Portarias, uma barreira na guerra contra a Covid-19 em Niterói

Porteiros treinados usam armas especiais para combater o coronavírus nas entradas de prédios e condomínios Desde o início de março, quando a pandemia começou a assombrar a vida de todos, os prédios de Niterói passaram a tomar medidas que atenuassem o perigo oferecido nas portarias, entradas que se transformaram em territórios ameaçados pelo coronavírus. Aos poucos, porteiros, síndicos e moradores se mobilizaram para adotar ações de segurança e implementar regras para combater a disseminação do inimigo. Nesse front, o soldado mais importante é o porteiro, que passou a exercer o papel de guardião da portaria, da vida dos moradores e, principalmente, da sua própria vida. Eldo de Almeida, síndico há 11 anos do Condomínio Camargue Provence, na Rua Álvares de Azevedo 130, resolveu agir rápido e hoje é uma espécie de referência para outros síndicos de Icaraí. O condomínio, que tem dois blocos de 84 apartamentos cada e é muito organizado, adotou padrões rígidos para porteiros e moradores. Álcool em gel, sabonetes, desinfetantes e uso de luvas e máscaras fazem parte da rotina dos porteiros, que orientam moradores sobre as melhores práticas e só permitem que entregadores entrem depois de verificarem que estão seguindo todo o protocolo. - Ninguém entra sem luvas e máscaras. Se o entregador não tem, nós fornecemos. Se não quiserem usar, não entram. Contratamos uma empresa de esterilização e desinfetamos o prédio e a portaria inteira. Além disso, porteiros e funcionários usam um vaporizador para desinfetar o ambiente, várias vezes ao dia, com água à temperatura certa para matar o vírus. Aqui ele não tem vez – comemora Almeida, orgulhoso do “programa contra o corona” que o prédio criou. O condomínio fechou salões de festas, playground, academia de ginástica e espaços para lazer. Para compensar, construiu uma área para as necessidades dos pets. Com regras de utilização, como uso obrigatório de máscaras. Os porteiros acompanham os procedimentos e o comportamento dos moradores por dez câmeras que controlam o condomínio inteiro. A vigilância é intensa mas não incomoda os moradores. Almeida diz que todos ajudam os porteiros a manterem as regras e estão satisfeitos com as medidas. O resultado é bom. Nenhum porteiro foi contaminado no prédio. Num edifício no final da Rua Belisário Augusto, em Icaraí, os porteiros vão além do front. Muitas vezes, preocupados com os riscos de os moradores mais velhos, alguns se oferecem para fazer compras nas farmácias e em supermercados próximos. A ajuda é necessária porque nesse prédio, que fica no número 91, nenhum entregador pode subir até os andares de quem pediu o delivery. - Os porteiros avisam pelo interfone que a compra chegou. Se já tiver sido paga pela internet, eles põem as sacolas num carrinho de compras e o morador pega no seu andar. Se tiver de pagar na hora, o morador precisa descer até a portaria e receber. Mas não entra ninguém no prédio além de moradores. Médicos ou visitas autorizadas, sim, mas têm sido raríssimas – diz Sergio Machado, morador do condomínio há 50 anos. O edifício tem 11 andares e muitos idosos. O fluxo por corredores e elevadores, portanto, está muito baixo. Mas há álcool em gel aos montes na entrada da garagem e na portaria. Porteiros e faxineiros sempre usam máscaras. Um dos dois elevadores foi desligado para reforçar o controle e só uma portaria está funcionando. Os porteiros devem esfregar as mãos com álcool em gel sempre que manipulam correspondências, trincos de portas e interfones. E só retiram as máscaras na hora das refeições. - A portaria é uma área muito perigosa. Passa muita gente ainda que esteja fraco o movimento. O pior é quem vem entregar encomenda. Nunca sabemos onde estiveram antes. Por isso, o melhor é tomar os nossos próprios cuidados – diz um porteiro. No prédio número 88 da Rua Lopes Trovão, também em Icaraí, houve um susto e uma preocupação adicionais no começo da pandemia. Um dos porteiros teve dor de cabeça forte e febre, dois dos muitos sintomas de Covid-19, tendo de ser afastado. Todos ficaram muito preocupados com ele, um simpático flamenguista, que gosta de conversar com os moradores que passam pela portaria. Mas felizmente o resultado do teste deu negativo. De qualquer forma, porteiros e demais funcionários são obrigados a usar máscaras o tempo todo. Lá entregadores têm podido subir, depois de autorizados pelos moradores, e não há casos registrados de pessoas contaminadas. Como em quase todos os prédios, o edifício número 113 da Praia de Icaraí fechou play, salão de festas, quadras de esporte e piscina. Está tudo proibido para uso há dois meses. No começo, o porteiro mais idoso do grupo foi afastado preventivamente porque tem mais de 60 anos, mas já voltou a trabalhar. Todos sempre com máscaras e com álcool em gel nas mãos. Na Rua Mem de Sá 112, o síndico afixou um aviso no elevador pedindo para descer uma pessoa de cada vez. Isso tem acontecido em outros prédios, mesmo quando não há uma recomendação expressa. Há moradores que evitam entrar no elevador caso haja alguém lá ou que pedem para a pessoa esperar quando a porta se abre e já está ocupado. Quando entram, apertam os botões com o cotovelo ou chaves. - No início, alguns moradores chamavam o elevador e pediam para eu apertar o botão do andar. Viam os vidros de álcool na mesa da portaria e achavam que era tarefa fácil. Muita folga, né? Falei com a síndica e ela permitiu que eu me recusasse a fazer isso. Porteiro não é apertador de botão. E eu posso me contaminar só porque sou porteiro? - pergunta um funcionário de um dos prédios que não quis se identificar. No Jardim Icaraí, a tranquilidade do movimento da portaria só é interrompida pelas entregas de mercadorias. Na portaria de um os condomínios da pacata Rua Herotides de Oliveira, a funcionária Rosilene Maria Soares explica que os moradores praticamente não saem mais de casa, alguns desde o início de março. E percebe mudanças no comportamento também dos entregadores: - Antes os moradores pediam para receber compras e comida na porta do apartamento e os entregadores subiam até lá. Hoje, todos preferem que tudo seja colocado no elevador, para que não tenham nenhum contato com eles. Todos com medo - conta Rosilene. Já no prédio 451 da Rua Moreira Cesar, o play está fechado, mas moradores têm usado uma área comum, como se fosse um grande salão na entrada, aberto para a rua e separado só por grades, para tomar sol. Os porteiros acompanham os banhos de sol pra verificar uso de máscaras e a distância que o condomínio recomenda. O cuidado com a limpeza é constante, com álcool em gel e toalhas de papel sempre disponíveis na bancada da portaria do edifício. O Sindicato dos Empregados de Edifícios de Niterói (Seen), que representa os porteiros, diz que eles passaram a trabalhar mais na pandemia, principalmente nos condomínios residenciais. Mais pessoas em casa o dia todo, mais lixo, muito mais entregas. Por isso, o sindicato informou que orientou os trabalhadores a redobrarem a atenção, manterem distância de visitantes e moradores, cobrarem da administração dos prédios equipamentos de proteção individual e produtos de higiene.

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