Os gráficos da Covid-19 que a Prefeitura de Niterói tirou do ar

O A Seguir: Niterói compilou os dados divulgados pela Prefeitura desde o início da pandemia para exibir os gráficos que foram apagados do Painel da Covid-19 Os gráficos foram feitos com base nos boletins da prefeitura e mostram a evolução da doença em Niterói. Um vôo cego. É como os cientistas, epidemiologistas, médicos, sanitaristas se referem à falta de indicadores confiáveis para o acompanhamento e combate à pandemia do Covid-19. A discussão surgiu depois que o Ministério da Saúde decidiu rever a forma de divulgar os dados da doença, que obedecia a um padrão internacional, desde o primeiro caso documentado no país.Mas também pode se aplicar à situação de Niterói, que, desde o dia 15 de maio, tirou do ar, como fez agora o governo federal, o painel da Covid, que aparecia na página do SIGeo, o centro de operações da prefeitura, base da gestão da crise. O painel era exibido com orgulho pela prefeitura, que investiu na construção do centro de operações para garantir informação, tecnologia e inteligência na gestão da cidade, como o projeto é apresentado no material publicitário do município. Mas, em determinado momento, diante da disparidade dos números exibidos pelo prefeito Rodrigo Neves e os dados do painel, o serviço para a população foi interrompido. Na segunda semana de maio, o A Seguir: Niterói chegou a entrar em contato com a prefeitura questionando a diferença dos números. No dia seguinte, o painel saiu do ar e a assessoria de comunicação informou que o site estava sendo revisado e voltaria atualizado. Esta semana, o site voltou a operar. Mas foi modificado. No modelo anterior, apresentava as informações relevantes para o acompanhamento da doença: a evolução dos casos confirmados, o número de pessoas internadas, os óbitos e pacientes recuperados. Os gráficos permitiam ver como a doença avançava na cidade e estabelecer comparações com outros municípios, uma vez que adotava a metodologia internacional. O novo site, não apresenta nenhuma informação relevante. Informa apenas a curva do distanciamento social, um índice feito com base no rastreamento de celulares, também adotado em São Paulo. É a única informação sobre o avanço da doença. Os outros campos do site são reservados a propaganda de ações da prefeitura e a informações básicas, como lavar as mãos e usar máscara. Em termos de dados, a prefeitura abriu mão de seus recursos para exibir o painel do ministério da Saúde, o mesmo que recebeu críticas de toda a comunidade científica do mundo, ameaça a credibilidade da pesquisa no Brasil e mereceu questionamentos da Justiça. Também há um link para o painel da Universidade Johns Hopkins, que acompanha a evolução da Covid-19 no mundo e é referência para os modelos adotados em quase todos os países. A prefeitura não explicou porque resolveu tirar do ar o painel. O A Seguir: Niterói encaminhou algumas perguntas para a assessoria de comunicação mas não obteve resposta. Aparentemente, não há razão para a descontinuidade do serviço, que servia de orientação para a população. O prefeito divulga os dados diariamente em suas lives ou em boletins oficiais. Mas não aprofunda o estudo dos números, ao não exibir o aumento de casos de um dia para outro ou a curva de evolução da doença, uma expressão gráfica do risco que a cidade enfrenta. A inclinação da curva é um sinal de alerta; quanto mais inclinada, pior. No mundo inteiro, moradores das cidades se acostumaram a olhar estes gráficos esperando o momento do achatamento da curva e o início da queda do contágio e das mortes, o sinal para o início da retomada. Não há nenhuma dificuldade técnica para a execução dos gráficos. E mesmo que existisse alguma dificuldade, a secretaria estadual de saúde produz um painel com informações relevantes sobre a doença no estado, e nele aparece a cidade de Niterói. Bastaria disponibilizar o link. Ali é possível ver como a doença se concentra na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, com mais da metade dos casos no Rio, e números expressivos em Niterói e nos municípios vizinhos, como Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo e São Gonçalo. Na tentativa de contribuir para