Os temores do prefeito

Rodrigo Neves manifesta apreensão com aumento da doença em municípios vizinhos Por Sergio Torres Situação dramática, caótica, trágica. São expressões que o prefeito Rodrigo Neves repete à exaustão nas conversas com auxiliares próximos e nos contatos mantidos nas duas últimas semanas com líderes comunitários, religiosos, de setores empresariais e do funcionalismo público, ao falar do avanço da Covid-19 nas Regiões Metropolitanas do país, especialmente na do Rio. E tem manifestado extrema apreensão com a disseminação do vírus na população do vizinho município de São Gonçalo. De acordo com a análise de especialistas que assessoram a Prefeitura de Niterói - e do próprio prefeito - , a pandemia da Covid-19 em São Gonçalo ainda não alcançou os níveis já registrados em cidades populosas da Baixada Fluminense por causa da ação preventiva das autoridades sanitárias niteroienses. O isolamento social adotado em Niterói há dois meses, com aumento das restrições de circulação desde a última segunda-feira (11), foi fundamental para que o vírus não se expandisse tanto não só aqui, mas também em São Gonçalo, na avaliação do prefeito. Conforme levantamentos estatísticos em poder da prefeitura, mais da metade das pessoas que trabalham em Icaraí e no Centro de Niterói vivem em bairros da cidade vizinha. Como a pandemia se manifestou primeiramente em Niterói, cidade com maior percentual de pessoas das classes A e B e que tinham viajado para a Europa e os Estados Unidos nas férias de janeiro e fevereiro, o posterior distanciamento social a partir de março restringiu o contato entre moradores dos dois municípios, que formam um único aglomerado urbano. Em seguida, com a sanitização de ruas em Niterói pela prefeitura, os habitantes de São Gonçalo que ainda vinham diariamente ao trabalho não levaram o vírus para suas casas na volta do serviço. A medida pode ter contido um pouco do ímpeto do coronavírus na cidade ao lado. Mas, nas reuniões com representantes da sociedade civil e nas lives públicas, Rodrigo Neves tem sido claro: - A pandemia ainda “vai explodir” em São Gonçalo. O prefeito chegou a dizer que a ação precoce da Prefeitura de Niterói “salvou centenas de vidas” por lá. - A situação de São Gonçalo nos preocupa muito. Muito. A situação lá é muito grave - disse o prefeito em recente reunião virtual. Outro motivo de temor é a dificuldade de se encontrar, de se comprar respiradores, e isso ocorre em todo o país. O equipamento é necessário para ampliar ainda mais o número de leitos para tratamento de Covid. Neves conseguiu ampliar a rede para atendimento de pacientes com coronavírus em Niterói e ajudou na construção de um hospital de campanha em São Gonçalo, mas ampliar está cada vez mais difícil pela falta de equipamentos no mercado brasileiro. Outro dos motivos de preocupação é o histórico acolhimento que Niterói dá aos enfermos de São Gonçalo, motivado pela crônica insuficiência dos recursos hospitalares na cidade vizinha. Já nesta pandemia identificou-se a hospitalização de gonçalenses em leitos públicos e privados de unidades de saúde niteroienses. O exemplo dos leitos privados é citado por Rodrigo Neves. Na terça-feira, cidadãos de Niterói convalesciam em 65% dos leitos de UTI da rede particular, mas a ocupação era de quase 100%, em razão da transferência de doentes, principalmente, de São Gonçalo e do Rio de Janeiro. O fato de ter quase 100% de sua água tratada é um trunfo de Niterói em relação aos demais municípios metropolitanos. As condições de saneamento são bem melhores que as de São Gonçalo, por exemplo. Com uma população estimada pelo IBGE em 1,084 milhão de pessoas, contra 513 mil em Niterói, São Gonçalo tem déficit sanitário expressivo. Daí a previsão da Prefeitura de Niterói de que a pandemia, a partir de agora, vai se intensificar no município vizinho. Até terça-feira, data do último levantamento feito pelo Departamento de Estatística da Universidade Federal Fluminense (UFF) disponível no site da instituição, Niterói tinha 45 óbitos causados pela Covid-19, contra 50 em São Gonçalo. O número de casos até então (779 em Niterói; 568 em São Gonçalo) já indicava uma taxa de letalidade maior em São Gonçalo: 8,88% contra 5,78%. Pelo mesmo levantamento, Niterói era o terceiro município do estado em número de casos confirmados: capital: 10.812; Duque de Caxias: 851; Niterói: 779; Nova Iguaçu: 692; e São Gonçalo: 568. Os pesquisadores da UFF constaram que, quando se leva em consideração o tamanho da população, Mesquita (165,24), Rio de Janeiro (160,92), Volta Redonda (152,37), Niterói (151,68) e Itaboraí (134,25) registravam naquele dia as maiores taxa de casos confirmados por 100.000 habitantes. Eram os únicos municípios no estado com taxas superiores a 100 casos por 100.000 habitantes.

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