Niterói se prepara para o pior momento da epidemia

Por Luiz Cláudio Latgé Niterói se prepara para enfrentar o pior momento da epidemia do coronavírus. A análise é do grupo de gestão de crise da Prefeitura, que levou em conta projeções feitas por pesquisadores da UFF e informações da Fiocruz. A evolução da curva de contágio e o número de mortes acontecem no momento em que a série histórica de óbitos tende a ser maior – no período do inverno, quando são comuns os casos de gripe e doenças respiratórias e os registros apontam uma menor resposta imunológica da população. O reforço do isolamento é a melhor defesa da cidade para conter o avanço da doença. A análise dos dados da doença é feita pelo GET – UFF contra Covid-19. Um grupo de professores do Departamento de Matemática e Estatística da UFF e que hoje conta com o reforço de professores e alunos de outras áreas, como Medicina e Economia, e até pesquisadores de outras instituições. Os números são acompanhados diariamente, a partir dos registros do Ministério da Saúde, de secretarias de saúde, prefeituras e de instituições internacionais, como a Universidade John Hopkins, dos Estados Unidos, que mapeia a expansão da pandemia no mundo. Um dos integrantes do grupo, o professor Wilson Calmon, um mineiro que atua na UFF e mora em Niterói desde 2015, ao lado do Instituto de Matemática, explica que as medidas de isolamento ajudaram a conter o avanço da doença em Niterói e que a cidade hoje tem um índice menor de contágio e mortes do que o Rio de Janeiro, por exemplo, mesmo analisando os números proporcionalmente. Segundo ele, as medidas foram adotadas na hora certa e tiveram boa adesão da população. - O objetivo do trabalho é olhar os dados não apenas estatisticamente, mas também considerando modelos epidemiológicos. Um estudo de estatística epidemiológica, que ajude a entender o comportamento da doença e a forma como ela se propaga – explica. Segundo ele, Niterói teve a oportunidade de aprender com o que acontecia no mundo e, mais tarde, no Brasil, quando a doença chegou a São Paulo, onde foi registrado o primeiro caso, e soube se preparar para adotar as medidas adequadas. - Niterói foi a primeira cidade a apresentar um caso da doença no Estado do Rio, junto com Miguel Pereira. A primeira a registrar um óbito. Então, quando a gente olha a curva de evolução da doença, tem que considerar que ela está aqui há mais tempo. Mas, mesmo assim, a curva é mais achatada do que em outros municípios. Não houve a escalada registrada em outras cidades, como São Paulo, mesmo o Rio de Janeiro, Manaus ou Belém. Isso foi resultado da adoção do isolamento. Niterói foi a primeira cidade a adotar o isolamento, foi muito firme na decisão, não adianta deixar para fazer depois quando o contágio é explosivo. Mas isso tem duas mãos. Depende também da resposta da população ao isolamento. Não fosse isso (a adoção das medidas de isolamento), a incidência da doença aqui seria muito maior – sustenta o professor. Segundo dados da Prefeitura, o índice de isolamento chegou perto de 70%. Mas depois caiu e, hoje, está abaixo de 60%. Mesmo assim, melhor do que o que acontece em outras cidades, como São Paulo, por exemplo, que faz a medição diariamente e não tem conseguido superar a taxa de 48%. As necessidades de movimentação da população mais pobre têm sido uma dificuldade a mais. No Brasil inteiro, o pagamento do benefício de R$ 600 para as famílias tem provocado filas quilométricas diante das agências da Caixa Econômica Federal. Além disso, o discurso do presidente Bolsonaro que minimiza os efeitos da doença e pressiona pela reabertura dos negócios contribui para que mais gente saia às ruas. A análise dos dados permite projetar o avanço da doença, e foi isto que acendeu o alerta, até a recomendação da Fiocruz de ampliar o isolamento em Niterói. - Os dados precisam ser vistos no conjunto. E o que temos aqui é uma epidemia que avança para um momento de alto contágio. Este momento coincide com os meses em que historicamente ocorre um maior número de óbitos. Se você olhar a série histórica, é neste período do ano que o sistema imunológico está mais vulnerável. Então, naturalmente, já existe uma tendência de aumento de mortes. Quando isto coincide com uma epidemia desta gravidade é grande a probabilidade de que a curva dê um salto, se não se fizer nada - alerta o estatístico. O problema se torna ainda mais urgente diante da saturação da rede hospitalar, hoje totalmente dedicada ao atendimento da pandemia, com o cancelamento de procedimentos sem maior emergência. Na passagem do outono para o inverno, o número de internações e a ocupação de UTIs já aumentam, naturalmente. Isso tudo contribui para a saturação da rede hospitalar e o risco de que as pessoas não encontrem socorro. Nenhuma cidade é uma ilha O trabalho da UFF permite um acompanhamento da doença em Niterói que poucas cidades deste porte, ou mesmo maiores, encontram no Brasil. O trabalho é difícil, porque é preciso apurar os dados diariamente e acompanhar estudos que estão sendo desenvolvidos nos mais diversos centros internacionais de pesquisa. Tudo é ainda muito recente e este conhecimento ainda está em construção e obedece a particularidades. A forma de propagação da doença varia de país para país, de acordo com densidade populacional, recursos, comportamento. Países como a Coréia e a China, que tiveram sucesso no combate à doença, contaram com decisões centralizadas e alta adesão, um traço destas sociedades.  