Preços dos mercados assustam e viram caso de Procon em Niterói

Moradores enfrentam problemas com compras no escuro, delivery e alta dos preços Foto: Divulgação/ Procon RJ De uma hora para outra, mudou tudo. E a rotina de fazer compras no supermercado, se tornou um tema nervoso na vida do morador da cidade - e de qualquer cidade. O isolamento restringiu aquela saída corriqueira ao mercado da esquina. Fazer compras, virou uma operação de guerra. Não apenas pela restrição da movimentação na cidade, mas sobretudo pelo medo de contaminação. Impossível imaginar a semana de aniversário do Guanabara nestes tempos de quarentena. As velhas recomendações dos economistas não funcionam mais. Ninguém vai percorrer dois ou três mercados comparando preços. Compra-se o que se encontra diante das prateleiras. Quem não se aventura a vestir máscaras e luvas para enfrentar a fila, o movimento dos carrinhos, o pagamento nos caixas descobriu as compras por aplicativo - ou por telefone, mesmo, ditando item por item - e o dellivery. Parece que a vida ficou mais fácil, #sóquenão. Fazer compras é a nova loteria. Silviane, moradora de Icaraí, relata que compra por lista, no escuro. Faz o pedido no Superprix de Icaraí, sem saber o preço de cada item e o que vai levar, no final. Há três semanas fez um compra de R$ 691,97. As compras chegaram dois dias depois, com mercadorias no valor de R$ 586,30. Até hoje não conseguiu receber de volta a diferença do que pagou e não recebeu. Suzy é mais organizada, checa os preços de três mercados, não dá mais para pesquisar produto por produto, compara pelo preço total e faz o pedido. Mesmo assim tem surpresas. Muitas vezes, recebe produtos que não compraria, de marcas diferentes das pedidas. Pediu uma barra de chocolate 70% e recebeu … uma lata de Nescau. No Tévere, um saco de batatas pequenas virou um pacote de batata frita Lays. Esta aliás é uma queixa recorrente. Betina reclama do Hortifruti, diz que recebe produtos “estranhos”, que nunca compraria, “sempre mais caros.” Na terceira vez que foi às compras tentou assegurar-se com o mercado sobre produtos e preços. A informação, parecendo mensagem gravada, era de que o mercado não podia fornecer as informações, porque muitas vezes o produto não era encontrado, e não havia como assegurar os preços. Sandra resolveu que só fará compras a cada quinze dias. É um momento tenso. E de muitos sustos. Acorda cedo para passar a lista a uma atendente do mercado em São Francisco. Não sabe o que vai receber. Muita coisa está em falta, outras vezes os produtos vem errados. Tem caixas e caixas de Maizena e ainda não conseguiu amido de milho. Fermento biológico chega a soletrar na hora de pedir, mas só amplia o estoque de fermento royal instantâneo. Só descobre isso tudo quando as compras chegam. E invariavelmente fica boquiaberta com o preço dos produtos. Já fez compras de R$ 1.200,00! Quando costumava gastar R$ 800,00 no mercado. O maior problema é que os pedidos nem sempre incluem a marca. Um molho de tomate, de R$ 4,00, já virou um molho italiano de R$ 14,00. E foram seis unidades. Na quarentena, nem dá para reclamar. Mais ou menos, porque as queixas aparecem em todos os serviços de proteção do consumidor. Até no disque-denúncia há um registro importante de abuso de preços. Especialmente daqueles produtos ligados à higiene e limpeza, como álcool em gel, detergente, água sanitária, luvas. Entre 16 de março e 26 de maio foram 679 denúncias. Delas, 98 eram alertas sobre riscos de propagação da doença em supermercados, por falta de cuidados e aglomeração. Mas quase 10% se referiam a aumentos de preços. Com tanta queixa, o Procon foi acionado nesta sexta-feira 29.05 em Niterói e municípios vizinhos. Mercados foram multados por exibir produtos fora da validade. A lista de preços abusivos é enorme e não se restringe a material de limpeza ou preços sazonais. Mateus reclama que encomendou uma picanha, num mercado em São Francisco, e quando recebeu a nota descobriu que pagou R$ 60,00 pelo quilo. R$ 90,00 a peça de um quilo e meio. Ficou indignado, pensou em telefonar para reclamar, mas acabou desistindo. Vai ter que continuar comprando do lado de casa, que é um dos poucos mercados que entrega no seu endereço. Foto: Divulgação/ Procon RJ Em Niterói, a fiscalização visitou os seguintes endereços: Multimarket, rua Dr. Paulo Cesar, Santa Rosa; Supermarket, avenida. Joaquim Costa Lima, Santa Amélia e Supermarket, estrada General Castro Guimarães, Largo da Batalha.Em todos os mercados visitados a fiscalização não conseguiu traçar um comparativo entre os preços praticados atualmente e aqueles praticados antes da pandemia por ausência de documentação pertinente. Os estabelecimentos têm 48 horas para enviar as notas fiscais de compra e venda dos produtos, a partir de janeiro de 2020, para a análise e comparação com os preços praticados atualmente. Outra questão, e denúncia recorrente nos órgão de defesa do consumidor, é aonde fazer as compras e assegurar a entrega em prazo hábil? No Hortifrutti a entrega pode ser feita em 48 horas. No Pão de Açúcar, em época de mais movimento, como nos próximos dias, em torno do “pagamento”, a espera não tem previsão. Melhor, manter relacionamento com os mercados que asseguram a entrega. Os serviços às vezes são cobrados. Martina pagou R$ 8,00 para receber as compras em casa. Achou justo. E ainda deu uma gratificação ainda maior ao motoboy, pelo trabalho que estão fazendo, às vezes se arriscando nas ruas. Laís tenta manter a calma. Ainda sai para as compras e muitas vezes ainda se dá ao trabalho de pesquisar. Esta semana, encontrou preços muito discrepantes. A diferença não chega a ser novidade. Mas acha que agora realmente o risco de se surpreender com os preços ficou ainda maior. Um vidro de azeite que costumava custar R$18 agora só se encontra por R$ 22. Outro problema é que sem o olho do cliente, o produto entregue nem sempre tem a melhor qualidade. Miriam reclama que comprou mangas e chegaram podres. Sandra também passou por isso. Mamão estragado, cebola estraga. Diante das dúvidas e reclamações, e da dificuldade de fiscalização com as restrições de movimentação, o Procon Estadual do Rio de Janeiro publicou uma cartilha dia 22 de maio, para orientar especialmente sobre as compras on-line, o novo normal em tempos de pandemia. Orienta sobre informações que devem ser fornecidas, prazos de entrega e formas de pagamento. Tudo no site www.procononline.rj.gov.br. O pior de tudo, porém, é que a dor de cabeça não termina com a chegada das compras. As condições de entrega e retirada das sacolas é outra preocupação, quando se sabe que o vírus pode sobreviver até três dias ou mais, dependendo da superfície, e o plástico é a que oferecer maior sobrevida ao coronavírus. Nos condomínios há regras: ninguém entra sem máscara, nada pode ficar na recepção. Vários prédios de Icaraí criaram normas severas de descontaminação, inclusive na higienização dos botões dos elevadores. A recepção exige luvas, máscaras e a criação de uma área de descontaminação, para a limpeza de cada produto, um por um, com água sanitária, detergente ou álcool em gel. Uma operação delicada que pode durar horas em enorme tensão. No final, roupa para lavar e banho. Mil e duzentos??!! Que absurdo! Ufa! Até a próxima compra.

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