que, de preferência, envolvam toda a família.

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