O estudo em casa em Niterói durante a Covid-19

Mães e pais, os novos “professores” a distância Por Gustavo Villela Aulas em casa, diante do computador A pandemia do novo coronavírus está provocando uma revolução na educação. E na rotina de ensino para muitas famílias. De paraquedas, mães e pais que têm filhos em colégios particulares e cursos que adotaram o ensino remoto foram forçados a mergulhar no mundo digital. Mas qual será o legado, positivo e negativo, desse novo aprendizado, tanto para os alunos e professores quanto para as relações familiares? O uso de novas tecnologias pode acentuar ainda mais as desigualdades na educação, entre escolas públicas e particulares, refletindo a péssima distribuição de renda no país e as discrepâncias no acesso à internet e a novos equipamentos? O fato é que aquilo que era acessório nas escolas antes da Covid-19 - ou até inexistente - tornou-se nova realidade em muitos colégios: as aulas ao vivo online. Sem falar na necessidade de internet rápida, aplicativos, vídeos, aulas gravadas, formulários na web para testes valendo nota, murais acessados via computadores cabeados, com câmeras e microfones, celulares, tablets, roteadores, jogos interativos em estilo “quiz”, monitoria digital… Sem qualquer treinamento mais adequado, assim como boa parte dos professores, uma geração de pais está se virando para assumir em casa um novo papel. São tutores do aprendizado de seus filhos, especialmente dos alunos do ensino fundamental (1° ao 9° ano) e até da educação infantil. O polêmico ensino não presencial no caso da educação infantil está, inclusive, sendo alvo de críticas de sindicatos de professores e educadores. Nas famílias em isolamento social as mudanças nas rotinas são marcantes. Mesmo trabalhando em regime de home office, alguns responsáveis chegam a fazer a nova tutoria de ensino em tempo integral. Com filhos matriculados em turnos diferentes (manhã e tarde), eles ficam das 7h às 18h, com o intervalo do almoço, atentos a dúvidas de conteúdos e aos comportamentos de seus pequenos e adolescentes durante as aulas ao vivo pela Internet. Filhos também já reclamam da pressão da grade de horários e da exposição a telas de computador durante horas, apesar dos intervalos. E terapeutas, em seus novos divãs virtuais, começam a registrar a escuta de jovens estressados e ansiosos com as aulas remotas, muitas vezes dispersos e sem foco no aprendizado. Como em alguns casos o quarto tornou-se sala virtual, alunos chegam a assistir a aulas deitados na cama e com fones de ouvido. Mas prevalece nos colégios e cursos a cobrança de uso de vídeo, em que as imagens dos alunos aparecem na tela do PC para os “longínquos” professores e os outros colegas de turma. E os recreios? Em vez de futebol, vôlei, piques e outras brincadeiras, conversas e atividades livres comuns nos pátios das escolas, agora muitos alunos usam os intervalos de 15 a 30 minutos para o quê? Continuam em seus computadores e entram em games. Na ausência de inspetores e auxiliares que observam os alunos nos recreios dos colégios, onde para muitos o celular era proibido, agora alguns pais passaram a ter essas funções. Na verdade, no ensino remoto, com a facilidade de acesso à tecnologia, acentua-se uma espécie de cabo de guerra entre a autonomia e a responsabilidade de crianças e adolescentes versus a sedução e a propaganda da indústria bilionária de jogos eletrônicos e de youtubers. “Filho, filha, sai do joguinho, vai pegar um sol e respirar, brincar com outra coisa longe do PC ou do celular”, dizem meio perdidos algumas mães e pais. Aliás, alunos contam que, durante as próprias aulas on-line, em paralelo, alguns estudantes abrem outras abas no computador para participar de jogos eletrônicos - longe dos olhos de professores. Com as aulas presenciais suspensas desde março, o movimento de pais para deixar os filhos nas escolas, assim como o vai e vem de vans e ônibus escolares pelas ruas da cidade, foi substituído por rotinas escolares virtuais que, às vezes, se estendem até a noite. É o caso de famílias que têm filhos matriculados em escolas de idiomas. A casa não é escola? Para aumentar o “caos” desse novo ambiente escolar, muitos lares também convivem à noite com cursos feitos pelos próprios pais, agora on-line, incluindo testes escritos e avaliações orais. O ensino remoto, que já vinha registrando crescimento nos últimos anos, veio para ficar, criar novos aprendizados nas escolas. Porém, surgem muitas dúvidas para especialistas e a comunidade escolar. Afinal, como fica a qualidade da compreensão dos novos conteúdos? As notas obtidas pelos alunos em avaliações durante a pandemia devem ser consideradas integralmente? E a construção de novas relações, vínculos afetivos, amizades, as interações? Tudo isso é essencial para a escola ajudar a formar jovens qualificados para o novo mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, com valores inclusivos, como respeito à diversidade, solidariedade e empatia. Não basta adaptar métodos, rever planos de aula e dotar os colégios de novas ferramentas tecnológicas. Gustavo Villela é jornalista, pai de Gabriel, de 13 anos, e Davi, de 8 anos, moradores de Niterói. Clique aqui para ler a entrevista da Secretária de Educação Flávia Monteira, que fala sobre o ano letivo, ajuda a famílias sem recursos de Internet e aulas de reforço.

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