Psiquiatra adverte para medos e fobias na pandemia

Especialista defende ajuda especialista no caso de agravamento de medos Por Melina Amaral O psiquiatra Orli Carvalho Não apenas a pandemia e o isolamento social, mas também a transição gradual para a chamada “nova normalidade” vem trazendo consequências danosas para a saúde mental da população. Nesses casos, a busca por ajuda especializada é fundamental. Em entrevista ao A Seguir: Niterói, o médico Orli Carvalho, psiquiatra do Instituto Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira/Fiocruz e doutorando em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca/Fiocruz, defende que o diagnóstico psiquiátrico, ainda que baseado em critérios estabelecidos e validados, necessita sempre de uma avaliação clínica individual a partir de uma relação profissional. A SeguirÇ Após este longo período de isolamento social, sem precedentes para a atual geração, a retomada gradual das atividades tem se mostrado um momento de grande receio para muitas pessoas. Nesse contexto, surgem preocupações relacionadas à saúde mental. Como podemos diferenciar uma situação de medo de um caso real de fobia? Oli Carvalho: De forma simples, chamamos de medo uma resposta emocional e sinal de alerta a uma ameaça conhecida e externa, geralmente uma condição pontual. O medo é uma reação normal na espécie humana e de grande valor evolutivo. A fobia pode ser entendida como um medo excessivo e irracional, com importantes prejuízos no cotidiano. Desse modo, a fobia desencadeia um padrão de respostas não esperados e disfuncionais para o indivíduo considerando sua fase de desenvolvimento e o seu entendimento do mundo que o cerca. Ainda que o atual momento de incerteza durante a pandemia e de receio com o futuro nos levem a buscar modelos explicativos e de condutas comportamentais, devemos ter um pouco mais de calma nesse processo que se encontra em curso, com mais dúvidas do que evidências. Assim, alguns entendimentos sobre suas consequências na saúde mental dos diferentes cidadãos ainda estão sendo apontados e ponderados. O diagnóstico psiquiátrico, mesmo estruturado em critérios estabelecidos e validados, depende de uma avaliação clínica individual a partir de uma relação profissional. Ainda assim, é possível que transtornos de ansiedade, como a agorafobia, por exemplo, venham à tona? A agorafobia, assim como outros diagnósticos psiquiátricos quando feitos de forma responsável, precisa ter manifestações acentuadas e trazer intenso e mantido desconforto psíquico. É possível que muitos venham a apresentá-la durante e após a pandemia, de fato; mas é mais provável que muitos dos quadros de medo de andar de transporte público, de sair de casa sozinho ou de permanecer em espaços abertos ou fechados sejam uma reação aguda a uma situação nova para toda a humanidade. Uma reação normal diante de um cenário anormal. É fundamental entendermos que o estranhamento e o incômodo emocionais a essa situação adversa são um sinal de saúde mental; mais danoso seria estarmos confortáveis e paralisados diante disso tudo. É a manutenção e a cronicidade limitante desse desconforto que traz uma preocupação. Desse modo, ainda que tenhamos uma expectativa no aumento de transtornos mentais num futuro próximo, precisamos entender que todos estamos em adaptação; no lidar com a família, com o trabalho, com a escola, com o dinheiro. Uma adaptação que não é fácil, principalmente para os grupos de maior vulnerabilidade social. Ter alguns sintomas de ansiedade, insônia ou ainda dificuldades de cumprir tarefas usuais não podem ser automaticamente transformadas em diagnósticos. Diante desse reconhecimento, algumas outras medidas podem colaborar: manutenção de uma rotina organizada (com demarcação de espaços e horários), estabelecimento de atividades de lazer e exercício físico, busca de prática reflexiva ou espiritual, manutenção de alimentação saudável, acesso moderado a fontes de notícias e redução no consumo de substâncias psicoativas (álcool ou outras drogas). Tais medidas colaboram na resolução de grande parte dos quadros de medo e ansiedade neste momento. Na persistência ou no agravamento deles, uma ajuda especializada deve ser buscada. Outra situação que parece gerar um certo desconforto nessa transição para a chamada “nova normalidade” diz respeito ao uso das máscaras, ainda por tempo indefinido. Essa nova determinação pode ter algum impacto na saúde mental? Considerando o uso de máscaras na atual pandemia, é preciso sabermos se as pessoas entendem o porquê desse dispositivo ser tão importante para sua proteção individual e para a coletiva. Isso pode ser difícil segundo a escolaridade e a vivência de cada um. Por isso, demarcamos ser fundamental que lideranças políticas e sociais acatem as determinações das autoridades de saúde e incentivem o uso