Onda bolsonarista de 2018 virou marolinha nas eleições de 2020 em Niterói

Urnas da cidade mostraram enfraquecimento da onda de extrema-direita observada há dois anos Por Eduardo Heleno Niterói mostrou enfraquecimento do bolsonarismo em relação a 2018. Foto Gustavo Stephan Mesmo que a lógica das eleições municipais seja distinta das eleições presidenciais, não há como não levar em consideração o resultado das urnas em Niterói como um sintoma do enfraquecimento da onda de extrema-direita observada há dois anos. Em todo o Brasil, partidos tradicionais como o MDB, o PSDB e o DEM venceram na maior parte das capitais. Nos demais municípios brasileiros, essas legendas somam-se ao PP, ao PSD, ao PDT, e nos dão um mapa pluripartidário. O PSL, embora tenha conquistado 87 prefeituras, grande feito comparado a 2016, está muito aquém do MDB, com 766 municípios, ou do PT, com 189. Em 2020, Bolsonaro não conseguiu transferir votos para a sua base, fragmentada e sem um partido para chamar de seu. Em Niterói, o PSL, partido que Bolsonaro abandonou em 2019, teve um desempenho fraco, e o PTC, uma das legendas que abrigam bolsonaristas, não avançou; Allan Lyra e o delegado Deuler amargaram a terceira e sexta posição na disputa pela Prefeitura. Esse panorama não é muito diferente de outros municípios nos quais os apoiadores de Bolsonaro não conseguiram chegar ao segundo turno. Em São Paulo, Celso Russomano (Republicanos) não emplacou. Luiz Lima (PSL) ficou em quinto no Rio de Janeiro. Muitos eleitores que votaram em Bolsonaro há dois anos escolheram dessa vez candidatos da direita mais moderada, do centro e da esquerda. Ao olharmos a composição dos votos nas quatro zonas eleitorais de Niterói, o desempenho do candidato da situação, Axel Grael (PDT), foi avassalador. Nessas mesmas quatro zonas, há dois anos, Jair Bolsonaro havia derrotado Ciro Gomes (PDT) no primeiro turno e Fernando Haddad (PT) no segundo turno, em ambos com mais de 50% dos votos. A hegemonia do PDT no município está ligada, curiosamente, ao trabalho de dois políticos que construíram suas carreiras em outros dois partidos de esquerda e outro que veio do centro e se encaminha para a centro-esquerda. Rodrigo Neves, o atual Prefeito, começou sua carreira no Partido dos Trabalhadores; Grael militou no Partido Verde por 30 anos. A entrada de Neves no PDT foi facilitada pelo projeto de governo de Ciro Gomes, que deve ser candidato a Presidente novamente em 2022 e que defende uma frente ampla de esquerda como condição essencial para a vitória eleitoral. As eleições deste ano parecem indicar não somente uma tendência ao centro como também uma renovação da esquerda. Em Niterói, Flavio Serafini, do PSOL, embora tenha obtido menos votos que nas eleições de 2016, ficou em segundo lugar. Em São Paulo, Guilherme Boulos disputará o segundo turno. O PSOL acaba ocupando importantes espaços que eram comuns ao Partido dos Trabalhadores, cuja imagem ainda segue abalada, em algumas cidades, pelos efeitos da operação Lava-jato. Um novo engajamento dos partidos de esquerda, relacionado à participação das mulheres, à população negra e à população LGBT fez com que houvesse uma abertura à diversidade. Em Niterói, a eleição de Benny Briolly, trouxe à Câmara Municipal pela primeira vez uma vereadora travesti. Em Belo Horizonte, Duda Salabert (PDT), professora e também travesti, foi a mais votada, com 37 mil votos. Nomes já conhecidos também garantiram seu lugar entre os vereadores. Em São Paulo, Eduardo Suplicy (PT) foi o vereador mais votado, com 167 mil votos; na cidade do Rio, Tarcísio Motta (PSOL), com 86 mil votos, superou Carlos Bolsonaro (REP - 71 mil, 30% a menos que em 2016) e o estreante bolsonarista Gabriel Monteiro (PSD, 60 mil). Em Niterói, Andrigo (PDT), com 4783 votos, Professor Tulio (PSOL) com 4534 votos e Renato Carriello (PDT), com 4458 votos, foram os três mais votados. Dos 21 vereadores eleitos para a Câmara Municipal, quatro são do PDT, três do PSOL, um do PT e um do PC do B. Entre os oito vereadores que vão iniciar o seu primeiro mandato, apenas um, Douglas Gomes (PTC), é declaradamente bolsonarista. Como o Bolsonaro da década de 1990, pode se tornar isolado em sua atuação legislativa. Vários fatores podem explicar o fracasso dos bolsonaristas para o cargo de prefeito da cidade de Niterói. O primeiro deles, sem dúvida, é estrutural. Desde 1988, com Jorge Roberto da Silveira, apenas os partidos de esquerda, PDT, PT e PV venceram as eleições para a Prefeitura. As boas administrações resultaram nas reeleições de Silveira, Godofredo Pinto e Rodrigo Neves e na indicação candidatos que derrotariam a oposição, como João Sampaio e no momento Axel Grael. Neste sentido, na mente do eleitor, os acertos de cada gestão superaram os erros; a alternativa poderia indicar mais riscos que a continuidade. O segundo fator é a maneira como a Prefeitura lidou com a pandemia do novo coronavírus. Sob a gestão de Rodrigo Neves, Niterói vivenciou uma série de medidas drásticas, mas que foram apoiadas por boa parte de seus habitantes. As campanhas de conscientização e os programas sociais desenvolvidos antes e ao longo da quarentena mostraram liderança política que contrastou com a política exercida em Brasília por Bolsonaro. Em pouco tempo e com muitas ações, Niterói ganhou destaque nacional e internacional. Entre a proteção da vida nas promessas de campanha e a proteção da vida na prática cotidiana da gestão pública, o eleitorado escolheu a segunda opção. *Eduardo Heleno – Cientista Político, professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense

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