Pensar com esperança, ainda que em meio ao caos da pandemia

Escritor reflete sobre como ser íntegro quando estamos todos aos pedaços Por Elias Fajardo Niterói vista da Praia do Flamengo em foto feita por Elias Fajardo durante caminhada Tema árduo, pois tem sido difícil conviver com esta que é a maior desgraça de saúde e social que estamos atravessando. Quer dizer, estamos, porque, como diz Adriana Calcanhoto, estamos todos no mesmo barco, embora as canoas não sejam as mesmas. Como homenagear cada um dos mortos e atingidos em todos os níveis e em todos os rincões deste país tão imenso e agora tão desprotegido? Como não cair na lamúria e na pieguice, como ser íntegro neste momento em que, de alguma forma, estamos todos aos pedaços? Talvez seja o caso de pensar num poema de Carlos Drummond de Andrade sobre um elefante de brinquedo que se quebra de noite e a cada manhã tem de juntar os cacos e recomeçar. Em dois estabelecimentos comerciais da rua onde vivo em Laranjeiras posso observar a barra e as estratégias de sobrevivência. Quem mora perto ou tem moto vem para o trabalho sem maiores transtornos, mas para quem, como Felipe, que trabalha numa mercearia e mora em Guadalupe, o jeito é pegar duas ou três conduções lotadas e torcer para não se contaminar. Em nenhum dos dois estabelecimentos, ao que tenho notícia, alguém ficou doente, o que não quer dizer que não os haja, pois existem os assintomáticos. Mas isto é um assunto para o pessoal da saúde ou para os pesquisadores. A mim, que sou do grupo de risco e também tenho me virado como posso, resta tentar pensar com esperança, ainda que em meio ao caos. Um bom guia neste cenário tem sido o filósofo italiano Domenico de Masi, que afirma (em artigo publicado em 14 de março deste ano) que em seu país a convivência com a pandemia passou pelas seguintes etapas: descrença, caos, reclusão e resignação. A ele recorro para terminar este pequeno artigo, dedicado ao pessoal de Nikiti, que costumo contemplar ao longe em minhas caminhadas pela Praia do Flamengo e onde vivem parentes e amigos meus. Eis o final do texto de De Masi: “No entanto, quando este desastre, como aparentemente deve ocorrer, for superado, quando finalmente festejarmos o momento suspenso em que é finda a angústia e ainda não está claro o porvir, quando tentarmos esquecer assim que possível o período que acabou de passar, inéditos e impotentes, talvez tenhamos aprendido que nem mesmo o medo da morte pode estabelecer igualdade entre os homens, mas que o afeto humano continua sendo nossa única salvação.” Elias Fajardo é escritor, jornalista, artista visual. Faz oficinas de criação literária na Estação das Letras, no Rio.

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