tornar as informações transparentes, um dos propósitos da criação do A seguir: Niterói, compilamos os dados exibidos pela prefeitura diariamente. São os gráficos que exibimos a seguir. O aumento dos casos A curva é impactada pelo aumento do número de testes, a partir de maio O número de casos deve ser visto como uma referência, apenas. Não é uma informação segura, uma vez que a confirmação depende da realização de testes, e o Brasil, de modo geral, demorou a realizar testes e até o momento não dispõe de número suficiente de kits. Chegou a haver fila nos laboratórios credenciados. Muitas vezes, mesmo em casos de óbitos, a causa da morte só era confirmada dias depois. A subnotificação é notória e estima-se que o número de pessoas contaminadas no Brasil possa ser até mais de dez vezes maior do que aparece nas pesquisas. A curva revela claramente o problema. Até o início de maio, existiam apenas 400 casos confirmados da doença em Niterói. A compra de testes rápidos e a habilitação de laboratórios permitiu o aumento da testagem nos postos de saúde, em postos volantes e, mais recentemente, até no sistema drive-thru. Apenas no mês de maio foram registrados 2.500 casos. Na primeira semana de junho, outros mil novos casos. A evolução dos óbitos O pior momento da doença aconteceu depois da semana Santa A curva de mortes revela melhor o ritmo de avanço da doença. Também existe subnotificação neste caso, devido à falta de exames e ao atraso nos resultados. Instituições de pesquisa como a Fiocruz recomendam confrontar os dados com as informações sobre o aumento do caso de mortes em relação às séries históricas, tomadas mês a mês. Mas a diferença é menor do que no registro dos casos da doença. Niterói foi uma das primeiras cidades a adotar o isolamento e teve boa adesão. A curva de isolamento divulgada pela prefeitura mostra que a cidade chegou em diversos momentos a ter taxas de mais de 60% de isolamento. O momento mais dramático, até agora, aconteceu em maio, logo depois da Semana Santa. Foram 30 mortes em uma semana; 40 em dez dias. A ocupação dos leitos dos hospitais, públicos e privados, chegou perto de sua capacidade máxima, apesar do aumento de recursos, com a habilitação do Hospital Oceânico e a entrega de novos leitos no Hospital Antônio Pedro. O lockdown parecia produzir o achatamento da curva, com a redução do número de mortes diárias. Mas a doença voltou a assustar no final de maio e início de junho, com aumento do número de mortes a cada 24 horas. Foram 25 casos em uma semana. A curva do gráfico indica claramente esta intensificação.Nos últimos dias, no entanto, o número de falecimentos voltou a cair, com um ou dois registros por dia, nos últimos cinco dias. A ocupação dos leitos O registro de internações mostra que a doença ainda não está contida A outra curva importante para avaliar a situação da doença na cidade, é a que registra o número de internações. A grande maioria das pessoas contaminadas pelo coronavírus não desenvolve a forma mais grave da doença, mas apenas sintomas mais leves, que não necessitam de atendimento hospitalar. Neste sentido, o número de internações mostra o comprometimento da rede hospitalar. A taxa de internações, no momento, como se pode notar no gráfico, não permite nenhum relaxamento nas medidas de isolamento. São mais de 120 pessoas internadas em estado grave na última semana, o maior número de toda a série histórica, desde o início da doença. A prefeitura contribuiria bastante para a informação e orientação dos moradores da cidade se voltasse a exibir os mapas de avanço da Covid na cidade. Ajudaria a alertar o morador sobre os cuidados a serem tomados. Nas últimas semanas, o número de casos nos bairros da Região Oceânica praticamente triplicou. Piratininga já soma 180 casos. Itaipu, 106. Camboinhas, 30. Itacoatiara, mais 10. Tomados em conjunto, os bairros já acumulam 326 casos. Ficam atrás apenas de Icaraí, com 485 casos, onde é maior a incidência da doença, desde o começo, e o Fonseca, onde a doença avança com rapidez e foram registrados 410 casos. A informação é a melhor defesa que o cidadão pode ter para se proteger. É a nossa contribuição.

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