Quarentena em São Paulo não afasta morador de Niterói

Trancado na capital paulista, jornalista lembra a rua onde morou, no Viradouro, e reflete sobre a infância em Niterói Por Hélio Muniz Jornalista Hélio Muniz Milhões de anos atrás, o centro do universo era uma rua sem saída no Viradouro. Asfaltada pelo meu avô, que fugira do trânsito louco e do movimento insano do Pé Pequeno, a rua Sebastião Dantas era o mundo. Tinha vida selvagem, um morro cheio de mato e árvores, com trilha e tudo, que subia no fim da travessa e guardava umas plantas bolotudas espinhentas e perigosas com as quais os meninos mais velhos faziam guerra. Tinha também mamoeiros selvagens que produziam canudos para fazermos bolinha de sabão. Tinha esporte. Um futebol com gols feitos de chinelo onde eu era sempre o último a ser escolhido. Melhor dizer logo que nunca era escolhido. Tinha o temível Garrafão, a brincadeira lendária, para guerreiros. Tinha ciência, mães e meninos empenhados em fabricar cola com arroz e farinha. Para as cafifas e balões. Cafifa. Só quem morou nas imediações do Centro do universo pode dizer o que é cafifa. Tinha aventura. Quando as cisternas transbordavam e inundavam as calçadas, era hora de deslizar de peito sobre as águas até quebrar um dente ou dois na tampa do bueiro. Tinha corridas de velocípede, tinha o meu primeiro time de botão, que usava o cimento liso das mesmas cisternas como mesa. Tinha paixão e sensualidade. Patrícia, uma garota que me dava socos na barriga todos os dias e jurava para a rua que eu era o namorado dela. Tinha cultura também. A primeira quadra da atual campeã do carnaval, Viradouro, fazia divisa com a rua. E o velho Altamiro, meu avô, encerrava os ensaios no grito, por conta de um neto recém-nascido. Eu, no centro do universo, pegando no ganzê. E me embalando no ganzá. Era uma rua onde televisões preto e branco pegavam fogo e um mágico chamado seu Cosme, vizinho, ia lá consertar. Era um sistema solar de balões japoneses, de estalinhos barulhentos e de perigosas cabeças de nego vendidas em barraquinhas. As naves estelares eram caminhões que vendiam laranja a granel e o amedrontador Garrafeiro, que passava gritando e que levava, junto às garrafas de vidro, crianças levadas. Um mundo onde as mães plantavam cana. Para chupar cana depois do jogo de futebol em que eu nunca entrava. Essa via láctea ficava na constelação de Santa Rosa e a rua, imensa, desembocava numa outra, gigantesca, maior que a Avenida Paulista, a Rua Beltrão. Com seu João, o barbeiro, cortando meu cabelo na máquina manual e me deixando com cara de cuia. Com Iracema, da loja de artigos religiosos que tomava conta do São Jorge do meu avô. Com meu pai levando cascos de Brahma para trocar por cerveja no botequim do Amaro Gordo e comprando Almanaque Disney para mim na banca em frente, do irmão, o Amaro Magro. Meu mundo se expandiu nos últimos 45 anos. Para depois se contrair novamente e encolher em uma pandemia. Agora, sentado numa varanda paulistana, a 378,7 km da Rua Coronel Sebastião Dantas número 55, sonho com um ensaio da Viradouro, que não fica mais no Viradouro. Penso numa revolução movida a bolotas de mamona derrubando governos. Deliro com estalinhos e me penduro em um balão japonês. Preso por um vírus, a gente percebe que nunca deixará de ser o moleque melequento que abria a cabeça nos muros e que não era escolhido no par ou ímpar. Nessa hora, a gente acredita, firmemente, que o lugar em que se aprende a andar de bicicleta sempre vai ser o centro do universo. Hélio Muniz é Diretor de Comunicação Corporativa, Diversidade, Sustentabilidade e Relações Institucionais da ViaVarejo.

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