O Japão, por exemplo, conseguiu estabelecer um lockdown sem necessidade de decreto, ameaças e punições. Diferentemente do que aconteceu, por exemplo, na Itália e na Espanha. No Brasil, há dificuldades adicionais. O país tem uma enorme taxa de subnotificação, o que distorce os dados da doença. Mas é possível balizar esses números, confrontando com outras informações, como os registros de óbitos, por exemplo. A dificuldade de realização de testes no país e a demora dos resultados muitas vezes resultam em atraso na informação e atrapalham a visão do que está acontecendo no momento. Muitas vezes, os dados precisam ser corrigidos. Além disso, o avanço da doença não é regular, ele ocorre de forma diferente, de cidade para cidade. Embora exista um mapeamento por país, do ponto de vista epidemiológico, a informação de referência é local. O que acontece no Rio Grande do Sul é diferente da Amazônia. Os pesquisadores entendem que a informação mais relevante, em casos assim, é sempre a informação local. Com a ajuda do GET – UFF contra Covid a Prefeitura encontrou respaldo para tomar decisões. A mais dura delas, a ampliação do isolamento.  Um certo paradoxo, diante da informação de que a cidade conseguiu bons resultados. O professor Wilson esclarece: "Nenhuma cidade é uma ilha. Uma cidade como Niterói tem muitos pontos de contato com cidades vizinhas. Uma parcela importante da mão de obra da cidade vem de São Gonçalo. Os moradores de Niterói, por sua vez, trabalham no Rio ou na Baixada Fluminense. Milhares de pessoas se movimentam entre estas cidades. Então, você não pode deixar de olhar para o que acontece nos municípios ao lado. Você não está isolado. Por isto também é importante que as ações sejam integradas." Em alerta por muito tempo O GET – UFF contra Covid-19 faz algumas projeções da doença, acompanhando cenários que estão mudando a cada dia. Um estatístico não resistiria a fazer este exercício. Estas projeções não são divulgadas. São usadas internamente, apenas, para a tomada de decisões da prefeitura. Mas o professor Wilson não se furta a tentar responder a algumas perguntas que os brasileiros estão se fazendo: A Seguir: A curva da doença no Brasil terá um crescimento acelerado como na a Itália ou na Espanha? Será contida como no Japão? Ou será mais parecida como a dos Estados Unidos, que se assemelha mais ao Brasil, pelo tamanho do país e pela população? Wilson Calmon: Os modelos epidemiológicos se aplicam a regiões pequenas. Porque é preciso medir o contágio, e as características de cada lugar são diferentes. Mas os governos computam a ocorrência da doença em seu território, apesar destas diferenças. É difícil comparar o Brasil com países da Europa, com Itália e Espanha. São países menores, com a população de Rio e São Paulo. Os Estados Unidos se parecem mais, pelo tamanho do país. Mas há muitas diferenças, no tempo de reação, na adesão ao isolamento, aos recursos empregados. Todos estes fatores alteram a curva da doença. A melhor comparação seria entre municípios, cidades com as mesmas características. A informação importante, nestes casos, é a informação local. As recomendações estão dadas, isolamento, uso de máscaras, higienização das mãos, mas a forma como as populações respondem vai determinar o avanço ou não da doença. Tem também as questões sociais, a necessidade dos moradores saírem de casa, como estamos vendo agora, com o movimento em torno dos bancos. São detalhes que fazem a diferença. E exigem um cuidado constante, porque os mecanismos de controle podem estar funcionando e se houver um descuido eles deixam de ser efetivos. Quando a epidemia vai acabar? A história das epidemias mostra que elas não acabam de uma hora para outra. Você tem uma incidência grande, um pico de contaminação, e os casos começam a diminuir, diminui o número de mortos. Mas a doença não acaba, definitivamente. Ela volta. Mas não volta com a mesma força, porque as cidades estão mais preparadas, aprenderam a lidar com a doença, tem mais dados científicos, eventualmente os tratamentos foram aperfeiçoados, pode até se desenvolver uma vacina. Mas a doença está ali e se as pessoas se descuidarem ela pode voltar daqui a um tempo, seis meses, um ano depois. Mas este momento que estamos vivendo é o pior, se não cometermos erros. Qual está sendo o caminho mais promissor para a retomada das atividades? Os países que estão mais adiantados no enfrentamento da doença, como Coreia, China e agora Nova Zelândia estão investindo no rastreamento de contato. Você faz testes e quando identifica uma pessoa com a doença faz um rastreamento total. Você sabe nome, endereço e quem teve contato com esta pessoa e monitora todo mundo que pode ter sido contagiado. Desta forma, se reduz a possibilidade de contágio. A quarentena é uma medida para você diminuir o contato entre as pessoas e evitar o contágio. Mas quando você pensa na saída da crise, na retomada das atividades o rastreamento é a melhor forma. Você sabe onde a doença está, qual a rua, qual o prédio, conhece os vizinhos...

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