permanente das máscaras. As experiências internacionais no enfrentamento de epidemias e pandemias apontam que uma comunicação responsável, clara e que combata ativamente as “fake news” seja capaz de trazer segurança e conforto aos cidadãos, reduzindo sentimentos de medo e de desesperança e, com isso, representando potencial redução no surgimento e na manutenção de diversos transtornos mentais. Ainda sobre o uso das máscaras, que tipo de situações podem surgir nessa nova sociedade de rostos semi cobertos? É possível que haja algum tipo de desconforto na relação entre indivíduos com as feições parcialmente escondidas? É fundamental, antes de tudo, reforçarmos que o uso de máscaras se constitui em uma medida imprescindível para o controle epidemiológico da Covid-19. As máscaras não devem ser utilizadas em crianças abaixo de dois anos de idade: todo o restante da população deve utilizar, diante da necessidade de sair do seu isolamento, ou ainda quando diante de um caso suspeito ou identificado, mesmo que em isolamento domiciliar. Esse fato é o mais importante! Precisamos nos lembrar como em muitos países asiáticos, por exemplo, o uso de máscaras é mais bem aceito pela população, já fazendo parte de sua cultura; exemplos disso são a proteção diante de diferentes quadros respiratórios ou de cenários de intensa poluição. É claro que estamos encontrando dificuldades de comunicação com o uso de máscaras, mas é precoce pensarmos em transtornos psiquiátricos ou fobias decorrentes especificamente dessa dificuldade de comunicação, neste momento. O ser humano tem muitas habilidades de adaptação e acredito que já estamos encontrando meios de superar: a ampliação do contato virtual em isolamento é uma dessas estratégias. Uma preocupação mais importante que deveríamos ter é com a população de surdos que recorre à leitura labial para o diálogo; a utilização de máscaras transparentes pode ser uma possibilidade aos que mais frequentemente convivem com esse grupo. Que outros “legados”, em termos de transtornos e/ou distúrbios, esse isolamento e, agora, esse “novo normal” podem deixar para a sociedade? O termo “novo normal” tem ganhado cada vez mais espaço nos veículos de comunicação e isso é muito interessante. Pensar que a pandemia de Covid-19 se configura, simbolicamente, como a inauguração do século XXI é algo que tem sido defendido por estudiosos de diferentes áreas e tem um paralelo histórico como o ocorrido com o século passado. Novamente, a capacidade de adaptação da espécie da humana precisa ser valorizada e esse deve ser o nosso trunfo; será essa nossa capacidade de sermos flexíveis que garantirá nossa sobrevivência. Estudos de sociedades que passaram por eventos traumáticos em larga escala, como guerras e catástrofes naturais, apontam que um 1/3 de uma população exposta a tais eventos podem vir a desenvolver sintomas de sofrimento emocional. Quadros de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático são os mais esperados. Assim, um novo normal tende a se constituir, mas querer prever toda sua estrutura agora é, em certo modo, uma especulação. Um ponto que parece ser marcante é a relação com a tecnologia que ganhou espaço e força, mas que também denunciou fortemente o cenário de desigualdade social em nosso país. Em relação à tecnologia, duas condições se apresentam, potencialmente, como um problema em relação à saúde mental: o uso abusivo/dependência tecnológica e a “infodemia”. O primeiro tem crianças e adolescentes como grupo que requer mais atenção neste momento, uma vez que as telas têm sido mais usadas em diferentes contextos; pensar como podemos nos tornar mais dependentes desses recursos é um ponto para o futuro, principalmente para os ainda em desenvolvimento físico, cognitivo e emocional. O segundo passa pelo excessivo consumo de informações sobre a pandemia; uma preocupação demasiada por dados atualizados tem proporcionado desconforto emocional em muitas pessoas. Nesse contexto, a rápida disseminação de informações incorretas tende a provocar confusão e conflitos ainda maiores; a “infodemia” termo ainda em adaptação em português reflete isso: o excesso de informações que proporciona o pavor e ameaça. Mesmo que não relacionada exclusivamente à saúde mental, mas seguindo essa linha, a desigualdade social que se reflete na aquisição de bens tecnológicos pode se transformar num imenso problema. O recente debate nacional que antecedeu o adiamento do ENEM trouxe essa fundamental questão. Embora o vírus seja único, a expressão da doença e da sua letalidade têm mostrado intensa relação com determinantes sociais e com diferentes vulnerabilidades, seja em manifestações de adoecimento físico e emocional. A preocupação com a saúde mental passa obrigatoriamente por esse reconhecimento.

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