Operação de guerra no mercado

Por Giovanni Faria As portas automáticas mal se abriram às 8 horas da manhã e a fila para entrar no mercado já era grande. Mas avançava lentamente, numa espécie de procissão silenciosa. Sou o quinto e atrás de mim o grid de largada só aumenta. Está claro que o anúncio do lockdown fez muita gente pular da cama cedo para abastecer a despensa. Não foi propriamente uma correria, mas havia bem mais gente do que o habitual para uma manhã de sábado de céu azul. Bem à minha frente um homem se mostra desajeitado com a máscara, que insiste em soltar-se das orelhas e a brigar com as hastes dos velhos óculos. Antes de entrar, todos embebedam as mãos em álcool gel e não se esquecem de higienizar o carrinho. Faço o mesmo. Enfim, todos marcham ligeiros e compenetrados naquele ambiente claustrofóbico, embora gigante, em busca de suas necessidades em tempos de pandemia. Enquanto me desloco, esquivando-me daqueles que se aproximam, e vice-versa, estico os olhos sobre a máscara e espio o carrinho mais próximo. Nada de exageros, poucos supérfluos. Por curiosidade gratuita, sempre fiz isso: uma espiadinha no veículo alheio. Agora, apenas com os olhos de fora, ajo de forma ainda mais discreta e impessoal. Desde que esse novo acessório facial passou a integrar o guarda-roupa, ganhamos quase setenta por cento de incolumidade. Se usar boné, a taxa sobe para noventa por cento. À medida que o mercado vai se enchendo, e isso ocorre como uma cabeça d'água num riacho depois da tempestade, o clima de pracinha de cidade do interior, aquele vaivém modorrento, desaparece. Uns, como eu, aceleram o passo para fugir logo daquele ambiente; outros, passeiam como numa orla ao por do sol. E gente chega, e gente entra, e gente aglomera. Na esquina de uma gôndola, quase esbarro em um rapaz que caprichou nas carnes e cervejas - por certo, o dia seria de festa entre brasas e espetos. Mais à frente, vejo que um senhor de máscara quadriculada não poupou no material de limpeza, mas, claro, guiado por uma imensa lista escrita a mão numa folha de caderno. Depois, meia dúzia de passos em linha reta, a jovem senhora de olhos arregalados comprara flores e algumas, não poucas, embalagens plásticas de algo que não identifiquei inicialmente mas que me chamaram a atenção. O que seria aquilo? Curioso, dei meia volta, e, a dois metros regulamentares, percebi que eram unidades de desumificadores, produto que, o nome já diz, elimina a umidade e evita mofos, fungos e odores. Adiante, dobrei a esquina de outra gôndola, que agora estava bem mais engarrafada, e lá estavam eles em outro carrinho - os desumificadores. Passei a prestar atenção e a esticar ainda mais os olhos na fresta minúscula entre a máscara e a marquise do boné. Noutro carrinho, frutas, legumes e, claro, desumificadores. Noutro, arroz, feijão, óleo e... adivinhem? Claro, de pronto imaginei que estivessem em grande promoção de preço. Quis ver de perto, ziguezagueei daqui para ali. E só então, ao encontrá-los na prateleira, já em número reduzido, me dei conta que estava, sim, diante de um gênero de primeira necessidade em tempos de confinamento. Por instantes, hipnotizei-me a pensar nas minhas roupas, presas e intocadas, literalmente esquecidas, em armários e gavetas desde que tranquei a vida num apartamento meia centena de dias atrás. Os tais nem estavam tão baratos assim, mas, ao me dar conta da situação, peguei quatro com odor de lavanda, três de jasmim, dois neutros... Mais um aprendizado no isolamento. Pronto, basta: decidi driblar dezenas de carrinhos numa espécie de Avenida Roberto Silveira, numa segunda-feira de manhã sem pandemia, e me dirigi ao caixa. São 20, duas dezenas cravadas. Opa, só 10% delas estão abertas. Ou seja, duas. Cravadas. Vinte minutos na fila e, enfim, abre a terceira caixa - agora só faltam 17 para o nirvana, num claro gesto de uma empresa que não vislumbrou o aumento natural da demanda. Pouco adiantou mais uma caixa aberta: como sempre, alguém esqueceu de pesar a banana, o alho, o tomate... A fila, agora, se estende pela gôndola de roupa, passa por artigos de praia e campo, atravessa pilhas e pilhas de cervejas e quase chega ao setor de congelados. Um pequeno caos às 9 horas da manhã. Uns bradam, outros xingam, quase todos puxam conversa. Não raros esquecem a distância ideal e recomendada. Mas, Ave!, não havia gente sem máscara nem espirros ouvi. Já nesse clima de final de Copa do Mundo, eis que adentra ao mercado pai, mãe e duas crianças de 5 a 7 anos, provavelmente. Uma família unida na insanidade. Enfim, chegou a minha vez de pagar e sair. De novo, Ave! Ao chegar em casa, os alimentos de geladeira e freezer nem tiveram prioridade. Subitamente, corri até o guarda-roupa como quem, tresloucado e desatento, esquecera um animal preso e precisava libertá-lo o mais rapidamente possível. Complexo de culpa em grau máximo. Na pressa de compensar com odores agradáveis as sufocadas e esquecidas calças e camisas, especialmente as sociais, minha porção desastrada ainda conseguiu derrubar no chão uma grande caixa de madeira com centenas de fotos antigas, que se esparramaram pelo chão como se comemorassem o recebimento de um alvará de soltura. Mas essa é outra história, espero que não mofe! Giovanni Faria é jornalista, professor, e escolheu Niterói há 41 anos.

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