Praias desertas

Por Trajano de Moraes Disfarçado de gaivota, sobrevoei as praias de Niterói às vésperas do lockdown. Queria encher meus olhos de sua beleza, meu olfato do cheiro do mar e dar uns mergulhos no azul. Encontrei-as tristes, cheias – não de gente, mas de dúvidas. Icaraí e Flechas me perguntaram onde está todo mundo que dá vida a seu calçadão. Boa Viagem queixou-se de solidão. Gragoatá sente falta da linha e dos anzóis dos pescadores. Em busca de alívio, voei no sentido inverso, mas nada mudou. São Francisco quis saber das crianças que costumam brincar em suas areias. Charitas não entende onde foram parar os corredores e ciclistas que a visitam. Jurujuba procura os grupinhos da conversa e da cerveja. Praias do Forte e Imbuí estão saudosas dos civis. Adão e Eva me disseram: - Só vocês, gaivotas, nos visitam. Atormentado, pousei para descansar e alcei vôo em direção às oceânicas, desconfiado. Camboinhas, Piratininga, Itacoatira, Itaipu, Sossego. Todas tristes, queixosas. Indagaram pelos grupos que vão comer peixe. Pelas famílias que chegam mais cedo. Pelos alegres bate-papos nos quiosques. Pelos surfistas. Pelas paqueras. Procurei forças para responder e, sem nenhuma convicção, disse-lhes que todos voltarão em breve. E cantarolei “As praias desertas continuam esperando por nós dois. A este encontro eu não devo faltar”, os primeiros versos da canção "As praias desertas", de Tom Jobim, do álbum Canção do amor demais, gravado por Elizeth Cardoso em 1958. Trajano de Moraes é niteroiense e jornalista, gosta de praia, música, cerveja, chocolate e bicicleta.

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