Pandemia expõe crise dos transportes em Niterói

Empresas de ônibus e barcas reclamam de prejuízos, reduzem viagens e anunciam demissões Por Carolina Ribeiro Demissões em massa já começaram nas empresas de ônibus. Foto: Gustavo Stephan A crise na economia é generalizada. Está no comércio, que não aguentou o período de portas fechadas, no desemprego crescente e também no transporte público. Nesta semana, 330 rodoviários foram demitidos em Niterói devido a dificuldades econômicas das empresas de ônibus. A previsão é que mais desligamentos aconteçam até o fim do ano. No transporte aquaviário, o prejuízo também é grande, com perda de 76% na demanda diária de passageiros. O medo é que ocorra um colapso no transporte público, já tão difícil durante a pandemia. A média diária de passageiros nas barcas era de 75 mil, chegou a cair para 11 mil durante períodos de restrição, e subiu mais recentemente para 18 mil. Bem longe ainda dos dias normais. O serviço do catamarã entre Charitas e Praça XV continua suspenso. Segundo a CCR Barcas, concessionária que administra o transporte aquaviário no Rio, mesmo com otimizações operacionais, a diferença prevista entre custos e receitas da empresa para 2020 é de R$ 150 milhões de prejuízo. Leia mais: Número de rodoviários demitidos em Niterói chega a 332 na pandemia e vai aumentar Em entrevista ao G1 em meados de agosto, João Daniel Marques, diretor-presidente da CCR Barcas, admitiu que há um risco de paralisação do transporte aquaviário devido à pandemia. Os problemas de caixa já podem começar a partir deste mês, ocasionando “algumas avarias” em algumas das linhas. - É fundamental a captação de recursos para que o pedido de socorro da área de transporte do Rio de Janeiro seja atendido, já que o setor se encontra em grave situação financeira e com grandes dificuldades para a manutenção dos serviços-, diz a concessionária em nota ao A Seguir: Niterói. O serviço está oferecendo menos viagens ao longo do dia, uma mudança que assustou os passageiros, que temem perder este modal. Devido ao tamanho das embarcações e à limitação de capacidade, há a percepção dos clientes de que o trajeto é mais seguro do que nos ônibus cheios em direção ao Rio. Quanto a isso, a CCR Barcas respondeu que, durante a pandemia, cabe ao Governo do Estado determinar as alterações operacionais no transporte aquaviário. Barcas registram queda de 76% de passageiros por dia. Foto: Reprodução da Internet Ônibus Por dia eram 550 mil acessos ao Terminal Rodoviário João Goulart, no Centro de Niterói, incluindo passageiros de diferentes municípios e trabalhadores do comércio interno do terminal. Entre abril e maio, este número caiu 80%. Antes da doença, 13 empresas operavam 60 linhas em Niterói, com movimentação diária de 865 coletivos. Em junho, já com a flexibilização de algumas atividades, o número ainda era de 332 veículos circulando, ou seja, 38,3% da frota. Hoje o percentual já se aproxima de 70%, mas não deve voltar a totalidade até que a circulação de pessoas e a economia do Rio de Janeiro esteja em pleno funcionamento. Leia também: Niterói prorroga decreto de isolamento social na pandemia até 30 de setembro Nesta semana, três empresas sediadas em Niterói iniciaram as demissões em massa. Foram 332 desligamentos em apenas um dia, com a estimativa de que mais casos aconteçam até o fim do ano. As empresas alegam que, para manter a prestação do serviço, depois da crise intensificada pela diminuição de passageiros durante a pandemia, serão necessárias ações extremas como demissões. A tendência, dizem os empresários, é que o corte de pessoal atinja entre 30% e 40% do quadro funcional das empresas até o fim do ano, algo em torno de 5,4 mil a 7,2 mil rodoviários. O presidente do Sindicato dos Rodoviários de Niterói a Arraial do Cabo (Sintronac), Rubens dos Santos Oliveira, diz que as demissões, além de prejudicarem os trabalhadores do setor, atrapalha também os passageiros que podem sofrer com menos linhas. - Cabe ao sindicato assegurar que os demitidos sejam indenizados e negociar para que as demissões estanquem. A participação do poder concedente do transporte público nesse processo de negociação é fundamental, mas até agora todos se fazem de surdos. É preciso que fique claro que o sistema vai entrar em colapso e a população precisa saber disso - afirmou. Mas, apesar das demissões, o Sindicato das Empresas de ônibus (Setrerj) diz que a operação dos coletivos seguirá normal, sem redução de linhas nem prejuízo aos passageiros. Com o isolamento social, a soma do prejuízo das empresas de ônibus que compõem a região do Setrerj, até maio, foi de aproximadamente R$ 22 milhões. Comissão de transporte Para tentar evitar uma possível paralisação dos serviços de barcas, trem e metrô, o presidente da Comissão de Transportes da Alerj, deputado Dionísio Lins (Progressista), informou que vai cobrar do Secretário estadual de Transportes a realização, de maneira urgente, de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com as concessionárias de transportes. - Independentemente da possibilidade da aprovação de uma verba federal para socorrer os meios de transportes, é importante que a Secretaria estadual não fique de braços cruzados e tente logo um acordo. Estamos atravessando um momento delicado não só em relação aos transportes de massa. Mas aceitar a posição das empresas de que a diminuição de passageiros transportados é a única responsável por tudo que vem ocorrendo, é uma covardia. Onde fica a cobrança pela péssima administração feita desses modais? E a fiscalização por parte da Secretaria de Transportes para evitar que essa situação se mantenha? - indaga o parlamentar. A Câmara dos Deputados aprovou na última quarta-feira (26) o Projeto de Lei 3364/2020, que prevê o repasse de R$ 4 bilhões a estados, Distrito Federal e aos municípios com mais de 200 mil habitantes para garantir o serviço de transporte público coletivo de passageiros em razão da pandemia. Além das empresas privadas, os recursos poderão ser destinados às empresas públicas ou de economia mista, como empresas de metrô. Os estados que receberem recursos ficarão proibidos de aumentar as tarifas do serviço. A matéria ainda será analisada pelo Senado.

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