Prefeitura suspende atendimento em ambulatório para travestis e transexuais de Niterói

Funcionária da unidade foi agredida por um paciente na última semana. Movimentos sociais criticam a paralisação por um caso isolado Por Carolina Ribeiro O ambulatório para trans, que fica na Policlínica de Especialidades Sylvio Picanço, no Centro. Foto: Divulgação O ambulatório de atenção à saúde da população travesti e transexual João W. Nery, localizado no Centro de Niterói, está com os serviços paralisados, pelo menos por uma semana. Na última quarta-feira (5), uma funcionária da unidade foi agredida, física e verbalmente, por um dos pacientes, que já teria apresentado um histórico de assédios e agressões contra mulheres. Pacientes e movimentos sociais criticaram a paralisação devido ao caso isolado, classificando a ação como transfobia e pedindo por mais segurança nas unidades de saúde. Em um longo texto nas redes sociais, Bruna Benevides, Secretária de Articulação Política da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) e vice-presidenta do Grupo Diversidade Niterói, contou que diversas outras mulheres, cisgêneros ou trans, já denunciaram ter sido vítimas do agressor, um homem trans. Dessa vez, porém, a agressão foi física e no local de atendimento clínico. Em entrevista ao A Seguir: Niterói, Bruna disse que, apesar de grave, este caso não pode ser uma justificativa para interromper o atendimento de todos os pacientes trans. Além disso, para ela, demonstra que a segurança deveria ser reforçada, em todas as unidades públicas de saúde, não só no ambulatório. -É um absurdo um serviço ser paralisado por isso, especialmente porque demonstra uma estrutura que está fragilizada no quesito segurança. Utiliza de um caso isolado e reforça uma transfobia institucional em cima de um serviço, atribuindo a responsabilidade a uma população. Fica parecendo que ele só fez o que fez porque é uma pessoa trans e que pessoas trans são violentas - contrapõe. Uma das críticas em relação à suspensão dos serviços é que o ambulatório de atenção à saúde da população travesti e transexual foi o único serviço a ser paralisado. O ambulatório está localizado na Policlínica de Especialidades Sylvio Picanço, na Avenida Amaral Peixoto, no Centro de Niterói, local que reúne diversos andares de especialidades médicas e clínicas. -Isso fico legitimado quando há um fechamento especificamente do atendimento à população trans, sendo que lá funcionam diversas outras clínicas em vários andares. É um absurdo fechar apenas um setor. E aí fica a denúncia do quanto essa é uma atitude arbitrária e transfóbica - enfatiza. O ambulatório atende cerca de 200 pessoas atualmente. Mesmo em meio à pandemia do Covid-19, o espaço permaneceu ativo, quando em várias outras unidades de todo o Brasil o atendimento foi interrompido. Inaugurado em 2018, o ambulatório é pioneiro entre todos os municípios do Rio de Janeiro com a destinação de um espaço exclusivo para as pessoas transexuais serem assistidas em seus processos de hormonização. -A manutenção do serviço é, acima de qualquer coisa, a garantia do acesso à saúde como está em nossa Constituição. Qualquer decisão que retroaja ou que negue o acesso à população ou aos cuidados previstos está causando danos à saúde da população trans porque essas pessoas vão deixar de ser atendidas. E, ao deixarem de ser atendidas, são desencadeados diversos processos, especialmente relacionados à saúde mental - explicou, completando que a unidade é a única municipal no Estado, atendendo também pessoas de outras cidades. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Niterói informou que foi informada do fato (a agressão) e que a funcionária tomou as medidas legais cabíveis e está recebendo todo o apoio necessário da Secretaria. A SMS reforçou que “não há intenção de fechar ou extinguir o serviço implantado de forma pioneira na cidade e que hoje atende cerca de 200 pessoas por conta de um acontecimento isolado”. A Prefeitura diz ainda que “esta semana haverá uma pausa no serviço para uma avaliação dos processos de trabalho da equipe para definir melhores condições de atendimento aos usuários e para atuação dos profissionais”. O atendimento no ambulatório, quando aberto, é feito nas quartas-feiras, das 9h às 12h30m, na Avenida Ernani do Amaral Peixoto, nº 169, 4º andar.

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